domingo, 4 de novembro de 2012

Os livros dos meus amigos meus amigos são


O Papel de Prata, O Reflexo e Outros Comtos pelo Meio, de Nuno Dempster
Lajes do Pico, Companhia das llhas, 2012



O mal de Norberta foi o livro que andou a ler sobre o fundamentalismo islâmico, revelou Ângela, a colega com quem dividia o apartamento. O livro tinha um título inerme, atractivo até: A Montanha do Sol e o Ocidente. Norberta comprou-o como muitas vezes se compram livros, só pelo rótulo, sem se lhes ler pelo menos a composição e o prazo de validade, convencida de que se referia à Serra Nevada e ao Al Andaluz. (...)



sábado, 3 de novembro de 2012

João Tomaz Parreira


POEMAS SOBRE FOTOS DE CRIANÇAS
DO HOLOCAUSTO


 AINDA A TEMPO DA INFÂNCIA








A LIBERTAÇÃO

A neve
que caía como as plumas
de um céu assustado
era um toque suave nos cabelos
nos rostos e nas fechadas mãos
ao frio
era a primeira voz de amor
a neve, no silêncio
branco que se ouvia.




Foto: 1 ( Logo após a Libertação crinaças de Auschwitz saem das barracas em 27/1/1945)






DEPORTAÇÃO

A morte não deveria ser obrigatória
em marcha
nestes pequenos pés
Uma fila de olhos sem regresso
pequenas dimensões
onde só deveria estar a alegria
vão
sem reparar que é enganosa
a sua infância tranquila.



Foto 2 ( Deportação de crianças judias do gueto de Lodz, Polônia, durante a ação "Gehsperre" 
(toque de recolher), setembro de 1942.)






BARRACA 66

Esperavam que a voz fosse suave
as palavras novas
num toque de pluma nos ouvidos
nos olhos
que não estão assustados
O sorriso começa agora a dar um ar
das suas asas, um pássaro
novo
deixa alegres vestígios sobre a neve.




(Foto 3 :  Foto de crianças sobreviventes da ala infantil--Barraco 66--do campo de Buchenwald, logo após a libertação
do mesmo pelos Aliados. Alemanha, foto tirada após 11 de abril de 1945.)





A TIJELA DA SOPA

Uma sopa de brancura fria
espera
que um retrato,  sem dor ainda
se revele eterno, todo
o retrato é assim
preserva olhos discretos
e outros olhos mudos
abertos
que por uma vez percorrem
todas as distâncias
no meu corpo.




( Foto 4 : Crianças judias com tigelas de sopa no gueto de Varsóvia. Varsóvia, Polônia, por volta de 1940 )




DUAS ESTRELAS

Duas estrelas apagam
o brilho dos olhos, o branco
é quase intenso, fere
como fumo e cinza
nosso olhar desprevenido
Duas estrelas entram
pelas janelas da minha casa
e aí estremecem a água dos meus olhos.




( Foto 5: Dois irmãos posando para uma fotografia de família no gueto de Kovno. Um mês depois, eles foram
deportados para o campo de Majdanek. Kovno, Lituânia, fevereiro de 1944.)


*
*   *



Poemas© de João Tomaz Parreira

João Tomaz Parreira ou J.T.Parreira, Lisboa, 1947. Poeta. 6 livros de poesia (Este Rosto do Exílio,1973; Pedra Debruçada no Céu, 1975; Pássaros Aprendendo para Sempre, 1993; Contagem de Estrelas, 1996; Os Sapatos de Auschwitz, 2008; e Encomenda a Stravinsky, 2011 ). Um ensaio teológico (O Quarto Evangelho - Aproximação ao Prólogo, 1988). Participação em Antologias. Escreve na revista  evangélica «Novas de Alegria» desde 1964 e no Portal da Aliança Evangélica Portuguesa. Na juventude escreveu poesia e artigos no suplemento juvenil do "República", entre 1970-1972.

Nota: sob a etiqueta 'Reincidências' se registará toda a colaboração neste blogue dos poetas que já tenham por cá passado como Poetas Convidados

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Bosque Cintilante / 67

Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Dança Húngara, de O Lago dos Cisnes

Sentou-se esta mulher no banco vermelho
do extremo sul da floresta
com a mão levemente soerguida
sobre o campo raso das palavras.

Ao longe o mar e os mortos perscrutava
com o olhar terrível iluminado
por anjos e demónios
no horizonte sem fim dos seus sentidos.

Possessa está no oiro da idade.
As aves conclama para que gritem
no infinito perene que na boca

lhe arde e queima o coração.
Uma fita de fogo a extasia.
E louca prevalece além da vida.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Elias Foukis, um poema


VIAGEM DE JESUS CRISTO

De todos os sonhos em cujo fundo
reinava o fatalismo e a desgraça
não posso no entanto esquecer um
que começava com a Volta ao Mundo
no ponto geográfico onde nasceu o Amor
e acabava no instante em que homens se odiavam entre si.

De modo inteiramente natural
dei começo à caça ao Ódio
mas em pouco tempo esse refrigério transformou-se em incomodidade
uma vez que acabava de ler
a «Dialéctica de Moisés»
e tinha que tranquilizar os meus próprios fantasmas
a propósito da angústia que sentia Moisés
por a essência da História
que julgada pelo modo como os ventos
tocam as janelas de Jerusalém
não parece nada trágica.


Mas parece-me que Moisés
cujos pensamentos o ar propagava pelo deserto
se apressou um pouco.

As janelas de Jerusalém
só viram apenas ídolos.

Eles não constituíam perigo algum para a Cidade
mas ao não serem perigosos
eram incorrigíveis
e assim podiam agitar as consciências dos cidadãos
sobre a ética dos Heróis
onde após a escravidão das almas dos homens
começou a alongar-se a nuvem da suspeita
de que afinal não tinham libertado ninguém.

E tão grande era a confusão
da Gente que se tinha posto quase íntima de Deus
que a outonal nudez do Monte Sinai
se vestiu com o ímpeto de todo o Povo
que marchava para o castigo transmudando em pó
a Sorte que o Destino lhe tinha prometido.

Tanta desolação deixada para trás bastava
para deixar claro o que alguma vez
fora um fantasma…


Tão-somente redimidos da embriaguez
                 do carácter Divino
os visionários da Dialéctica
baptizada pelo vento cálido e pela Alma
viram que o Céu não estava presente em nenhum lugar.

À sua volta havia apenas Mundo
para não dizer Roma…
                   poder…
                   fria lógica…

Isso bastava portanto para afastar-nos
de vós e da terra.

Em outro mundo já não
tinha como controlar
se Jerusalém se mudava para o Inferno
                ou para o Paraíso
pois Jerusalém já não poderia saber
que com o ódio perante mim
o meu Olhar que se arrasta pelos Céus
tal como segue o meu corpo pela Terra
continuará a conceber sonhos
para trazer perante os olhos vazios do Mundo
o infeliz passado do Idealismo Branco.

Por isso não há nenhuma esperança
porque tudo é muito nebuloso
e de tudo será o mais terrível.

As Santas Escrituras começaram a caminhar pela Terra
negando-se a caminhar a pé com o mundo
desde que os Passos do Mundo
se tornaram imperiais
e a noite que está a ponto de cair sobre o Mundo
todos esses jogos nada sérios
de suspeitas e elucubrações
passará por Lendas Negras
nas margens do rio Jordão.

Portanto
só uma coisa será certa
no Sonho que tive.

O seu curso não pode conter
em ondas sem mistério
sinais e sombras da vida após a morte.


A morte tem frios objectivos
de modo que o que se poderá ver unicamente no mundo
será o Povo Castigado
que como quis dizer-vos mais acima
atravessará a História
tendo diante de si o Deserto
no seu eterno lugar
buscando explicações do retorno do Idealismo
do rio Jordão…
e se não me engano muito
nem mesmo esse terá direito a regressar
exactamente tal como acontece com os outros seres
que não pertencem a nenhum Deus.


Versão minha - © Amadeu Baptista



Elias Foukis nasceu a 20 de Agosto de 1969, em Kefallovriso Ioannina, Grécia.
Escreve poesia desde 1988. Em 2007 publicou ‘Testamento de um Deus Menor’, que foi traduzido em inglês, francês, italiano, checo e castelhano. Desde o ano 2000 vive e trabalha em Atenas.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sair à rua / 5



José Manuel de Vasconcelos


José Manuel de Vasconcelos, poeta convidado


TRÊS POEMAS


SÉPIA

Rumorosa e perdida, parada num verão de pó
essa imagem ali estava perturbando o meu ritmo
a linha cronometrada dos meus dias
tombando pétrea e vocativa numa certa
bem-aventurança que o sol adornava de cansaço
Aparecia como um adjectivo de um mundo já de trevas
um vórtice de escolhos na ondulação de um mar de tédio
no silêncio subterrâneo dos dias que fugiam
Era de certo modo um novo alfabeto
surgindo de fontes agora eternamente inúteis
mas ainda assim gotejando nesta dourada água
torturando-a num estrondo inatingível e resignado
como se de repente fosse o meio da noite
e a minha cabeça andasse arrastada por cavalos
os degraus da nossa casa previssem o começo de um abismo
Quantos anos teriam passado? Séculos tristes atrás de persianas
viagens iludidas, palavras agora desmembradas
na audácia de um mundo à deriva como um espelho
que cansado deixasse de reflectir os contornos exactos
das coisas e engendrasse monstros, colossais assombros
desvairados prodígios cujas asas nos tocassem numa afronta
A vida zune agachada como um caçador furtivo
puzzle de enganos a dois dedos das margens onde os outros
nos olham sob o peso dos seus infernos
Revejo a imagem ¾  perdura sob esta lâmpada em que navega
o meu peito. Há ainda um pouco de noite para acreditar que
a massa da morte tudo distende, que é possível asilar esta dor
vacilar a vida no trémulo fio que a cinza do tempo morde
mas agora, entre cinza e nuvem, é preciso escrever tudo de novo

De O Inferno é seguro







O ODOR DAS ALFAVACAS

Meu pai, falava do odor das alfavacas
e eu corria ao dicionário («Planta labiada, semelhante
ao mangericão...»), decepcionado.
Imaginava uma vaca primordial
depositária de bíblicos segredos
capaz de mudar o curso das coisas
e de ser fundamental, talvez, na minha vida
mas nada disso: havia-as de caboclo, de cobra, dos montes,
do campo, de cheiro (certamente a do meu pai)
e nenhuma referência à cornuda em que se apascentava
a minha imaginação.
Aprendi assim a desconfiar das palavras
e da realidade
a ver como ambas nos enganam
sem qualquer piedade


De A mão na água que corre






PORTUGAL 1950

Tudo parece ter parado
nesta estrada de silábico
preto e branco
No vinho rudimentar dos dias
o tempo cede à própria imagem
de quem reza rodeado de cabras
no largo chão acabado de pisar
com pé descalço e cântaro à cabeça
Só sombras escorregam dentro
da morfina da luz que
como uma granada
se multiplica em lassidão
de olheiras opacas
As horas são ossos desabrigados
paisagem sem transporte
que muito ao longe estala em repetidas caravelas
Nas vozes servis de escuros animais
nada ilumina o abismo
nem a festa brava desse esgar espantado
atirado ao metal do verão
Resta o olhar dos miúdos
começo de vento e espasmo comprimido
a inventar um vidro
pra decompor o sol na mão

Inédito




Fotos (ilustração dos poemas) Alcobaça: © de Amadeu Baptista

Poemas: © José Manuel de Vasconcelos

José Manuel de Vasconcelos nasceu em Lisboa, é licenciado em Direito e exerce a advocacia. Poeta, ensaísta e tradutor, publicou, Mirífica miragem, As casas e o vento, O tempo fora do tempo, O inferno é seguro e  A mão na água que corre (Prémio Melhor Livro de Poesia SPA/RTP 2012), tendo para publicação próxima um novo livro de poemas, e a reunião dos seus ensaios literários. Colaborador de diversos jornais e revistas literárias, escreveu prefácios e estudos introdutórios, bem como textos teóricos sobre tradução, e sobre artes plásticas. Colaborou em diversas antologias. Tem-se dedicado à divulgação da literatura italiana, tendo organizado uma Antologia do Futurismo Italiano, e tendo traduzido poetas como Eugenio Montale e Umberto Saba.  É colaborador do «Osservatorio Permanente Sugli Studi Pavesiani Nel Mondo»

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Gyrdir Eliasson


Poemas de Gyrdir Eliasson



SONHO

Muito dentro dos olhos

uma estranha película
projecta-se
em cada noite

sobre uma tela azul escuro

o realizador dorme
na fila treze

na sala alcatifada a vermelho

é
a última oportunidade

só restam
umas poucas sessões

muito dentro dos olhos.


Svarthvít axlabönd, 1983


OLHO POR OLHO DE CRISTAL

Está claro esta manhã
quando acordo que algum
diabo anda solto
desapareceu a fileira de casas em frente
eu esfrego os olhos abano a cabeça
volto a abri-los mas tudo é
inútil
essas quase quarenta casas (pelas noites
vi muitas vezes um reflexo azulado escapar
pelas janelas das salas)
desaparecidas o aparcamento também
nem marca da mínima edificação de algum
tipo (e agora por fim vê-se outra vez
a montanha daqui após ter estado dez anos
escondida) contenho-me com dificuldade
para não me arrancar os cabelos o meu apartamento
dança perante o meu olhar
o suor salta a água fria
corre apresso-me a ir ao espelho
e fixo as suspeitas.

Bakvid maríuglerid, 1985


PONTOS DE SUTURA

Agora já não há quem o salve
disse a si mesmo quando
saiu à varanda e viu que
o sol se dessangrava pela convexidade
do mar que ia dar às ilhas compreendeu
também que mais tarde ou mais cedo teria
que reconhecer a redondez da terra.
puxou de uma navalhita com brancas incrustações de concha
e começou a limpar as unhas com
movimentos lentíssimos que recordavam
o que contam das antigas cerimónias rituais
dos incas. logo voltou a levantar os olhos.
sorriu friamente e cravou a navalha
rapidamente na jugular.

Bakvid maríuglerid, 1985


COMPAIXÃO

Caminho
pelo páramo
através da treva
e visões
aladas voam à minha
volta.

Vou
pela mar
através da treva
e as aves nocturnas
pousam no meu
barco.

Não estou
nunca
completamente só.

Tvö tungl, 1989

ESPELHO

Muitas vezes saio da minha
casa ao entardecer e
vagueio por becos de cimento sob
os olhos amarelos dos faróis e
estou às vezes
deprimido sem saber
por quê mas suspeito
que outro mundo ainda mais
sombrio está pegado
a esta abóbada celeste que a noite
contempla.

 Tvö tungl, 1989


CRIATURAS DE LUZ

O bolbo da minha lâmpada
é habitado por gente que
tem ventosas nos pés
e sobe pelo vidro delgadíssimo
por dentro e dorme em redes
de molas tensas no topo da lâmpada
e quando a apago
à noite ouço os débeis
roncos do casquilho.

E então volta a acendê-la
às vezes.

Tvö tungl, 1989


PENSAMENTOS NOCTURNOS ORIENTAIS

Na minha varanda
há uma estranha lanterna
que lembra imagens
da antiga China
ou de um farol na escura
praia do pensamento.

É para tê-la
acesa na escuridão
das noites tranquilas
esquadrinhando o vaso
sob a luz.

E pensar na morte
e pensar na vida.

Vetraráform um sumarferdalag, 1991


SOLILÓQUIO

Sempre
desejei
chegar a uma ilha
muito pequena que se
visse que é uma ilha e é fácil
de percorrer
numa hora com
sol ou com chuva
e ver os pássaros
batendo as asas na
sua solidão.

E adormecer logo
ali na praia
e chegar a ter deste modo
asas
e amigos.

Mold í Skuggadal, 1992


PÁSSARO CEGO / VOO NEGRO

Tranquilidade não posso dar
posto que não a tenho
a autonomia de voo
de ideias inquietantes parece
inesgotável, ascendem pela abóbada e flutuam noite
após noite como que dotadas de asas entre
as colunas, deitado as sigo
através do vidro, pouco falta
para que pousem um instante
nas paredes adesivas.

Estranhamente frágil esse
rápido fitar de olhos,
como se num ovo tivessem pintado
manchas negras.

Nada interrompe o silêncio excepto
o gotejar das caleiras, a apagada
luz da rua ziguezagueia através
do desenho irregular das cortinas, estou
só à mesa, chá numa chávena
de porcelana japonesa, volto a pensar nos
olhos, como explodem.

É a hora das vassouras de palha e as corujas
estendem as suas asas manchadas
junto aos morcegos.

Os telhados de cobre das torres reluzem sob o débil
brilho do grande farol de gás
aqui sou um estranho, dou uns poucos
vacilantes passos calculados pela
praça das pombas como se temesse
que houvesse minas ou armadilhas
colocadas para caçar cornúpetos.

Blidfugl/Svartflug, 1986


f

O chá está frio e
acabam de apagar o televisor
(reportagem sobre a páscoa em israel)
quando um cogumelo brilhante enche a janela
o rectângulo de paisagem cai ao mesmo tempo da
parede um instante detêm-se escutam atiram-se
ao chão amontoam-se no puído tapete
voltam a fechar os olhos
recordas
o forno
de
e chorou
ai grita
ela
queres
dizer
as parcas
balbucia
ele engolindo ar ardente e afogando-se…

Einskonar höfudlausn, 1986


pp

Cadeira jaqueta branca rosa espelho
parede rugosa quadro moldura dourada
chão de ladrilhos cama sem colcha
baú lata azul pálido e um forno
frio e deslustrado fecham os olhos
ante a chegada da sombra do
chilreio tranquilo e a voz cinzenta
de um gravador da mesma cor.

Einskonar höfudlausn, 1986


MUITO LONGE

Lá durmo
envolto num sonho
de lagoas e montanhas
e maçãs em cestas
e menino a comer maçãs
ao sol nas ilhas
cinzentas azuladas que surgem do mar
longe da costa (distantes
três horas de navegação).

Mas os olhos estão abertos
eu olho e estou
completamente imóvel e o vale
respira na névoa
fora da janela
esta noite de verão.

Vetraráform um sumarferdalag, 1991


DIARIAMENTE

Diante da minha casa arrastam-se
diariamente milhares e milhares
de insectos mecânicos diariamente no meio
de um tempo criminal ou de uma bonança inolvidável
e de todas as fases intermédias ronroneiam à guisa
de despedida e desaparecem não
sei onde mas se alguém fixa
o tempo suficiente os rectangulares
olhos das casas vê que
as colinas banhadas de sol do outro lado da ponte
sobre a enseada cobrem-se de escuras manchas
à medida que passa o tempo

nunca estive lá
(o plano detalhado do sector
não revela exactamente nada)
onde mastins altíssimos de aço se espreguiçam
escalando o céu azul pálido nos
intervalos e quando a escuridão domina
recolho-me na minha dura concha
e não respondo ao telefone.

Bakvid maríuglerid, 1987


A QUEDA DO MACHADO (FRAGMENTO)

O machado está surpreendentemente pouco ensanguentado
a cabeça caiu na
cesta de vime e jaz sem
que se lhe vejam os olhos.
a multidão como um véu cinzento
na praça um véu cinzento que
se agita com  brisa dominical
mas não deixa passar o sol ao
seu través.
Alto!
grita o realizador saltando
da cadeira. Magnífico!
Puxo de um lenço
e enxuga o rosto
satisfeito. Bem, levai o
cadáver! Deita um olhar
rápido ao cenário
repleto de câmaras. Tenta
esquecer o zumbido contínuo nos
seus ouvidos e volta
a pensar contrariado
no director da prisão…

Bakvid maríuglerid, 1987


PARADOXOS IRREGULARES

O asfalto como uma fita negra
no deserto limitado
a hora aproxima-se vacilante
pára-raios torcidos abrem
os seus inumeráveis olhos carregados de sonho
o instante
congela tudo está entumecido já começam as casas
a desmoronar em silêncio as geladas mãos do vento
deslizam por entre os montões de pó que ficam
como uma jugular que se estreita perante o sinal de perigo
alarga-se a rua numa delgadíssima listra
as pontas da relva cobrem-se de sujidade cinzenta
de uma antiga passagem entre as casas sai um homem
correndo sem cabeça mas sem sangrar
(visto devagar em primeiro plano transforma-se numa
cruz depreciada ou num pilar de lojista em que
a tempestade tivesse emaranhado as roupas sobre umas pegadas
imediatamente cobertas pela areia persegue-o um
exército de térmitas que chegam de todas as direcções)
o entardecer moldou-se entre os barrotes
de ferro até à esbotenada jarra de flores e bebe
nela eu não me fixo em nada recordo outros momentos
sob um sol maior que a lâmpada de quarenta
vátios da minha cabeceira.

Bakvid maríuglerid, 1987


PERFIL DE UM MANÍACO

Descartei
o cinema
porque temo que precisamente
durante uma cena lenta e prolongada (dois
tipos sujos um careca
com uma cabeça que lembra as velhas
máquinas fotográficas carrega uma maleta e um anel
de ouro num dedo que arranca do corrimão
da escada de que sobe um som metálico)
me atire à rede impoluta 
dos meus pensamentos o louco
do assento detrás
sacando
um fio sibilante de aço…

Bakvid maríuglerid, 1987


Versão minha - © Amadeu Baptista


Gyrdir Eliasson, nasceu em 1962. Os seus poemas, íntimos e ricos em imagens, falam sobretudo da solidão, a sensibilidade, o perigo da destruição, com referências aterradoras chegadas da comunicação social e da cultura do ócio dos nossos dias. Publicou mais  de um dezena de livros de poesia, além de romances e contos. A sua prosa caracteriza-se pela sua força expressiva, semelhante à da poesia.