segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A HARPIA ALEMÃ É PERSONA NON GRATA





A HARPIA ALEMÃ É PERSONA NON GRATA

Você transita no encardido da trama imobiliária
e aprecia. O sumamente reles empoa-lhe a tineta
e não há malha caída a que não responda. De facto,
você poderia ser uma mulher de tomates, não fosse
o esgar com que a todos contamina, ou os juros
com que faz pagar o que amontoa. No mais,
está sempre certa. Não há engano que a subleve
desde que se afeiçoou a isso a que chama vida,
robusto nome para quem circula, de desdém
em desdém, a não amar ninguém.
Ciosa da avenida, o furor uterino faz-lhe bem.
É um meio eficaz para quem sabe
que entre o gargarejo e a comandita,
basta de garbo sobre os tempos mortos.
Contudo, se soubessem como é que você fode,
talvez não houvesse motivo para ir ao prestamista,
ou recorrer à bruxa. A fila já não buzinaria, assim, tão à má fila.
E a cidade, corruptora e vil, tomaria de si o grado exemplo
e requisitar-lhe-ia os serviços, apenas em avença.
Obviamente, você insistiria. Determinadas
matérias, que são inflamáveis, perto de si
explodem, ao mínimo descuido. Qualquer que lhe vá
à frente, é um alvo a abater, seja espírito incauto, ou poeta,
chegado da província. Diabo que a carregue, já se sabe,
leva consigo em cima, enquanto, interiormente,
você se ri, lembrando-se do paizinho, do resto da família,
o tio Adolfo em Berchtesgaden. É curioso notar
essa ingénita maneira com que se faz passar
por um ser angelical, como se não partisse um prato
e mais a cristaleira. Assim, tanta inocência,
relativiza-lhe o opróbrio com que se enfeita,
com máscara ou sem máscara crudelíssima. Ignóbil como é,
você sabe morder pela calada, rosnando à perfeição,
se a coisa fica mais ou menos preta, sempre a lamber
a beiça, enquanto busca o mais que há-de comer.
E a angústia é que come, a repartir afronta
pelos outros, candidamente nus na sua alcofa.
Mas esses são uns estroinas que nunca trabalham, pelo menos
é assim que você os pensa, a esconder na ofensa
a progénie da sua própria génese,
linhagem de excelência, cf antigamente:
«os nossos inimigos são pequenos vermes».
Nós, os que aqui estamos, destroçados e aflitos
pela agrura, olhamo-la descrentes, e mortos
pelos seus golpes, desejamos-lhe um fim
com muita terra dura.


© Amadeu Baptista



sábado, 10 de novembro de 2012

António Nobre


LUSITÂNIA NO BAIRRO LATINO

1

............................................ Só!

Ai do Lusíada, coitado,
Que vem de tão longe, coberto de pó.
Que não ama, nem é amado,
Lúgubre Outono, no mês de Abril!
Que triste foi o seu fado!
Antes fosse pra soldado,
Antes fosse pró Brasil...

Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite,
Searas que davam linho de fiar,
Moinhos de velas, como latinas,
Que São Lourenço fazia andar...
Formosas cabras, ainda pequeninas,
E loiras vacas de maternas ancas
Que me davam o leite de manhã,
Lindo rebanho de ovelhas brancas;
Meus bibes eram de sua lã.

António era o pastor desse rebanho:
Com elas ia para os Montes, a pastar,
E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
E o pasto delas era o meu jantar...
E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
Passava a noite, passava o dia
Naquela doce companhia.
Eram minhas Irmãs e todas puras
E só lhes minguava a fala
Pra serem perfeitas criaturas...
E quando na Igreja das Alvas Saudades
Que era da minha Torre a freguesia)
Batiam as Trindades,
Com os seus olhos cristianíssimos olhavam-me,
Eu persignava-me, rezava «Ave-Maria...»
E as doces ovelhinhas imitavam-me.

Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite...
Um dia, os castelos caíram do Ar!

As oliveiras secaram,
Morreram as vacas, perdi as ovelhas,
Saíram-me os Ladrões, só me deixaram
As velas do moinho... mas rotas e velhas!

Que triste fado!
Antes fosse aleijadinho,
Antes doido, antes cego...

Ai do Lusíada, coitado!

Veio da terra, mailo seu moinho:
Lá, faziam-no andar as águas do Mondego,
Hoje, fazem-no andar águas do Sena.,.
É negra a sua farinha!
Orai por ele! tende pena!
Pobre Moleiro da Saudade...

Ó minha
Terra encantada, cheia de sol,
Ó campanário, ó Luas-Cheias,
Lavadeira que lava o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
O ceifeira que segas cantando
O moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando,..
Flores dos campos, beiços de fadas,
Poentes de Julho, poentes minerais,
Ó choupos, ó luar, bregas de Verão!

Que é feito de vocês? Onde estais, onde estais?

Ó padeirinhas a amassar o pão,
Velhinhas na roca de fiar,
Cabelo todo em caracóis!
Pescadores a pescar
Com a linha cheia de anzóis!
Zumbidos das vespas ferrões das abelhas,
Ó bandeiras! Ó sol! foguetes Ó toirada!
Ó boi negro entre as capas vermelhas!
Ó pregões de água fresca e limonada!
Ó romaria do Senhor do Viandante!
Procissões com música e anjinhos!
Srs. Abades de Amarante,
Com três ninhadas de sobrinhos!

Onde estais? onde estais?

Ó minha capa de estudante, às ventanias!
Cidade triste agasalhada entre choupais!
Ó dobres dos poentes às Ave-Marias!
Ó Cabo do Mundo! Moreira da Maia!
Estrada de Santiago! Sete-Estrelo!
Casas dos pobres que o luar, à noite, caia...
Fortalezas de Lipp! Ó fosso do Castelo,
Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
Onde se enroscam como esposos e lagartas!
Sr. Governador a podar as roseiras!
Ó bruxa do Padre, que botas as cartas!
Joaquim da Teresa! Francisco da Hora!
Que é feito de vós?
Faláveis aos barcos que nadavam, lá fora,
Pelo porta-voz...
Arrabalde! marítimo da França,
Conta-me a história da Fermosa Magalona,
E do Senhor de Calais,
Mais o naufrágio do vapor Perseverança,
Cujos cadáveres ainda vejo à tona...
Ó farolim da Barra lindo, de bandeiras,
Para os vapores a fazer sinais,
Verdes, vermelhas, azuis, brancas, estrangeiras,
Dicionário magnífico de Cores!
Alvas espumas, espumando a frágua,
Ou rebentando à noite, como flores!
Ondas do mar! Serras da Estrela de água,
Cheias de brigues como pinhais...
Morenos mareantes, trigueiros pastores!

Onde estais? onde estais?

Convento de águas do Mar, ó verde Convento,
Cuja Abadessa secular é a Lua
E cujo Padre-capelão é o Vento...
Água salgada desses verdes poços,
Que nenhum balde, por maior, escua!
O Mar jazigo de paquetes, de ossos,
Que o sul, às vezes, arrola à praia -
Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos
Corpo de Virgem, que ainda veste a saia,
Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
Noiva cadáver ainda com véu...
Ossadas ainda com os mesmos fatos!
Cabeça roxa ainda de chapéu!
Pés de defunto que ainda traz sapatos!
Boquinha linda que já não canta...
Bocas abertas que ainda soltam ais...
Noivos em núpcias, ainda, aos beijos, abraçados!
Corpo intacto, a boiar (talvez alguma Santa...)
Ó defuntos do Mar! Ó roxos arrolados!

Onde estais? onde estais?

O Boa Nova, ermida à beira-mar,
Única flor, nessa vivalma de areias!
Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
À chuva, ao Vento, aos vagalhões, aos raios!
Ó altar da Senhora, coberto de luzes!
Ó poentes da Barra, que fazem desmaios...
Ó Santana, ao luar, cheia de cruzes!
Ó lugar de Roldão! vila de Perafita!
Aldeia de Gonçalves! Mesticosa!
Engenheiros, medindo a estrada com a fita...
Água fresquinha da Amorosa!
Rebolos pela praia! Ó praia da Memória!
Onde o Sr. Dom Pedro, Rei-Soldado,
Atracou, diz a História,
No dia,... não estou lembrado;
Ó capelinha do Senhor da Areia,
Onde o Senhor apareceu a uma velhinha...
Algas! farrapos do vestido da Sereia!
Lanchas da Póvoa, que ides ã sardinha,
Poveiros, que ides para as vinte braças.
Sol-pôr, entre pinhais...
Capelas onde o sol faz morte, nas vidraças!

Onde estais?

2

Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das naus, de esquadras e de frotas!

Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas de gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera de maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-a com toda a força,
Clamam todas à uma: «Agora! agora! agora!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

Senhora Nagonia!
Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!

Senhora Daguarda!
(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!

Senhora d'ajuda!
Ora pro nobis!
Caluda!
Semos probes!
Senhor dos ramos
Istrela do mar!
Cá bamos!
Parecem Nossa Senhora, a andar.

Senhora da Luz!
Parece o Farol...
Maim de Jesus!
É tal e qual ela, se lhe dá o sol!

Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!
Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...

Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matosinhos!
Os mestres ainda são os mesmos dantes -
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vasco da Gama, que andam a ensaiar...

Senhora dos aflitos!
Mártir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Bamos em paz!
O lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!

Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,
«As armas e os varões assinalados...»

Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira,..
Como ela corre! com que força o Vento a impele:

Bamos com Deus!
Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...
Adeus! adeus! adeus!

3

Georges! anda ver meu país de romarias
E procissões!
Olha estas moças, olha estas Marias!
Caramba! dá-lhes beliscões!
Os corpos delas, vê! são ourivesarias,
Gula e luxúria dos Manéis!
Têm nas orelhas grossas arrecadas,
Nas mãos (com luvas) trinta moedas, em anéis,
Ao pescoço serpentes de cordões,
E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
Além dos seus, mais trinta corações!
Vá! Georges, faz-te Manel! viola ao peito,
Toca a bailar!
Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito.
Que hão-de gostar!
Tira o chapéu, silêncio!
Passa a procissão

Estralejam foguetes e morteiros.
Lá vem o Pálio e pegam ao cordão
Honestos e morenos cavalheiros.
Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
Parecem Torres de David, na amplidão!

Que linda e asseada vem a Senhora das Dores!
Olha o Mordomo, à frente, o Sr. Conde.
Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
Olhos leais fitos no vago... não sei onde!
Os anjinhos!
Vêm a suar:
Infantes de três anos, coitadinhos!
Mãos invisíveis levam-nos de rastros
Que eles mal sabem andar.

Esta que passa é a Noite cheia de astros!
(Assim estava, em certo dia, na Judeia!
Aquele é o Sol! (Que bom o Sol de olhos pintados!)
E aquela é a Lua-Cheia!
Seus doces olhos fazem luar...
Essa, acolá, leva na mão os Dados,
Mas perde tudo se vai jogar.
E esta que passa, toda de arminhos,
(Vê! dentre o povo em êxtase, olha-a a Mãe)
Leva, sorrindo, a Coroa dos Espinhos,
Criança em flor que ainda não os tem.
E que bonita vai a Esponja de Fel!
Mas ela sabe, a inocentinha,
Nas suas mãos, a Esponja deita mel:
Abelhas de oiro tomam-lhe a dianteira.
Lá vem a Lança! A bainha
Traz ainda o sangue da Sexta-Feira...
Passa o último, o Sudário!
O Corpo de Jesus, Nosso Senhor...
Oh que vermelho extraordinário!
Parece o sol-pôr...

Que pena faz vê-lo passar em Portugal!
Ai que feridas! e não cheiram mal...

E a procissão passa. Preia-mar de povo!
Maré-cheia do Oceano Atlântico!
O bom povinho de fato novo,
Nas violas de arame soluça, romântico,
Fadinhos chorosos da su'alma beata.

Trazem imagens da Função nos seus chapéus.

Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu, ferro e oiro,
O Sol em glória brilha olímpico, e de prata,
Como a velha cabeça aureolada de Deus!

Trombetas clamam. Vai correr-se o toiro.
Passam as chocas, boas mães I passam capinhas.

Pregões. Laranjas! Ricas cavaquinhas!
Pão-de-ló de Margaride!
Aguinha fresca de Moirama!
Vinho verde a escorrer da vide!
À porta dum casal um tísico na cama,
Olha tudo isto com seus olhos de Outro-Mundo,
E uma netinha com um ramo de loireiro
Enxota as moscas do moribundo.

Dança de roda moças o coveiro.
Clama um ceguinho:
«Não há maior desgraça nesta vida,
que ser ceguinho!»
Outro moreno, mostra uma perna partida!
Mas fede tanto, coitadinho...
Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira...»
E esse, acolá, todo o corpinho numa chaga,
Labareda de cancros em fogueira,
Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
Ó Georges, vê! que excepcional cravina...

Que lindos cravos para pôr na botoeira!

Tísicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
Etnas de carne! Jobes! Flores! Lázaros! Cristos!
Mártires! Cães! Dálias de pus! Olhos-fechados!
Reumáticos! Anões! Delíriums-trémens! Quistos!
Monstros, fenómenos, aflitos, aleijados,
Talvez lá dentro com perfeitos corações:
Todos, à uma, mugem roucas ladainhas,
Trágicos, à uma, mugem roucas ladainhas,
Trágicos, uivam «uma esmolinha plas alminhas
Das suas obrigações!»
Pelo nariz corre-lhes pus, gangrena, ranho!
E, coitadinhos! fedem tanto – é de arrasar...

Qu'é dos Pintores do meu país estranho,
Onde estão eles que não me vêm pintar?


Paris, 1891-1892.


António Nobre (Porto, 16 de Agosto de 1867 – Foz do Douro, 18 de Março de 1900), foi um poeta português cuja obra se insere nas correntes ultra-romântica, simbolista, decadentista e saudosista da geração finissecular do século XIX português. A sua principal obra, (Paris, 1892). Faleceu com 32 anos de idade, após uma prolongada luta contra a tuberculose pulmonar.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O Bosque Cintilante # 68

Ludwig van Beethoven: Adagio, da Sonata Patética

Passa a mulher vestida de branco e o sortilégio avança.
Uma sirene rebenta no espaço
e os homens acercam-se do que é ilimitado
junto às coisas inúmeras do destino.
À sombra dos guindastes há um titã parado.
E alguém ronda o espaço do inefável
quando os sentidos alertam para o trânsito
de guelfos e sereias que no tempo
alguma vez se perderam e perdendo-se se encontram.
A ponte pênsil não é mais que um caminho
possível entre o mistério que há no cais
onde um olhar devastador alastra
entre as promessas que os navios trazem.
Aí estão aqueles que padecem
de um sonho oculto, fugitivo e grave.
E o que amplia ainda este mistério
é essa mulher que no sortilégio avança
rente à tristeza que se cumpre e em si se deslumbra.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Henrique Manuel Bento Fialho - Os livros dos meus amigos meus amigos são


Rogil, de Henrique Manuel Bento Fialho

vota d'mar, s/l, 2012



Um poema:




MORTOS

Todos os anos morre alguém nas redondezas.
O ano passado, lembro-o, foi o coração que falhou
ao velho da casa norte. Efeitos secundários
da velhice, para uns, do Viagra, para outros.
Vai dar ao mesmo. Deram com ele agarrado
ao telefone, dizem que não foi a tempo.

Este ano, na casa sul, foi-se uma velha.
Andava doente desde que o filho lhe fugiu
na sequência de um acidente de viação.
Descobriram um temor no estômago à nora.
A velha não aguentou tanta desgraça
e atirou-se para dentro de um poço depois
de ter preparado o pequeno-almoço ao marido.



terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vítor Oliveira Jorge


Vítor Oliveira Jorge, poeta convidado



Fim de tarde

Custam-me a passar os dias sem ti,
Embora me interrogue, claro,
Quem é este que se adianta a mim
A dizê-lo: e quem és tu, a quem ele
Aparentemente se dirige.
Às vezes os dias são duros como o asfalto
Molhado e escuro da noite que veio
Demasiado depressa, e nunca o teu rosto
Me visitou com o sorriso de outrora.
E não há música, dentro do nosso ser,
Nem ruas animadas de passantes,
Apenas os candeeiros parados, e a chuva
Lá fora, companheira insaciável daquele
Que lê, e que não chega jamais ao fim
Para poder talvez pousar as mãos cansadas
Sobre as tuas mãos frias, vindas lá de fora,
E sentir-se em casa, numa noite talvez longa,
Cheia de promessas e descobertas e murmúrios.
Caminhas às vezes à minha frente, e pergunto-me
Que imagem é essa, e por que é que os meus passos
Tentam imitar os teus, em percursos onde apenas
O teu cabelo, e jamais o teu rosto, me aparece.
Por que vamos os dois tão aparentemente
Indiferentes, cada um ao encontro da sua
Morte privada, ainda por cima quando chove,
E o asfalto é escuro, escorregadio, e espelha
Os versos contra o charco de si próprios,
Como que a insinuar a inutilidade de se escrever.

para a Flor






MÃOS
Às vezes, quando leio e sublinho
Vejo-me a mim mesmo já morto
E as mãos das pessoas em volta dos meus cadernos
E livros, e apontamentos, a preparam-se
Para deitar tudo fora, pois claro.
Ou então no passado em casa
Da minha primeira namorada, quando até
Era impossível fazer uma festa na mão
Não viesse logo a repressão maternal implacável
- E a pensar nos livros que havia de escrever
Para poder um dia dispor das minhas mãos
E dizer sobre uma mesa: alto, aqui é passado,
Presente e futuro confundidos.
E sobre eles vou pôr esta jarra de flores
Imperecíveis, que ficarão a lembrar
Estas mãos que essas sim hão-de morrer.





Pela garganta
custam-me os dias
quando tenho de te deixar ir
à tua vida

e fico a comer sozinho
qualquer coisa do micro-ondas
tentando agarrar-me aos livros
que me ligam ao que fui
para prosseguir
já não sei bem o quê
rodeado de todas as tuas memórias
que me atingem
como presenças ausentes
custam-me os dias

engolindo assim devagar
qualquer coisa
de indefinido
algo
que não me sai
da garganta
talvez o tempo
que estamos a perder
a cada instante
esta presença ausente
que vou comendo,
e custa a engolir.

jan. 2012





Vertigem

Chegamos sempre demasiado tarde
Com a sensação de que o acontecimento
Se desvanece... já foi, está a ser e a não ser,
Ficou adiado... um conjunto de impressões
Que nos deixam a boca amarga, quando
Nem os teus beijos me atenuam a secura
Desta nostalgia, destas vidas anteriores
Que vivemos, onde estivemos radicalmente
Sós um do outro, como se fôssemos mortos
Antecipados. Mas só hoje nos demos conta
desta vertigem.

jan. 2012





O difícil instante

Sobre o puro presente do teu corpo nu
Pairam sempre essas figuras espectrais
Do passado. Quem já passou por este quarto?
Com quem já gemeste antes aqui? Serei eu capaz,
No presente que te sou, de fazer esquecer,
Nem que por instantes, essas memórias?
Vejo os teus olhos dilatados, e por vezes
O teu rosto em transe. E quanto mais o prazer
Me apanha, amor, a tal ponto que parece uma faca
Que finamente me corta ao meio, ainda e sempre
As aves negras do teu passado me sobrevoam.

2012





Fotos (ilustração dos poemas) São Pedro do Sul e Ucanha: © de Amadeu Baptista

Poemas: © Vítor Oliveira Jorge

Vítor Oliveira Jorge nasceu em Lisboa em Janeiro de 1948. Licenciou-se em História na FLUL em Julho de 1972. Realizou quase toda a sua carreira universitária (doutoramento, agregação; foi professor catedrático desde 1990 e presidente do Conselho Directivo da FLUP em 1994/95) na Faculdade de Letras do Porto, até à aposentação em 2011. É arqueólogo, poeta, ensaísta. Recebeu em 2001 o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, da Presidência da República.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Aaro Hellaakoski



O CANTO DO LÚCIO

Do seu húmido lugar
subiu o lúcio à árvore para cantar.
Quando as nuvens cinzentas
deixavam ver a luz do dia
e a agitação das risonhas folhas
despertava na baía,
subiu o lúcio à copa do abeto
para mascar a pinha vermelha.
Terá visto, ouvido ou farejado,
ou na ponta da pinha saboreado
o resplendor indizível
do orvalho da manhã
            quando abrindo
            a ossuda boca
            ampliando
            a mandíbula
berrou uma canção
tão selvagem e grave
que nesse instante se calaram os pássaros
como se lhes tivesse caído em cima
todo o peso da águas
e o frio abraço
da solidão.


                                                           Jääpeili, 1928


DOLCE FAR NIENTE


às 9
noite rua vivaz
com pedras reluzentes
como uma lenda policroma
o teu caminho a casa sob a linha de faróis
    quando                                         pressa feliz
          voltas                                     melodia estrondo
                 do trabalho             manequim
                                                           sorriso imbecil

         as      radiantes      luas      das                lojas
         milhares de peões desconhecidos
            garras
         de automóvel
a rua
desgarram

olhos cheios
torrentes de luz entram na tua cabeça
                        uma luva branca
                        STOP
uma luva branca numa mão estendida
                        bru-bru-burr
um homem cansado caminha seguro
caminho      caminho vespertino     caminho
luas e mais luas resplandecem
os pensamentos saboreiam já o sonho


doce doce cansaço
intensa formosura nocturna
                        dolce far niente

                                                           Jääpeili, 1928


Atrás da mesa
            o olho branco da janela
                                   solidifica
              c   c   c
                 c   c   c
                   h   h  h      soa  SONHA
                     o   o   o              zumba
                       v   v   v
                          e   e   e     estraleja

            na estreita
               quebrada
            da rua
         através do zumbido
      o eco dos passos que correm
            avança

        c   c   c   c   c   c
a vida      c   c    desvanece-se
              h      h
            o          o
          v               v
        e                    e
       uma rua de pedra
soa     soa    soa

                                                           Jääpeili, 1928

LADO A LADO

a teu lado estava escutando
a pulsação da tua veia jugular,

encontrei muitas palavras, muitas,
para os movimentos dos teus membros.

As horas atravessam-nos furtivamente
Com pés ligeiros e sensíveis.

O pensamento revoluteou daqui para ali
com o calor do seu arbítrio.

Acaso sentes que não foi
tão avaro o voo da nossa noite?

Acaso acariciei, muito silenciosamente,
em alguma parte, os caminhos dos teus sonhos?

                                              
                                                                       Huovajat keulat, 1946


O ÚLTIMO DINOSSAURO

Eu, só e de mui nobre linhagem,
o último da estripe dos dinossauros.
De uma estripe? Não, de um mundo
que à minha volta jaz moribundo.
Só, nobre, permaneci,
e ao mesmo tempo, tão alheio a tudo,
sim, nada iguala o nosso destino.

Éramos grandes e poderosos.
O que andava, fazia retumbar a terra,
o que nadava, deixava para trás estelas de espuma,
o que voava, obscurecia a estrela diurna.
Sim, éramos coisas grandes e poderosas,
soberbos entre os seres vivos,
senhores da terra e do mar e dos céus.

Em nós residia toda a formosura,
E uma vocação de perfeição mais pura;
banhávamos em luz a nossa pele escamosa,
alçávamos do colo a curva orgulhosa.
Eu via figuras onde a beleza morava,
sorte de estar só, e a cada um bastava
a liberdade de andar com a cabeça levantada.

Mas chegou a perdição. Aproximava-se e comia.
Sitiava-nos com as suas hordas.
Éramos poucos e eles numerosos,
invencíveis nos seus astutos caminhos.
Chegou a perdição. Aproximava-se e comia;
em cada arbusto a raça anã espiava,
em cada sombra a sua pata peluda vislumbrava-se.

Quem são? Uma horda que corre uivando,
galopa farejando, fariscando, acossando,
e que transporta as suas feias crias
em bolsas sob o ventre, escondidas,
com percevejos e moscas, e cérebros ardentes
sempre de fome dolentes.

Raça de lactantes, de famélicos,
acabaste com a lenda dos dinossauros,
 mas nunca vos levantareis sobre a terra
como nós; sois pó e imundície,
a plebe organizada dos esfomeados –
Talvez um dia do vosso barro vos possais levantar.
Quanto, é algo que a vós compete determinar.


                                                                  Huovajat keulat, 1946


Versão minha - © Amadeu Baptista





Aaro Hellaakoski (1893-1952). Nasceu em Oulu. Em 1929 doutorou-se em Filosofia. Foi professor de ciências naturais e geografia. A partir de 1930 foi professor catedrático na Universidade de Helsínquia. O seu livro Jääpei, com influências do dadaismo, é uma obra capital do modernismo finlandês.