domingo, 28 de outubro de 2012

Luca Signorelli / 2



'Ressureição da Carne'(detalhe) (ciclo Storie degli ultimi giorni),
de Lucca Signorelli
Fresco
cerca de 1499-1502
Capela de S. Brízio, Duomo, Orvieto


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Albano Martins


Homenagem a Albano Martins
Dia 27 de Outubro, 16 horas
Casa de Cultura José Marmelo e Silva
Freguesia do Paul

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Bosque Cintilante # 66

Antonio Vivaldi: Outono, de As Quatro Estações

Que memória haverá da gôndola vermelha que atravessa o canal,
quando eu morrer?
Que sombras beneficiarão a Piazzeta
e iluminarão a noite,
quando eu morrer?
Quem consolará Beatrice, Belvidera
e Orietta,
quando eu morrer?
Continuarão a chamar-me demónio
e a condenar a angústia
que me afeiçoa às mulheres e me afasta do culto,
quando eu morrer?
Que música ondulará sobre Sant'Angelo,
quando eu morrer?
E as órfãs,
as órfãs do Pio ospedale della Pietà,
quem velará o sono das órfãs,
quando eu morrer?
Quem se debruçará da janela
para melhor escutar a plangência divina
que exprime o sublime,
quando eu morrer?

Deus?
Os anjos?
O próprio outono?


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista




quarta-feira, 24 de outubro de 2012

João Ricardo Lopes


João Ricardo Lopes, poeta convidado




DO SILÊNCIO

1. AMENDOEIRA EM FLOR

a luz desta árvore entra na sala de aula e com ela entra van Gogh.
a perfeição dos ramos e das folhas rosadas não impressiona o homem comum
mas ergue ao velho lavrador o olhar abismado como se a ele também 
fosse partilhado o dom da LEITURA

aos pequenos falantes da língua ensino eu a gramática das frases e dos sentidos
mas é em van Gogh e no velho lavrador que incide o clarão alado desta manhã.
é na natureza que subtis e perfeitas regras de regência amplificam 
o corpo aberto e baloiçante do poema

como van Gogh, como o mestre humilde da terra, sou escravo desta luz 
que atordoa e depura, não apenas o vidro da janela, mas a concreta vida 
dos minutos, do saber que professo, das lições que fecundarão (quem sabe) 
outras vozes, outros ecos deste prodígio amado e quase invisível







2. SILÊNCIO DE ARRECADAÇÃO

dai-me senhor a grande paz
da sala dos arrumos, dos armários 
de arquivo, dos caixotes selados e
proibidos de abrir, o grande silêncio 
da penumbra e placares vazios 
de cortiça, o amor da sombra e
fita-cola adesiva, dos objetos caídos
no seu próprio sono de arrecadação.
sob a pionés palavra nenhuma
debaixo da janela a ausência de rumor.
dentro de mim apenas isto:

FRÁGIL. NÃO MEXER!







3. PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

pelas frinchas da garagem 
entram os dedos da lua

depois é um eco de velhas sucatas 
adormecidas, cablagens e
candeeiros a petróleo, caixas de
sapatos e bonecos de caco
coisas dispersas despejadas pelo
tempo na superfície da pele

sem nome é o cheiro do 
silêncio, como o rosto que nos
pertencia e hoje não passa de
gelo, talhado a esmo
nas frestas da memória





Fotos (ilustração dos poemas) Luxemburgo: © de Amadeu Baptista

Poemas: © João Ricardo Lopes

João Ricardo Lopes (n. 1977) é pós-graduado em Teoria da Literatura, tendo sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1995 e 1999. Leciona a disciplina de Língua Portuguesa no ensino básico e secundário, tendo publicado cinco livros de poesia e um de crónicas. Leitor ávido de poesia das mais diversas proveniências no mundo, viu alguns dos seus poemas serem traduzidos para inglês, francês, servo-croata e castelhano. É autor do blog DIAS DESIGUAIS, em www.diasdesiguais.blogspot.com.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Tomas Tranströmer



POEMAS DE TOMAS TRANSTRÖMER



ALLEGRO

Após um dia negro toco Haydn
e sinto um humilde calor nas mãos.

As teclas obedecem. Golpeiam doces martelos.
O acorde é verde, vivo e sereno.

O acorde diz que a liberdade existe
e que alguém não paga imposto a César.

Meto as mãos nas algibeiras haydn
e imito alguém que contempla o mundo com serenidade.

Faço bandeira de haydn – isso quer dizer
«Não nos rendemos. Mas queremos paz.»

A música é um edifício de cristal na encosta
onde voam as pedras, as pedras giram.

E as pedras atravessam a casa rolando
mas todos os vidros permanecem intactos.

Den halvfädiga himlen, 1962



SOLIDÃO

I

Aqui estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro derrapou no gelo e foi de lado para
o outro lado da estrada. Os carros que vinham
na direcção contrária
– os seus faróis – aproximaram-se.

O meu nome, as minha filhas, o meu trabalho
libertaram-se e ficaram para trás em silêncio,
cada vez mais longe. Fiquei anónimo
como uma criança no pátio da escola, rodeado de inimigos.

O tráfego contrário tinha luzes potentes.
Focavam-me enquanto eu guinava o volante
num pânico transparente que flutuava como clara de ovo.
Cresceram os segundos – ali havia espaço –
tornaram-se grandes como hospitais.

Quase pude parar
e respirar um instante
antes de embater.

Então surgiu um auxílio: ajudou-me um compassivo grão de areia
ou um maravilhoso golpe de vento. O carro endireitou-se
e rastejou veloz para o outro lado da estrada.
De súbito apareceu um poste e partiu-se – um som seco –
desapareceu a voar na obscuridade.

Até que tudo ficou calmo. O cinto manteve-me no assento
e vi alguém acercar-se por entre a borrasca de neve
para ver o que me tinha acontecido.



II

Andei muito tempo
pelos gelados campos de Östergötland.
Jamais vi uma alma.

Noutras partes do mundo
há quem nasça, viva, morra
em permanente reunião.

O estar sempre visível – viver
num enxame de olhos –
confere ao rosto uma expressão singular.
Rosto coberto de argila.

O tumulto sobe e desce
enquanto se dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia.

Eu preciso de estar só
dez minutos pela manhã
e dez minutos à noite.
– Sem programa.

Todos fazem fila perante todos.

Muitos.

Um.

Klanger och spår, 1966



CITOYENS

Na noite após o acidente sonhei com um homem picado das
    bexigas
que andava a cantar pelas ruas.
Danton!
Não o outro – Robespierre nunca dá esses passeios.
Robespierre gasta uma hora a ataviar-se cuidadosamente pelas manhãs
e dedica o resto do dia ao Povo.
No paraíso dos panfletos, entre as máquinas da virtude,
Danton –
ou o que levava a sua máscara –
caminhava como que em andas.
Eu via o seu rosto de baixo:
como uma lua cheia de cicatrizes,
metade iluminada, metade enlutada.
Quis dizer algo.
Um peso no peito, o peso
que faz andar os relógios de pêndulo,
que faz dar voltas aos ponteiros: ano 1, ano 2…
Um cheiro azedo como o do serrim da jaula dos tigres.
E – como sempre nos sonhos – nada de sol.
Mas as paredes brilhavam
nos becos que se retorciam,
descendo até à sala de espera, o quarto arrevesado,
a sala de espera onde todos nós…


N. do T. Título em francês, no original; Danton: referência a Georges Jacques Danton, figura destacada
no início da Revolução Francesa.


Sanningsbarriären, 1978



CARRILHÃO

Madame despreza os seus clientes porque querem viver no seu
    funesto hotel.
Eu estou no quarto da esquina do segundo andar: uma cama
    miserável, uma lâmpada nua no tecto.
Surpreendentemente, pesados cortinados por onde desfilam um quarto
    de milhão de ácaros invisíveis.

Diante do hotel, uma rua pedonal
por onde passam turistas lentos, velozes académicos, homens vestidos
    com roupas de trabalho que levam pela mão bicicletas escandalosas.
Os que crêem que fazem girar o mundo e os que crêem que dão
    voltas impotentes, sob a palmatória do mundo.
Um rua por onde andamos todos, onde desemboca?
A única janela do quarto dá para um lugar muito diferente:
    a Praça Selvagem,
um chão que borbulha, uma extensa superfície palpitante, às vezes cheia
    de gente e às vezes deserta.

O que levo dentro materializa-se nessa praça, todo o horror, todas
    as esperanças.
Todo o inconcebível que no entanto vai ocorrer.

Tenho umas margens muito baixas, se a morte subisse dois centímetros
    inundar-me-ia.

Sou Maximiliano. Estamos no ano de 1488. Têm-me fechado aqui
    em Brujas
porque os meus inimigos estão indecisos –
são um perversos idealistas e o que fizeram no pátio de trás
    dos horrores não o posso descrever, não posso converter
    o sangue em tinta.

Sou também o homem macaco que arrasta a sua escandalosa
    bicicleta pela rua.

Sou também aquele a quem se vê, o turista que caminha e se detém,
    caminha e se detém
e passeia o seu olhar sobre os pálidos rostos queimados pela luz da
    lua e as inchadas telas dos antigos quadros.

Ninguém decide aonde vou, e eu muito menos, no entanto cada passo
    está onde deve estar.
Vagar pelas guerras fósseis onde todos são invulneráveis porque
    todos estão mortos!

As pulverulentas massas de folhagem, os muros com as suas ameias, as
    veredas dos jardins onde as lágrimas petrificadas rangem
    sob os tacões…

Tão inesperadamente como se tivesse pisado o cordão que desencadeia
    o alarme, os sinos começaram a tocar no campanário
    anónimo.

Carrilhão! O saco rebenta pelas costuras e os acordes rodam sobre
    a Flandres.
Carrilhão! O ferro fundido dos sinos, salmo e canção melódica,
    tudo em um, escrito no ar tremulamente.
O trémulo doutor escreva sua receita que ninguém pode decifrar
    ainda que reconheçam a sua caligrafia…

Sobre telhados e praças, sobre erva e hortos
soam os sinos para vivos e mortos.
Entre Cristo e Anticristo a distinção redunda indiferente!
Voando os sinos levam-nos a casa finalmente.

Calaram-se.

Regressei ao quarto do hotel: a cama, a lâmpada, os
    cortinados. Aqui ouvem-se ruídos estranhos, o sótão
    arrastando-se sobe as escadas.

Estou deitado na cama com os braços em cruz.
Sou uma âncora que se cravou profundamente e que domina
    a sombra imensa que flutua aí em cima,
o grande desconhecido de que faço parte e que seguramente é
    mais importante do que eu.

Fora passa a rua pedonal, a rua onde morrem os meus passos
    assim como o escrito, o meu prólogo ao silêncio, o meu salmo voltado
    de revés.


N. do T. Maximiliano: Maximiliano I de Habsburgo, Imperador do México; Brujas: cidade da Flandres.

       Det vilda torget, 1983


Versão minha - © Amadeu Baptista



Tomas Tranströmer. Nasceu em 1931 em Estocolmo, onde se licenciou em Filosofia e Letras. Colaborou na revista Upptakt. O seu primeiro livro de poemas, 17 dikter (17 poemas), que data de 1954, foi um acontecimento literário que colocou o seu autor num lugar de destaque entre os autores da sua geração. Trabalhou como psicólogo, na área da reabilitação de delinquentes juvenis e readaptação de deficientes físicos. Em 2011 recebeu o Prémio Nobel de Literatura.

domingo, 21 de outubro de 2012

Vasco Graça Moura





HOMENAGEM-COLÓQUIO VASCO GRAÇA MOURA: 50 ANOS DE VIDA LITERÁRIA
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra 
23 Outubro de 2012 

Anfiteatro IV

 PROGRAMA


9h30m – Inscrições
9h45m – Abertura
10h00
Vítor Aguiar e Silva (Univ. Minho), Vasco Graça Moura, Camonista.
José Carlos Seabra Pereira (Univ. Coimbra, UI&D-CIEC), Presenças do "decassílabo da chama" na poética de Vasco Graça Moura.
11h00m Discussão
11h15m Pausa para café
 11h45
Maria do Céu Fialho (Univ. Coimbra, UI&D-CECH), Na poesia de Vasco Graça Moura: scherzo e recriação sobre a Musa Antiga.
Sandra Teixeira (Univ. Poitiers), As musas de Vasco Graça Moura: dos corpos saturados às dobras do  mundo.
12h45m Discussão.
13h00 Pausa
14h30
Carlos André (Univ. Coimbra, UI&D-CECH), Amores e desamores na encruzilhada dos clássicos (ou as voltas incertas de VGM).
Adriana Freire Nogueira (Univ. Algarve, UI&D-CECH), A ficção narrativa de Vasco Graça Moura.
15h30 – Discussão
15h45
Teresa Carvalho (UI&D-CECH), Vasco Graça Moura e as Artes: «écfrase, empernamentos».
Rita Marnoto (Univ. Coimbra, UI&D-CIEC), Nas florestas da noite. Vasco Graça Moura tradutor.
16h45 Discussão
17h00 Pausa
 17h30m Lançamento da antologia A vista desarmada, o tempo largo – poetas em homenagem a Vasco Graça Moura (Quetzal / CECH), com apresentação de Ana Marques Gastão.
18h00 Encerramento – Vasco Graça Moura