terça-feira, 25 de setembro de 2012

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Bosque Cintilante # 62

Wolfgang Amadeus Mozart: Intróito, do Requiem

É uma das consequências de ser forasteiro
e deixarmos para trás quem não nos pode perdoar.
Fechamo-nos em casa e acendemos o fogão
sem que mais nada passe de uma emoção, uma dor
ilegítima. Adeus, então. Confinamos todas as coisas
ao enfraquecimento do abandono, à janela
que desce à desolação de um caixilho
onde nenhuma paisagem se fixa, nenhuma luz.
E aí permanecemos, sozinhos, com a morte
a subir-nos pelo braço direito e a paralisar-nos
o dedo indicador. Franz Sussmayr, meu tão querido
amigo, deixo-te a tarefa de terminares o Requiem
e pagares trinta missas pela minha alma.
O mais há-de ser tão estranho
como é estranha a minha felicidade
e algumas das irrequietas partituras
que esvoaçam na minha cabeça. Que eu seja lembrado
por as não ter escrito, por terem ficado esquecidas
no infinito dos tempos,
por apenas as ter tolerado sem que as tornasse possível
nesta espécie de imortalidade que me coube viver.
Em benefício de alguém assim aconteceu.

in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

domingo, 23 de setembro de 2012

Pablo Neruda 1904 - 1973



39º. aniversário da morte de Pablo Neruda,
12 de Junho de 1904 - 23 de Setembro de 1973




NÃO ME SINTO MUDAR

Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.
(in Cadernos de Temuco, tradução de Albano Martins)
Pablo Neruda nasceu em Parral,  em 12 de Julho de 1904, como Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto. Era filho de José del Carmen Reyes Morales, um operário ferroviário e de Rosa Basoalto Opazo, professora primária, morta quando Neruda tinha apenas um mês de vida. Ainda adolescente adotou o pseudónimo de Pablo Neruda (inspirado no escritor checo Jan Neruda), que utilizaria durante toda a vida, tornando-se seu nome legal, após acção de modificação do nome civil.

Em 1906 o seu pai transferiu-se para Temuco, onde se casou com Trinidad Candia Marverde, que o poeta menciona em diversos textos, como "Confesso que vivi" e "Memorial de Ilha Negra", como o nome de Mamadre. Estudou no Liceu de Homens dessa cidade
e ali publicou seus primeiros poemas no periódico regional A Manhã.

Em 1921 radicou-se em Santiago e estudou pedagogia na Universidade do Chile, obtendo o primeiro prémio da festa da primavera com o poema "A Canção de Festa", publicado posteriormente na revista Juventude. Em 1923 publica Crespusculário.

 No ano seguinte aparece pela Editorial Nascimento seus Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, no que ainda se nota uma influência do modernismo.. Posteriormente manifesta um propósito de renovação formal de intenção vanguardista em três breves livros publicados em 1936:
O habitante e sua esperança, Anéis (em colaboração com Tomás Lagos)
e Tentativa do homem infinito.


Em 1927 começa sua longa carreira diplomática quando é nomeado cônsul em Rangum, na Birmânia. Em suas múltiplas viagens conhece em Buenos Aires Federico Garcia Lorca e, em Barcelona, Rafael Alberti.. Em 1935, Manuel Altolaguirre entrega a Neruda a direção da revista Cavalo verde para a poesia na qual é companheiro dos poetas da geração de 1927.

Nesse mesmo ano aparece a edição madrilenha de Residência na terra.

Em 1936, eclode a Guerra Civil espanhola; Neruda é destituído do cargo consular e escreve Espanha no coração. Em 1945 é eleito senador. No mesmo ano, lê para mais de 100 mil pessoas no Estádio do Pacaembu em homenagem ao líder comunista Luís Carlos Prestes. Em 1950 publica Canto Geral, em que sua poesia adopta intenção social, ética e política. Em 1952 publica Os Versos do Capitão
e em 1954 As uvas e o vento e Odes Elementares.

Em 1953 constrói sua casa em Santiago, apelidada de "La Chascona", para se encontrar clandestinamente com sua amante Matilde, a quem havia dedicado Os Versos do Capitão. A casa foi uma de suas três casas no Chile, as outras estão em Isla Negra e Valparaíso. "La Chascona" é um museu com objectos de Neruda e pode ser visitada, em Santiago. No mesmo ano, recebeu o Prémio Lenine da Paz.


Em 1958 apareceu Estravagario com uma nova mudança em sua poesia. Em 1965 lhe foi outorgado o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford.. Em outubro de 1971 recebeu o Nobel de Literatura. Após o prémio, Neruda é convidado por Salvador Allende
para ler para mais de 70 mil pessoas no Estádio Nacional do Chile.

Morreu em Santiago em 23 de Setembro de 1973. Encontra-se sepultado em sua propriedade particular em Isla Negra, Santigo, no Chile. Postumamente foram publicadas suas memórias
em 1974, com o título Confesso que vivi.

Durante as eleições presidenciais do Chile nos anos 70, Neruda abriu mão de sua candidatura para que Allende vencesse, pois ambos eram marxistas e acreditavam numa América Latina mais justa o que, a seu ver, poderia ocorrer com o socialismo. De acordo com Isabel Allende, no seu livro  Paula, Neruda teria morrido de "tristeza" em Setembro de 1973, ao ver dissolvido o governo de Allende. A versão do regime militar do ditador Augusto Pinochet (1973-1990) é a de que ele teria morrido devido a um cancro de próstata. No entanto, fontes próximas, como o motorista e ajudante do poeta na época, Manuel Araya, afirmam com insistência que o poeta teria sido assassinado, estando a justiça do Chile
a contestar a versão oficial sobre a sua morte.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Arte Poética de Amadeu Baptista, por António Ferra




Com a devida vénia, aqui transcrevo a leitura de António Ferra ao meu mais recente livro Atlas das Circunstâncias, publicada no passado dia 16 no blogue 'O Funcionamento de Certas Coisas'*:




ARTE POÉTICA DE AMADEU BAPTISTA,
POR ANTÓNIO FERRA

Ficam-nos sempre alguns versos na memória e até os dizemos de cor, prontos a serem reavivados, quando encontramos em leituras algum eco dessas marcas.

The Child is father of the Man;
I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.

                 William Wordsworth (1)

Foram estes que emergiram e ganharam forma renovada ao ler «Atlas das Circunstâncias» (2), de Amadeu Baptista, amigo poeta que sigo de perto.

Na escrita de Amadeu assinala-se, antes de mais, um contraste entre os momentos de maior robustez da escrita e a delicadeza que coloca noutros momentos, cheios de afecto e infâncias mais ou menos codificadas (3), onde também se convive com a intensidade do texto poético feito na carne e no sofrimento - os seus “antecedentes criminais” (4), que incluem também amargurada denúncia da crueldade do homem sobre o homem e da degradação social, que de onde a onde vai assinalando. Quase sempre com o pão e os cereais presentes, e recorrentes, numa sacralização dos direitos mais básicos e preciosos da vida: O pão não é só migalhas, mas a força/ que põem as mulheres a amassá-lo/ e a perícia com que os homens/ nos campos o amansam.

Neste livro, com trinta e quatro poemas, logo nos coloca perante aquela ideia poética que me fez lembrar Wordsworth: O homem é, antes de mais criança./Tem olhos para ver e sabe ouvir/tudo o que se agiganta sobre as casas,/ A chama da candeia sobre a mesa/.

E a criança prossegue ao longo do livro: Rolam-se as palavras sob a língua, como seixos, /nesse tempo de débeis redenções. De calções/e crostas nos joelhos uma criança/sopesa-lhe a leveza, e intensifica-as/.

Até que chega à adolescência, numa ruptura, É quando a adolescência dispara pelos campos/ e colhe das origens sentidos sacros,/ ou numa indefinição transitória marcada por versos como estes: É anfíbia a adolescência do poeta./ Distinguem-se-lhe no torax barbatanas/ dorsais e pulsam-lhe , na garganta , pequenas brânquias…/ o que me faz lembrar o filme «Waterworld» com Kevin Costner a protagonizar essa adaptação aquática.

Depois, neste atlas das circunstâncias, chega-se à idade adulta, onde a cinza preenche o farto cabelo de Amadeu poeta e pessoa: Há palavras com que a cinza delimita/ a idade adulta do poeta, a sua serpe,/ a sua cítara, a sua asma/ que só um banho lustral há-de calar/.

Antes de terminar o livro, há um regresso à evocação da infância: Eis que o poeta vê, entre roseiras/ um cão preto e, assim, de súbito, remonta/ à sua infância e á infância do poema, / O pretexto foi o medo infantil do cão preto, fantasmas que nos podem sempre acompanhar. Mas para mim, neste contexto, a infância é também uma imagem do conhecimento. Não apenas na apropriação ingénua dos românticos, inspirados em Rouseau. Tal como na loucura e no sonho não existem neste estádio amarras racionais suficientemente fortes para travar os fulgores mortais, no último poema, onde escreve ainda a infância é boa conselheira se instiga /a que se desoculte o abismo…/
« I could wish my days to be bound each to each by natural piety.», posso eu terminar, inspirado pelo percurso ao longo deste atlas.


(1) William Wordsworth, - Oxford University Press, Selected Poems (Poems referring to the period of childhood).
 (2) Amadeu Baptista – Atlas das Circunstâncias, ed Lua de Marfim, Lisboa, Julho 2012.
 (3) Amadeu Baptista - Açougue, ed &etc, Lisboa 2012. (v. poema «dois mil e oito»)
 (4) Amadeu Baptista – Antecedentes Criminais, ed Quasi, V.N. Famalicão,2007.






(cf. http://funcionamento.blogspot.pt/2012/09/arte-poetica-de-amadeu-baptista.html)

Eduardo Lourenço


Eduardo Lourenço no Ler em Voz Alta,
ciclo de conferências no CCB
20 de Setembro, 18.30 h


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Maria Teresa Horta



A escritora Maria Teresa Horta, distinguida com o Prémio D. Dinis pelo romance “As Luzes de Leonor”, disse na terça-feira passada à Lusa que não o aceita receber das mãos do primeiro-ministro, conforme o previsto.


A entrega do Prémio D. Dinis esteve agendada para dia 28, sexta-feira da próxima semana, numa cerimónia com a presença do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

“Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”, explicou Maria Teresa Horta à Lusa.

“Sempre fui uma mulher coerente; as minhas ideias e aquilo que eu faço têm uma coerência”, salientou a escritora que acrescentou: “Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores”.

Para Maria Teresa Horta, “o primeiro-ministro está determinado a destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril [de 1974] e as grandes vítimas têm sido até agora os trabalhadores, os assalariados, a juventude que ele manda emigrar calmamente, como se isso fosse natural”.

A autora afirmou que “o país está a entrar em níveis de pobreza quase idênticos aos das décadas de 1940 e 1950 e, na realidade, é ele [Passos Coelho], e o seu Governo, os grandes mentores e executores de tudo isto”.

“Não recuso o prémio que me enche de orgulho e satisfação, recuso recebê-lo das mãos do primeiro-ministro”, deixou claro Maria Teresa Horta.

A escritora disse que já informou a Fundação Casa de Mateus da sua decisão, assim como a sua editora e falou com cada um dos membros do júri.

A premiada salientou ainda a “satisfação” que lhe deu ter sido distinguida “por um júri que representa três gerações de poetas: o Vasco Graça Moura que é da minha [geração], o Nuno Júdice, que é da seguinte, e o Fernando Pinto do Amaral, que é a mais nova”.

No sítio da Fundação Casa de Mateus, na Internet, é afirmado que “a sessão solene de entrega do Prémio será agendada brevemente”.

O Prémio Literário D. Dinis, instituído pela Fundação da Casa de Mateus, foi atribuído por unanimidade à escritora, pela obra “As luzes de Leonor. A marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis”, editado pelas Publicações D. Quixote.

Instituído em 1980 pela Fundação Casa de Mateus, em Vila Real, o galardão é atribuído a uma obra literária - de poesia, ensaio ou ficção - publicada no ano anterior ao da atribuição do prémio.

“As Luzes de Leonor”, obra editada em 2011, é um romance sobre a vida da marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750-1839), neta dos marqueses de Távora, uma mulher que se destacou na história literária e política de Portugal num período denominado como “o século das luzes”.

D.ª Leonor de Lorena e Lencastre é avó em quinto grau de Maria Teresa Horta, nascida em 1937, em Lisboa.

Maria Teresa Horta estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, foi jornalista e activista do Movimento Feminista de Portugal, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, com quem escreveu o livro “Novas Cartas Portuguesas”.

“Amor Habitado” (1963), “Ana” (1974) e “O Destino” (1997) contam-se entre mais de duas dezenas de obras publicadas da escritora.


(Fonte: Jornal Púbico, via Lusa)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Alexandra Malheiro


Alexandra Malheiro, poeta convidada




3 Poemas:




Balada para uma Inês morta

Se nos amassemos
pela manhã
ou na cadência louca
do entardecer,
se embalássemos
num canto de voz rouca
a luz do poente
ainda por nascer.
Se o nosso amor
fosse classificado
como um desses amores
ainda por dizer
ou, se outrossim,
lhe chamássemos
o amor talvez
ainda por fazer,
serias tu Pedro – o Rei
que inda há-de ser
e eu Inês já morta
sem te ter.

(in A Urgência das Palavras, 2008)








A velha


Tinha olhos azuis
muito azuis,
acesos num lençol
de rugas
e

Não se sabe
porque mastigava os poemas
ou as gengivas.

Era uma velha,
como outra qualquer velha,
rilhando uma côdea seca de
poema,

andrajosamente
itinerando pela cidade.

Apenas não se sabe
porque…

(in Luz Vertical, 2009)







Às vezes Novembro

Às vezes Novembro era mais frio
que todos os meses
e uma sombra grotesca
amarfanhava-me os olhos.
Presas ao meu corpo arrastavam-se
sombras e pombos mortos,
coisas que mais ninguém
gostava de ver.
Às vezes Novembro
era um mês surdo,
e eu fechando os olhos
não ouvia o silêncio,
apenas o rugido trémulo
de uma trovoada cuja chuva
nunca vinha para amenizar-me
o sono e eu não
dormia nunca,
perorava vigil em
sobressalto pelos trovões.

(in Geografias Dispersas, 2011)





Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas: © Alexandra Malheiro





Alexandra Malheiro nasceu em 1972, no Porto. É licenciada em Medicina pela Universidade do Porto e especialista em Medicina Interna. É autora de 5 livros de poemas: “Sombras de Noite” (Elefante Editores -2004), “Circulação Transversa” (Corpos Editora - 2005), “A urgência das Palavras” (Edições Ecopy -2008), “Luz Vertical” (Edita-Me Editora - 2009) com prefácio de Pedro Abrunhosa e ilustrações de Miguel Ministro e “Geografias Dispersas” (Edita-Me Editora - 2011).