segunda-feira, 15 de outubro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Nuno Dempster escreve a propósito de 'Açougue'
Açougue, de Amadeu Baptista
por Nuno Dempster
Em 2008, Açougue, livro de poemas de Amadeu Baptista, foi galardoado em La Coruña, Galiza, com o XIV Prémio de Poesia Espiral Maior. No mesmo ano, a obra é publicada pela editora que organiza esse concurso. Passados quatro anos da edição galega, foi editada este ano em Portugal pela & Etc.
Como os livros de poesia que conheço de Amadeu Baptista, uns com mais visibilidade que outros, Açougue obedeceu a um programa de concepção e montagem perfeitamente determinado: cada ano de vida do poeta, o seu poema, e cada poema tendo, como título, o ano em que se insere. Do poema Mil Novecentos e Cinquenta e Três, ano de nascimento do autor, ao Dois Mil e Oito, o ano do prémio e da edição galega, vão cinquenta e seis poemas; na edição portuguesa deste ano, o autor acrescentou quatro poemas, tantos quantos os anos que medeiam entre as duas edições. Portanto, Açougue saiu em Portugal com sessenta poemas.
Não tendo esta edição sofrido outras alterações que a junção desses poemas, é legítimo imaginar que Açougue poderia ser um livro em contínuo, digamos assim, os anos como marcos miliários da vida do poeta. Se viesse a ser reeditado novamente, não seria de rejeitar que essa edição fosse acrescentada de um poema por cada ano passado, se a anterior o foi. Esta particularidade faz-me pensar que, sob o mesmo título, poderíamos ter um livro que, em cada edição, se acrescentasse e, sendo o mesmo, não deixaria de ser diferente. Esta hipótese, a meu ver, resultaria num esquema original e numa surpresa, se tal fosse viável, quer por escolha do autor, quer pela realidade económica e editorial de hoje.
Amadeu Baptista reúne neste livro os temas que fundamentam a sua poesia. Pela estrutura concebida para a obra e da sua leitura, retira-se um claro sentido antológico, quer pelo espectro temático diria que total, quer sob o aspecto da forma, que vai da mancha leve do poema, de versos mais ou menos curtos (1) à mancha cerrada, de versos quase uniformemente longos (2) ou mesmo muito longos no caso do ultimo poema do livro, Doze Mil e Doze. Por outro lado, a forma vai do poema curto, ao médio, ao longo e ao muito longo, variantes que se encontram facilmente na vasta poesia de Amadeu Baptista. A estes aspectos soma-se o do discurso poético, alternando muito pontualmente com a norma, que é a poesia ser facilmente entendida, alternância sem mais significado do que uma variação própria da dita qualidade antológica, assumindo sentidos metafóricos a nível de poema (3), hermetismo tout court (4) e mesmo um caso de surrealismo (5). Curiosamente, estas excepções e variações encaixam com perfeição na ideia impossível do livro em contínuo, que ao longo da sucessão dos anos adquiriria forçosamente um carácter antológico.
Para lá destes aspectos formais da obra, menos interessantes para quem não se entretém – é o termo – a pensar nestas coisas com o teclado, temos a poesia de Amadeu Baptista, que Açougue representa amplamente
A infância com o seu cenário de lugares como origem primeira, Miragaia, o Norte, o cortejo dos seus mortos, o amor, o erotismo, o sonho, o dia-a-dia, o encontro consigo mesmo, as quedas decorrentes de se viver, a morte, por vezes um pendor metafísico, um pendor para o sonho do ser, para o inominado e o sentido da incompletude que suscita esse sonho. Uma poesia que é também mais da vida própria, mais do poeta e do seu entorno do que a relação com o mundo exterior, embora esta exista na poesia de Amadeu Baptista, mas pontualmente (6).
O olhar do poeta foca e retira ilações do que ou de quem lhe está próximo, o poeta incluído como sujeito, e, com frequência, exprime o sentir pensando em poesia, mais dedutiva que especulativamente, sobre os factos e circunstâncias que o poema apresenta, socorrendo-se por vezes do jogo da antítese nos seus versos, um dos modos de ampliar o sentido do poema.
Falar, pois, de Açougue é falar da poesia em geral de Amadeu Baptista, tão completamente estão os seus vectores de força neste livro, premiado num ano em que viu publicados mais cinco livros seus de poesia e em que arrecadou mais quatro prémios.
(1) pp. 10, 11, 12, 13, 14, etc
(2) pp. 53, 66, 75, 77, 78, 80, 85
(3) pp. 10, 43, 51
(4) p. 55, três últimas estrofes
(5) p. 87
(6) p. 77
Este texto também pode ser lido no blogue de Nuno Dempster, cujo endereço é: http://esquerda-da-virgula.blogspot.pt/
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Liberto Cruz
Liberto Cruz, poeta convidado
3 Poemas
O dia passa. A noite
Chega. Doce e dolente
Se estende na folhagem
Dos caminhos e ali
Repousa fria e ágil.
Céleres recolhem aves.
A casa voltam as gentes
E mesmo as coisas dormem.
Chega depois outra noite.
E outra noite ainda.
E outra e outra. Tudo
Recomeça se repete.
Até que a noite seja
Gente coisas animais.
Vou da montanha ao mar
E passo do mar ao rio.
Depois do rio ao vale
Desço. E outra vez subo
À montanha. E de novo
Ao rio ao mar ao vale
Corro. Paro. Descanso.
Uma vez mais recomeço.
O mar o rio o vale
A montanha noite e dia
Percorro vejo visito.
Se de ave mesma cega
Umas asas eu tivesse
Até pelo céu corria.
É de repente a noite.
Os dedos tremem a fronte
Arde uma ambulância
Passa e o tempo pára.
A morte parece certa.
Uma saudade longa
Da mulher amada vem
E da vida não vivida.
Surge depois a fronteira:
O passaporte não tens
A declarar nada há.
Junto estás do abismo:
Olhas então e hesitas.
Escolhes. À vida tornas.
(Os três poemas apresentados pertencem ao livro de 1994, Caderno de Encargos.
In Poesia Reunida 1956-2011, Coimbra, Palimage, 2012)
Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista
Poemas: © Liberto Cruz
Liberto Cruz, nasceu em Sintra, em 1935, e licenciou-se em Filologia Românica, em 1959, na Faculdade de Letras de Lisboa. Entre 1967 e 1968 lecionou Literatura Portuguesa na Universidade de Alta Bretanha, em Rennes, onde, em 1969, criou a cadeira de Literatura Angolana. Foi conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Paris, cargo que ocupou até 1988, data a partir da qual assumiu a direção da Fundação Oriente. Poeta, romancista, ensaísta, traduziu também Samuel Beckett, Blaise Cendrars, Jean Husson, Robert Pinget, Le Clézio, Duras e Sade. Em 1961, fundou a revista literária Sibila; dirigiu, entre 1964 e 1966, a coleção Poesia e Ensaio da Ulisseia e, entre 1965 e 1966, colaborou na rubrica de crítica literária do Jornal de Letras e Artes.
Colaborou nas revistas Poesia Experimental (1964-66) e Hidra (1966-69) e, desde 1971, na revista Colóquio-Letras. As suas primeiras obras poéticas, Momento, 1956, A Tua Palavra, 1958, Névoa ou Sintaxe, 1959, e Itinerário, 1962,vindas à luz na viragem da década de 50 para a década de 60, reflectem um momento de transição na poesia portuguesa, pelo reequacionamento da relação entre a linguagem poética e a realidade. Após as tendências contraditórias de uma poesia de intenção social, alia, por vezes, um experimentalismo, assumido por este autor apenas, e sob o pseudónimo de Álvaro Neto, em Gramática Histórica. Entre essas primeiras obras e Distância (1976) ou Caderno de Encargos (1994), medeia um percurso marcado pela busca
de uma cada vez maior contenção imagística e metafórica, mas também discursiva, num itinerário
de conquista de uma "sabedoria apaziguadora".
A sua poesia reunida foi recentemente publicada, neste ano de 2012. Autor de Antologias de uma fotobiografia de Ruben A, bem como de antologias sobre este autor, encontra-se agora no prelo uma biografia deste autor, em colaboração com Madalena Carretero Cruz.
É presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Inger Christensen
POEMAS
Se estou de pé
só na neve
é lógico
que eu seja um relógio
senão como ia a eternidade
encontrar o seu caminho?
Lys, 1962
Apoio-me ternamente na noite,
com a ajuda de uma balaustrada oxidada,
encontro o caminho da minha face e do meu ombro,
encontro o caminho da minha ternura:
ferro e carne.
O mais são bandeiras
que ondeiam silenciosas, a interrogar fora e dentro,
no espaço da noite, no espaço da alma:
morte?
ponho a mão sobre o rosto palpitante
da noite,
retiro um pouco de óxido da minha face.
Lys, 1962
O EFÉMERO
A pedra na praia evapora-se.
O lago perece sob o sol.
Os esqueletos dos animais
estão escondidos sob as areias eternas do deserto.
As coisas caminham,
habitam uma na outra,
navegam como pensamentos
na alma do espaço.
Caravanas de areia viva.
É isto uma ameaça?
Onde está o meu coração?
Prisioneiro na pedra.
Escondido num lago.
Pulsando profundamente
num camelo corcovado,
que jaz na areia
a gemer e que vai morrer.
Lys, 1962
Sempre acreditei que a realidade
era algo que se ia ser
quando se fosse adulto.
Na praça está Fata Morgana
com ar fatigado a gritar:
últimas notícias – últimas notícias.
Lys, 1962
N. do T.: Fata Morgana (ou Fada Morgana, meia-irmã do rei Artur) como referência à possibilidade desta feiticeira poder mudar de aparência, num efeito de ilusão de óptica. Trata-se de uma miragem, que se deve a uma inversão térmica. Objectos que se encontrem no horizonte, como, por exemplo, ilhas, falésias, barcos ou icebergues, adquirem uma aparência alargada e elevada, similar aos ‘castelos dos contos de fadas’.
É muito estranho
há ovos por todo o lado
Deve ter havido um engano
os ovos estão tão juntos
Creio que não há sítio para nós
Junta mais os ovos
É impossível fazê-lo
Teremos que nos apertar mais
mas meu amor que se vai passar
com tantos ovos por todo o lado
que vai ser de nós
por todo o lado
Deve ter havido um engano
Lys, 1962
Estou sentada no galho da minha sensatez
serrando, serrando com uma tosca serra oxidada
brinquedo escondido da minha infância
serro serro aproxima-se o inverno
apressai-vos apressai-vos mãos ansiosas
arremessai-me arremessai-me a mim mesma
Lys, 1962
VOZES DE HOMENS
Vozes de homens na escuridão
– uma vez num templo –
vozes de homens ao sol
– uma vez eu fui a cariátide
número nove –
vozes de homens no parque
– eu era uma estátua
nua intocável
sem outro espelho
do que os dedos do ar
entregue de pensamento a pensamento
sem outra melancolia
que o ranger das folhas –
vozes de homens no parque:
por que me despertaram?
Lys, 1962
CONSPIRAÇÃO
A baía obviamente azul.
A vitória absolutamente segura.
As pedras pedra.
Tu ausente.
Lys, 1962
PAZ
As pombas crescem no campo
da terra terás de ressuscitar.
Grœs, 1963
PETRIFICAÇÃO
Lá na mesa
estão as minhas mãos
Sob o solo
estão os meus pés
Fora
muito longe em algum lugar
eu não vejo
o que tu vês
com os meus olhos
Grœs, 1963
ANELO
Respiro pela minha ferida
fico-me levantada pela noite
a luz acesa
procuro
procuro com as mãos
ainda que veja
encontro uma fenda no muro
beijo-te
Grœs, 1963
CONTACTO
Desenha um ténue círculo
no ar ou na água
pôr um dedo sobre a boca
e atenuar a fé
pôr uma mão sobre o coração
responder sinceramente:
não responder nada
não desejar nada
defender a tua mão estranha
com braços abertos
defender os débeis
com confiança
responder aos fortes
com confiança
os fortes e os débeis
todos têm mãos estranhas
todos têm mãos estranhas
que lentamente se movem e convertem
os débeis e os fortes
responder sinceramente
desenhar um círculo
no ar ou na água
Grœs, 1963
O CENÁRIO
Vous êtes déjà mortes au monde
Sade
‘Eu’ não tenho vontade de mais ornamentos
‘Eu’ não tenho vontade de mais anedotas
sobre montanhas pintadas
‘Eu’ não quero ver surgir mais universos
dentro dos limites do sensato
‘Eu’ não quero ouvis mais sirenes de incêndios
de cada vez que o sal sai
‘Eu’ não quero desaparecer
‘Eu’ sou a que escreveu o anterior
e a que escreve o seguinte
‘Eu’ não quero fazer como se estivesse morta
Tenho medo
Isto é uma crítica de toda a ‘poética’
porque é uma crítica da angústia perante a impotência fáctica.
Det, 1969
A neve
de modo algum é neve
quando neva
em pleno junho
a neve não
caiu de modo algum
do céu
em junho
a neve
levantou-se por si mesma
e floresceu
em junho
como maçãs
adamascados
castanhos
em junho
perder-se
na verdadeira neve
que é a neve de junho
com flores e sementes
quando jamais se há-de morrer
Alfabet, 1981
Os alfabetos existem
a chuva dos alfabetos
a chuva que se cola
a graça, a luz
inter-espaços e formas
das estrelas, das pedras
o curso dos rios
e as emoções do espírito
as pegadas dos animais
as suas ruas e caminhos
a construção de ninhos
consolo dos homens
luz diurna no ar
os vestígios do francelho
comunicação do sol e do olho
na cor
a camomila silvestre
no umbral das casas
o monte de neve, o vento
a esquina da casa, o gorrião
escrevo como o vento
que escreve com a escrita
serena das nuvens
ou rapidamente no céu
como as andorinhas
em traços que desaparecem
escrevo como o vento
que escreve na água
estilizada e monotonamente
ou roda como o pesado alfabeto
das ondas
os seus fios de espuma
escrevo no ar
como escrevem as plantas
com caules e folhas
ou dando voltas como com flores
em círculos e repas
com pontos e fios
escrevo como a margem de uma praia
escrevo uma orla
de crustáceos e algas
ou delicadamente como um nácar
as pontas da estrela do mar
e a baba do mexilhão
escrevo como a primavera
precoce que escreve
o alfabeto comum
de anémonas, de faias
de violetas e de alazões
escrevo como o verão
infantil como um trono
sobre as cúpulas da orla do bosque
como branco ouro quando amadurecem
o relâmpago e o campo de trigo
escrevo como um outono
marcado pela morte escrevo
como esperanças inquietas
como tempestades de luz
a atravessar recordações nebulosas
escrevo como o inverno
escrevo como a neve
e o gelo e o frio
e a escuridão e a morte
escrevem
escrevo como o coração
que pulsa escrevo
o silêncio do esqueleto
e das unhas, e dos dentes
do cabelo e do crânio
escrevo como o coração
que pulsa escrevo
o rumor das mãos
dos pés, dos lábios
da pele e do sexo
escrevo como o coração
que pulsa escrevo
os sons dos pulmões
dos músculos
do rosto, do cérebro
e dos nervos
escrevo como escreve
o coração que pulsa
os gritos do sangue e das células
das visões, do pranto
e da língua
Alfabet, 1981
Inger Christensen. Nasceu em 1935 e faleceu em 2009. Estudou pedagogia. O seu primeiro livro data de 1962. Publicou poesia, romance, obras dramáticas para a rádio e a televisão e uma narrativa sobre Mantegna.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
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