domingo, 16 de setembro de 2012

LADAINHA CURTA PARA EXCREÇÃO DOS GOVERNOS



Todos os ministros da saúde deveriam ser pacientes.
Todos os ministros da educação deveriam ser professores.
Todos os ministros da administração interna deveriam cumprir pena.
Todos os ministros dos negócios estrangeiros deveriam ser imigrantes.
Todos os ministros da justiça deveriam ser justos.
Todos os ministros da guerra deveriam carregar com as bombas.
Todos os ministros do comércio deveriam transaccionar rebuçados.
Todos os ministros da indústria deveriam sofrer a trepidação da máquina.
Todos os ministros da economia deveriam ser vagomestres.
Todos os ministros da cultura deveriam ser presidentes da sociedade protectora
    dos animais.
Todos os ministros do mar deveriam andar embarcados.
Todos os ministros da agricultura deviam ser coagidos a que lhes fosse vertida
    uma colher de óleo de amêndoa quente no ouvido direito.
Todos os ministros do ambiente deveriam ir a ares.
Todos os primeiros-ministros deveriam ser os últimos.
Quanto aos ministros das finanças, não há nada a fazer.
Todos os ministros das finanças são impostos.


Poema: © de Amadeu Baptista


Reprodução de uma obra de Marion Peck

Che Guevara




Sonha e serás livre de espírito... luta e serás livre na vida.

Che Guevara

Poesia na Rua


Poesia na Rua - Cacela Velha
16 de Setembro de 2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

António Cabral





Poemas de António Cabral



QUANDO OS CÂNTAROS DESCEM OS TEUS OLHOS


1.


A vida a minha se demove
quando os cântaros descem 
os teus olhos.


Ficarei
à esquina de mim próprio
a ver-te passar dentro?


Oh de cravos tão breve
a enfeitar-nos a tenda!


2. 


Escolho o voo deste insecto 
azul


pois entender o gesto
é tentar a improvável travessia
de sua água.


Só. O resto é passar rente
como poisar o brilho
num beiral.


3.  


E escolho ainda
o tépido teu
ombro


a sabedoria tão sal
vadora da tua coxa
(que ninguém fale em fogo


mas em linho). Molhar-nos-emos
no regato rápido do tempo.


4.


A hora tem a forma de uma tenda
a tenda tem a tua forma.


Sob as tuas ramagens
passa um tropel de estrelas
ainda elas

pois há um instante
em que a luz contra a luz é perceptível.
Tu tens a forma de um cântaro


5.


que se parte na boca
em boca
dinhos de tanto azul.


Outro cântaro desce a tua margem
a tua margem desce a tua água.
Tu és a água que não tem margem.


O brilho cai então do beiral
e acende-te nos meus ramos.



(in Entre o azul e a circunstância. Vila Real: Livros do Nordeste, 1983)




FAREMOS DO ENVELHECER UMA ARTE?


O tempo devolve, quase intacto,
o olhar suficiente. E as águas
vão ficando para trás, mansas,
algumas à nossa frente,
no hábito de as reflectir.
Há um sabor, um odor subtil
de madeiras, quando esculpimos
as mãos.


(in Ouve-se um rumor. Vila Real: Livros do Nordeste, 2003)





ALTO DO VELÃO, AO ENTARDECER



A luz ao ficar breve 
divide o estar aqui 
em a mão que o escreve 
e um brilho de ti


não adere mas fere 
suavemente as coisas 
que lhe vão sendo escritas 
na indulgente ardósia


ainda um voo de águia 
prestes a recolhida 
recolhe-se uma urze 
que não ficou escrita


e assim tu me decides 
que no vale se nasce 
e contigo se eleva

vamos ficar assim 

ao ver-te quase névoa
neste vário volume 
de sensações esquivas 
que o entardecer reduz


o reduz à medida 
do entardecer no feno 
não ouves uma flauta 
longínqua no vento?


Assim quanto mais breve 
a luz mais se dilata 
até ser doutro modo 
total a sua fala.


(in A tentação de Santo Antão. Chaves: Tartaruga, 2007)



Foto: © de Amadeu Baptista

António Cabral foi um escritor, investigador, professor e animador sociocultural português.
Nascido em Castedo do Douro, em pleno coração duriense, a 30 de Abril de 1931, iniciou a atividade literária aos 19 anos com a publicação do livro de poesia Sonhos do meu Anjo. Ao longo de 56 anos de carreira dedicada à escrita, publicou mais de 50 livros em nome próprio, abraçando géneros tão diversos como a poesia, o teatro, a ficção e o ensaio, e dedicando-se em paralelo ao estudo apurado e divulgação das tradições populares portuguesas. As suas raízes transmontano-durienses e a ligação à terra que o viu nascer,
“paraíso do vinho e suor“, são presença incontornável em toda a sua obra.
António Cabral faleceu em Vila Real a 23 de Outubro de 2007, aos 76 anos de idade, ano em que foram publicados os livros de poesia O Rrio que Perdeu as Margens e A Tentação de Santo Antão,
prémio nacional de poesia Fernão Magalhães Gonçalves.



Nota: a partir deste post, sob a etiqueta 'Poetas no Coração, este blogue passará a publicar poesia de autores
que, embora já desaparecidos, permanecem no meu coração.