Fotos (Jardim dos Budas/Carvalhal, Bombarral): © de Amadeu Baptista
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Isabel de Sá
Isabel de Sá, poeta convidada
Três poemas:
DENTRO DAS IMAGENS
Os poemas têm veneno na boca.
Na estrada da minha vida
plantei a árvore
sem saber quem era.
Em que parte do planeta
há mais ódio? A matéria
erosiva transforma o corpo
e não há regresso. Não
restará um monte de estrume.
Em todo o lado
parece que o mundo em desordem
pouco a pouco enlouqueceu
e os homens atam a corda
à espera que aconteça.
São infelizes
mas não o suficiente.
Não sabem dizer
por que se esquecem de amar.
Só o lume dos teus beijos rompe
a treva onde a solidão nos mata.
Enrolamos a vida no escuro,
na semente de um amor atribulado.
Conhecemos o ritmo e a sede,
a convulsão do desamparo.
No sentido do corpo, no acerto
desce a força pelos braços
na violenta festa do prazer.
Tudo o que disseste
no desaforo da paixão
só podia incendiar a vida inteira
e encher de esperança o universo.
A VERDADEIRA BIOGRAFIA: O PERCURSO
A minha biografia
é evidentemente excepcional.
Tive um Pai uma Mãe
nasci numa Casa
fui à Escola da vila
depois do concelho.
Mudei de distrito para
continuar
e o caminho da instrução
concretizou-se na Faculdade
de Belas Artes.
Da infância passada em plena
Natureza lembro
a beleza das estações do ano
os rituais católicos
uma criada preferida
o instante em que aprendi a ler.
Chegou a adolescência
e com ela a certeza
Quero ser professora de Desenho.
Suponho que a Biblioteca
me salvou do desastre
interior.
Tinha dezassete anos
e requisitei “Uma Época
No Inferno” de um rapazito
chamado Jean - Arthur Rimbaud.
Na Biblioteca o empregado
olha-me sempre com reserva.
Eu estudava o quê?
Um dia livros de medicina
outro dia de poesia.
Então a ciência é poética?
A entrada na vida adulta
aliada à independência
e ao amor. O meu país
sofreu uma revolução. A democracia
não honrou ainda a sua palavra.
Cumpro deveres e não posso
usufruir de direitos proporcionais.
Eu e alguns milhares
neste sentimental canto
europeu sob um regime
semiditatorial
contribuo
para a sopa e os vícios
de alguns milhares de parasitas.
Mudando de assunto a pátria
é grande e a família também.
Para mim já passou
o meio século. Já foi o Pai
a Mãe e o Irmão mais velho.
Estou por cá à espera
certamente.
Não é provável que me entregue.
Conheci o galinheiro do confessionário
ajoelhei-me diante do altar
da virgem. Apaixonei-me.
Também recebi um terço de prata
no dia da comunhão solene.
E na hora exacta o óleo
perfumado do crisma.
Sempre que vou a uma missa
de corpo presente lá está o mesmo altar
com a deslumbrante
virgem. Entretenho-me
a recordar que já tive
quinze anos e também
adorei.
Depois a Páscoa a soturna
via sacra onde sofria
pela minha dor
e as beatas exibiam lágrimas
como dádiva pelo calvário
a que Jesus foi sacrificado.
Jesus era belo na sua passividade.
Os longos cabelos
o olhar suplicante
as pernas
o tronco liso
o ventre. Por fim
a entrega. Braços abertos
para o bem e para o mal.
Agora neste dois mil e seis
trata-se de insistir. Já é tarde
para quase tudo.
Os meus contemporâneos alimentam
uma curiosidade fétida.
A obra é minha. Faço
o que quero. Escondo
rasgo
mostro
transformo
entrego ao crematório
deixo aos herdeiros
ao vaticano
não deixo.
Nunca esmolei. Não fui pobre.
Mas os sinais da exclusão
o ódio é tão luminoso
que seria patético
psicotisante até
não articular sequer
estes versos
antes da eutanásia.
Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista
Poemas: © Isabel de Sá
Isabel de Sá nasceu em Esmoriz a 8 de Setembro de 1951. Licenciou-se em Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Expõe desde 1977 e, paralelamente, exerce actividade literária, tendo reunido em 2005, num único volume, REPETIR O POEMA, edições Quasi, todos os seus os seus livros de poesia. Em 1983 obteve o Prémio de Pintura – Prémio Nadir Afonso- Bienal de Chaves e o Prémio de Aquisição do Banco de Fomento – Exposição de Arte Moderna, Lisboa
Foi co-fundadora das revistas de poesia COLAGEM, em 1980, SERPENTE em 1983, assim como das edições MIRTO em 1984 e BRILHO NO ESCURO em 2009. Entre 1983 e 1988 foi colaboradora do JN, na página Cultura, escrevendo sobre poetas da sua geração. Colaborou com desenhos e poemas em suplementos literários de jornais, volumes colectivos, revistas e antologias –Diário de Lisboa, Diário Popular, JN, Poetas do Café, Raiz & Utopia, Sema, Hífen, Colóquio-Letras, Espaço/Espacio Escrito, Logos, Cadernos de Serrúbia, Via Latina, O Mono da Tinta, Relâmpago, Hora de Poesia, II Cobold, Micromegas, Sião, Poetas Escolhem Poetas, Quadrant, Europe, Literatur und Kritik, Poesia Contemporânea (México), A Ideia, Poemas de Amor, Vozes e Olhares no Feminino (Porto 2001), Europe Plurilingue – Vozes do fim do século XX.
Está representada na 16ªedição da História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, no Dicionário de Literatura Portuguesa, 1ªedição, de Álvaro Manuel Machado e na História da Literatura Portuguesa, Volume 7 (As Correntes Contemporâneas) de Óscar Lopes e Maria de Fátima Marinho, 2002.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Os livros dos meus amigos meus amigos são
Elegias de Cronos, de Nuno Dempster
Edições Artefacto. Lisboa, 2012
Um poema:
PREVALÊNCIA
Tão frágeis as papoilas,
inaudível o canto do serzino,
livres os seres
dos rios e do mar,
e as mulhres que dançam:
tudo permaneceu
depois de terem
passado os godos.
(in Elegias de Cronos. Edições Artefacto, Lisboa, 2012)
© de Nuno Dempster
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Katarina Frostenson
POEMAS DE KATARINA FROSTENSON
Não
Não
não comeces não comeces agora, de novo
não comeces a encerrar mundos em espartilhos; com cordões de palavras
ata, determina, torce palavras
até que os poemas caminhem por si mesmos com os pés para dentro;
animais guias, animais preguiçosos
eternos, divididos, Escrita poética
em linhas, radículas com velho odor a alce
limpas, polidas
mundos fechados – tiques
velhos tiques hediondos – não não comeces –
Den andra, 1982
FOGOS VERDES
O caminho está limitado por espelhos cobertos
o campo resplandece apagado:
Três remendos negros, y um verde
uma pegada fresca na minha alma
Paragem de distância O desejo
é o meu pensamento
O céu estende o seu lenço cinzento
arde um fogo junto ao meu joelho
movimentam-se umas lebres entre as espigas
I det gula, 1985
O ODOR DE GENET
Hoje: o odor de Genet,
não o amarelo, crescente:
o cinzento, traças
e rosas
Rosas cinzentas, escassas
densas Um rosto gasto até à aspereza
estala em canto A pedra
A canção alta
a canção surda
sem palavras; a formosa canção
sem sentido: levanta pedras, por nada
cansa-te
até ao limite
Orelha de elfo, pontiaguda
saliente
coroada, como um anel
em volta de músculo, de vozes de mortos
Folhas de cor lilás
rígidas Tudo isto
existe, por si mesmo
estende-se sem mover-se
como círculos na água, a voz
que atravessa de lado a lado
e continua vendo
O odor no corredor, junto ao coração
o cinzento
o odor do quarto
Atrás das portas, fechadas
risos Pequenos
meninos ínfimos a quem puxaram o cabelo curto
jazem na erva
Erva calcinada, incolor
Sexos pequenos, puídos
Corpos fortes,
curtidos pela dor
Tudo isto existe, existe
para ser usado
e voltar a usar
Emerge
Absolutamente imóvel
Estende-se Não
termina nunca Martela Apalanca
Escava
Da minha garganta sai rindo-se
uma voz rio-me
no eco da minha voz
não me acabo nunca –
Ponte a ressoar
em mim, ressoa sou
a minha voz, finalmente
a minha voz final
Samtalet, 1987
LEONCE
«a minha cabeça é um salão de baile (abandonado)»
Caminhas com a tua grinalda de flores
caminhas com a tua formosa cabeça
como sangrentamente ferida
e resplandeces da música da tua face
Sai um rumor de abismo da nuca
soa como rumor na tua mente –
ou águas freáticas
fluem obscuros tons da abóbada que não podes ver, nem alcançar
só ouvir
e tudo arrastada a ressonante distância
mas a face está sempre limpa, branca, aberta e redimida de pecado
tu – sonhas
por quê tão triste, Leonce
cantam e dançam no salão
Joner, 1991
Versão minha - © Amadeu Baptista
Katarina Frostenson, nasceu em 1953. É a autora mais reconhecida da sua geração. A sua poesia caracteriza-se, desde o seu primeiro livro, por uma arrojada renovação formal, em busca de uma expressividade singular, em que a musicalidade desempenha um papel decisivo. Escreveu teatro e é traduziu alguma literatura francesa. Em 1992 ingressou na Academia Sueca.
sábado, 8 de setembro de 2012
O Bosque Cintilante # 61
Johann Strauss: Wein, Weib und Gesang
É Setembro em Viena.
Pequenas cintilações abrem as portas
dos imensos salões
e ao som da valsa
podemos perceber qual a diferença
entre um roçagar furtivo
e o tremor de terra.
in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
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