sábado, 29 de setembro de 2012
Feira do Livro de Poesia e de Banda Desenhada
A Feira do Livro de Poesia e Banda Desenhada vai começar já no próximo dia 29 de Setembro (sábado), das 10H00 às 18H00, no espaço Guilherme Cossoul de Campolide: Palácio de Laguares – Rua Professor Sousa da Câmara, 156 – Campolide (às Amoreiras).
Mas não haverá só livros de Poesia e de Banda Desenhada.
Além de Poesia e de Banda Desenhada, haverá também, entre outros, Revistas Literárias, Livros Infantis, Fanzines, Livros de Teatro.
Mas não haverá só livros de Poesia e de Banda Desenhada.
Além de Poesia e de Banda Desenhada, haverá também, entre outros, Revistas Literárias, Livros Infantis, Fanzines, Livros de Teatro.
Coordenação de Inês Ramos.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Baptista-Bastos escreve a propósito de Açougue
Voz amiga, chamou-me a atenção para a crónica que Baptista-Bastos publica hoje no Jornal de Negócios, e que fecha assim:
«Um grande livro de um grande poeta
Façamos uma pausa neste turbilhão de causas e efeitos em que dolorosamente vamos vivendo. E leiamos, "Açougue", de Amadeu Baptista (edição & etc.), um dos grandes poetas portugueses, cujo recato, modéstia e discrição mais fazem aumentar a sua grandeza. Amadeu Baptista expõe, neste volume, uma vez mais, a qualidade incomum da sua poesia, jamais afastada do denso rumor da vida e das preocupações éticas (portanto estéticas) que constituem o edifício de uma obra. Amadeu Baptista pertence a essa rara estirpe de artistas que recusa o rataplã das estratégias de glória, e que representa um acto de liberdade e de protesto. Vale a pena seguir o poeta nesta aventura moral e intelectual muito própria e invulgar.»
O Bosque Cintilante # 63
Edvard Grieg: Morgenstimmung
A transparência fixa-se às frágeis colunas da alvorada
e toca o teu rosto com reflexos azuis, a boca
é um doce desfiladeiro rodeado de montanhas, aí me perderei
fascinado pelo vento, avisto-te
nesse vale de flores incandescentes e regresso à memória, um infinito
colar de conjunções onde o teu nome está presente e as tuas mãos
são como a copa de uma palmeira branca que resiste ao deserto
e eu sei receberá a água no pequeno tanque digital por onde
as gotas refrescantes da vida
transitam para um sem-número de prodígios, um sorriso
que é já uma luz que se levanta e caminha sobre a superfície tumultuosa do silêncio.
Ah, essa sombra canta na oração dos teus dedos, um tempo e outro tempo
em que a primavera sucede à primavera e o inebriamento
irrompe dos pequenos clarões de uma gruta orvalhada por subtis cadências
de onde progridem correntes de fumo escarlate, a música
que vem sobrevoar a cabeça das crianças
e lhes inclina os olhos para o espelho do céu
onde os anjos tocam a harpa e a cítara para outra dimensão, o brilho
em que os segredos se acumulam.
Eis a mais dócil palavra do coração,
aí habitam os duendes e todas as substâncias da harmonia, nesse recanto
uma mulher murmura as sílabas do amor,
fantásticas corças negras que entregam o sinal
de que a suavidade existe, existe também o diamante no mais recôndito lugar
do espírito, um enigma,
outro enigma, o enigma a que foi dado o teu nome
e invoca o paraíso, a bonança que chega.
in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
José Carlos Barros
José Carlos Barros, poeta convidado
3 Poemas
[Soneto do sobressalto]
É fácil no amor o ser feliz
se a tanto se resume o que buscamos
jurando a eternidade com o giz
das coisas que escrevemos e apagamos
conforme nasce o dia ou anoitece.
Mas eu, amor, exijo o sobressalto,
a dor, o lume, o vento que enlouquece,
o medo, a cicatriz, o passo em falso.
E arrisco-me a ter frio e a ter sede.
E ouso o fogo, a areia da tristeza,
o voo no trapézio sem a rede,
o abismo, um precipício, uma ravina
a pique desenhada de surpresa.
Do mundo eu temo apenas a rotina.
[Soneto da redenção]
Em todas as mentiras que te disse
havia qualquer coisa de sublime:
eu queria ser melhor; e fui; e se
te menti até isso me redime.
Eu via-te chegar fechada em leque,
às vezes tão cansada e indiferente
ao lume e aos seus rumores; mas eu é que
limpava o pus e a ferida persistente
de ser o mundo assim tão arbitrário,
infame, vil, gravado em desencanto.
É certo que tirei do dicionário
(eram mentira) os versos que te fiz
e os nomes que te dava. E no entanto
só queria que pudesses ser feliz.
[Soneto à maneira antiga]
14, 16, 42;
90, 27, 34.
18. 32, 94:
70, 123, 6, 2.
249, 5,
61, 40, 17.
80. 35, 37:
640, 85.
60, 900, 16,
49. 12, 25:
94000, 46,
618, 39.
200, 107, 35.
90, 7000, 79.
Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista
Poemas: © José Carlos Barros
José Carlos Barros (Boticas, 1963) é autor de sete livros de poesia publicados fora dos circuitos de distribuição comercial. Do mais recente (Rumor, 2011) fez-se uma tiragem de 100 exemplares numerados e esteve à venda no facebook. Publicou dois livros em prosa: a novela O Dia em que o Mar Desapareceu e, em 2009, o romance O Prazer e o Tédio. É licenciado em Arquitectura Paisagista pela Universidade de Évora e vive e trabalha no Algarve, em Vila Nova de Cacela.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Sigmund Mjelve
MÃOS
As mãos são um entrançado
em volta de mãos
e corpos, flautas,
copos, ferramentas.
As mãos são astutas,
as mãos tocam,
trabalham,
não têm palavras.
As mãos recebem-me,
com as mãos recebo.
Levanto a mão
com ela mato.
Levanto a mão,
acaricia-te a pele.
Landskap 2, 1979
LUZ
A luz que chega,
chega cada dia
do sol, da lua e das estrelas.
Assim é, dizemos.
Tal como com as ondas
e as praias ao vento,
as praias
com algas e seixos.
É assim, dizemos.
E as nuvens
e a grande chuva persistente
e o meu gato
que se estira
com o lombo arqueado.
Vemos o contra-luz
com maior claridade
que a luz de trás.
Derrete os nossos olhos
e devém
luz na luz.
Mas também a luz
por detrás das nossas costas
é luz,
demonstra-o a nossa sombra.
Por isso diz
Li Bai num poema:
Esta noite
com a lua nas costas
danço
com a minha sombra.
Landskap 2, 1979
PRIMEIRO CANTO DE GON
Um homem monta a cavalo
e afasta-se a cavalgar.
Tarda um pouco
antes de se sentar na sela,
nem mais, nem menos que
toda a vida que viveu.
Ao rés dos campos descansa
a branca neblina matinal.
Há orvalho na erva
e pegadas de homem e de cavalo.
O que sente o meu corpo?
Sinto o seu encontro com
o ar que me rodeia.
O ar que me dá no
rosto e nos olhos,
nos braços e nas mãos,
o peito, o cabelo, a levantar-me
a veste.
Esta noite o céu é tormenta
e fulgores de relâmpagos longínquos.
Escuto o fogo da minha
lareira
e a chuva que vem,
marcas de pés nas árvores
e o grito que envolve a casa
do vento que se aproxima.
A obscuridade habita
na sombra das árvores.
Landskap 3, 1981
POEMA ANTI-POEMA E POEMA
Tudo o que ouvimos, saboreamos,
cheiramos, sentimos e vemos
é e é efeito
simplesmente de incontáveis
acontecimentos mais pequenos que pequenos.
mil anos e mil anos
um dia, a instantânea
humidade da neve na cara
milhões de anos
Só agora, não antes,
nem depois se vai o vento
precisamente assim através da erva,
precisamente assim na nuvens, escuras
sobre a noite com a luz
de um sol submerso.
E o canto da cigarra é precisamente assim.
Perante os meus olhos um fluente
instante de terra as rosas precisamente assim.
Escondida na terra
no mês de Março.
nas mais profundas raízes
tem lugar,
lentamente,
oh, lentamente.
Em terra, em pedra, em uma
e uma vida, sob o frio
e sob o grande
vento tem lugar a primavera.
Inter er her, 1984
Passam imagens no mundo,
imagens de nada
que ninguém pode ver já,
azul aéreo, fotografias
invisíveis
de um tempo que foi.
Nessa, alguém se inclina
sobre um berço, um juiz
levanta a sua caneta, lentamente
o verdugo o seu machado,
nos bosques de fetos
dinossáurios,
trinossáurios,
e ali um pássaro que voa,
o primeiro,
na tarde do Outono tardia
ladra um cão.
Átomos em nuvens de pó
caem sobre átomos
o peso de milhares de milhões de anos
contra um peso maior
acende um sol
em colisões caóticas.
De joelhos e mãos atadas atrás
inclinado para a terra
uma nuca, um dorso
em Xangai,
um horror, um disparo,
em Belsen uma mão,
um olhar em Hiroshima.
E o cheiro do húmus do bosque,
mãos cerúleas de mirtilos
e o cheiro a cogumelos,
o salto de uma rã
um lugar no mundo
e o lugar de ninguém
Nagasaki,
o crime esquecido
e amor, amor
dias em corpos,
noites em corpos, selvas, savanas,
os tambores. De ninguém.
I jordens hus, 1986
N. do T. – Belsen. Referência a Bergen-Belsen, por vezes referido como Belsen, foi um campo de concentração alemão da época de Adolfo Hitler, localizado no actual estado da Baixa Saxónia. Entrou em funcionamento em 1940, como campo de prisioneiros de guerra. Tornou-se um campo de concentração em 1942, tendo sido comandado pelas SS a partir de 1943.
Versão minha - © Amadeu Baptista
Sigmund Mjelve é norueguês, mas nasceu na China, em 1926. Só aos 13 anos é que se instalou na Noruega. O seu primeiro livro de poesia data de 1978. É tradutor para norueguês de poesia chinesa.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
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