sábado, 21 de julho de 2012

João Tomaz Parreira





3 SALMOS INÉDITOS




SALMO 7


Aos que me perseguem, o Senhor apaga
o meu rasto, esconde os meus passos
dos olhares felinos, o meu coração
está aberto para Ele
Meu Deus haverá remédio para mim
a minha alma já não teme o teu arco curvado
nem as setas inflamadas
começa a aprender os altíssimos louvores
na tua própria língua.





SALMO 51


Ó Deus, o meu pecado ensurdece-me
é no meu interior um ruído 
como a convulsão da terra, antes do sismo
os meus delitos entraram na corrente sanguínea
dá-me, ó Senhor, um coração branco
renova a verdade que um dia escolheste
nos meus olhos, como a neve nos ramos
das árvores, embranquece 
os meus ossos humilhados
e os lábios 
desenharão palavras de alegria.





SALMO  121


A dureza dos montes começa nos meus olhos
um paradoxo
para quem tem sublimes alparcas de voar
por isso fecho os olhos e os lanço
fora da órbita do mundo
para ti, Senhor, que fizeste o azul
onde puseste esta raíz dos homens
que é a terra 
não haverá queda  porque teus passos
são os mesmos do Senhor, diz
a voz que extingue dentro de mim
os medos que o Sol e a Lua
costumam esconder.


© João Tomaz Parreira

Do livro Falando entre vós com Salmos (inédito)










Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas© de João Tomaz Parreira

João Tomaz Parreira ou J.T.Parreira, Lisboa, 1947. Poeta. 6 livros de poesia (Este Rosto do Exílio,1973; Pedra Debruçada no Céu, 1975; Pássaros Aprendendo para Sempre, 1993; Contagem de Estrelas, 1996; Os Sapatos de Auschwitz, 2008; e Encomenda a Stravinsky, 2011 ). Um ensaio teológico (O Quarto Evangelho - Aproximação ao Prólogo, 1988). Participação em Antologias. Escreve na revista  evangélica «Novas de Alegria» desde 1964 e no Portal da Aliança Evangélica Portuguesa. Na juventude escreveu poesia e artigos no suplemento juvenil do "República", entre 1970-1972.

Nota: sob a etiqueta 'Reincidências' se registará toda a colaboração neste blogue dos poetas que já tenham por cá passado como Poetas Convidados

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Rute Mota


Foto: © de Nuno Costa




Rute Mota, poeta convidada


3 poemas inéditos


Viajo dentro de um cisne. Não
acredites se te disser, o lume
não é um lugar de conforto. Aqui
ninguém dorme. Mas toma só
um pouco deste fruto que fende
por dentro dos lábios, como
uma estrela íntima. Não penses
nunca que a morte é um mastro
por onde possas aprender a subir.





Os filhos correm pela sombra
sem o medo preso nos dentes
como um músculo de fome,
agarram-se à casca das árvores
com as mãos mais limpas
de todas as estações. Abres
a boca, mas era só uma chama
a chegar ao mais alto do céu.




As árvores chovem devagar
entre os dentes, como delírios
em guarda dos meus sonhos.
O pássaro onírico em nada
semelha o rosto pausado e
conhecido. Muitas eras depois
vieram os instrumentos do fogo
tocar os acordes do mundo.



Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas: © Rute Mota


Rute Mota (Torres Vedras, 17/12/1980). Publicou, em 2007, Nenhuma Palavra Nos Salva (poesia). Tem alguns textos dispersos em revistas e antologias. Anda por aí.

Cartas Bordadas para Mim



Amanhã, dia 21 de Julho, pelas 15 horas
Espectáculo 'Cartas Bordadas para Mim',
projecto dos mestrandos Hugo Castro Andrade e Pedro Augustos
professor responsável Rita Wengorovius
Avenida Marquês de Pombal - Amadora
Reserva obrigatória, tel. 214989452

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Atlas das Circunstâncias



Acaba de ser dado à estampa o meu novo livro Atlas das Circunstâncias. O livro é o nº. 3 da colecção Meia Lua e a edição é da Lua de Marfim. A ilustração da capa pertence a Maria João Lopes Fernandes. Em 2009 foi atribuído a Atlas das Circunstâncias o Prémio Literário 'Manuel Maria Barbosa du Bocage'.
Aqui deixo o fragmento inicial deste longo poema em 30 sonetos:




Não há dias propícios para os fulgores
mortais. Vem-se à terra por uma vereda
acrisolada, com as mãos ininterruptas,
e faz-se a boca diagrama das casas,

sapiência de ver e de sentir, caladamente.
Depois, há só como pensar em tudo em volta
e ver os córregos, as nuvens mansas, a prata
dos telhados, sendo por essa liturgia do silêncio

que há-de ir-se um homem em busca das palavras,
para as sentir e ampliar nos campos e na infância,
enquanto a terra revolve os seus cilícios

de treva e de raízes, a congraçar na cabeça
uma rede de brilhos opacos e translúcidos
em cada pedra.


in Atlas das Circunstâncias, Póvoa de Santa Iria, Lua de Marfim, 2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Bosque Cintilante # 57

Johann Sebastian Bach: Badinerie

Altas horas da noite
ouvi a fala da estrela
prometer-me a cegueira
do esplendor da luz.

Não há como fugir a céu aberto.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

domingo, 15 de julho de 2012

Matthías Jóhannessen



MATTHÍAS JÓHANNESSEN



SOMOS POETAS DA MORTE

Somos poetas da morte –

ouvimos um desconhecido
chegar só a cavalo
sobre um corcel lendário
e unimo-nos ao som dos que crêem
que ainda têm outro dia
disponível, não o sabem:
a sua vida está racionada.

Falámos da morte
nas montanhas do deserto
mas nunca nos responderam à pergunta
que deixou entrar o inverno cristalizado,
só nos resta isto:
esperar que uma mão desconhecida
nos dispense da nossa obrigação
junto às flores do nosso solo pátrio
e oiçamos dizer:

O seguinte.

                                   Jord ur aegi, 1961


IMAGEM

Luar.
Noite ardente nos teus cabelos,
água límpida nos teus olhos.
E calma.

A lua reflecte-se
sobre a superfície da água
e estende a sua mão branca
para o alcantilado.

Numa arca fechada
está o teu tesouro,
quem é o dono
da prata e das pérolas
do teu coração?

Quando sorris
parece-me que se abre o muro
e posso entrar no tesouro
das tuas ilusões e dos teus sonhos.

                                   Fagur er dalur, 1966


TEMAS

I

Ela é uma árvore
que se soltou
das suas velhas raízes
e flutua na rua
com as  folhas
sobre os ombros.


II

Quando uma jovem
vizinha
vai à cidade
é como se as árvores
se tivessem desprendido
das suas velhas raízes
e flutuassem nos passeios
com os cabelos
pelos ombros.

E a mulher
sacode as folhas
para que possamos
seguir as suas pegadas
neste formoso dia de primavera.


III

Os teus olhos
não eram espelhos
mas terra escura
que eu toquei com dedos invisíveis
com arado profundo
que entrou no teu coração.


IV

Há uma lagoa no páramo.
Pedras negras assomam
sobre a superfície da água.

Assim assomas tu em meu coração.


V

Surpreendeu-nos o dia
deitados no sofá.
Levantei-me
e corri as cortinas.

Senti na obscuridade
que ela escrevia na minhas costas –

Eu não sabia o que ele escrevia
mas os dedos eram raios.

Eu era a montanha com o seu cume branco
e ela o sol do páramo.
Assim me chegou a primavera.


VI

Os meus olhos desejam-te,
toco-te com as minhas mãos brancas,
os meus dedos são trepadeiras
que se entrelaçam aos teus cabelos,
os meus pensamentos pássaros invisíveis
que esvoaçam entre os teus ramos.

Sim não, como dizê-lo:
amo-te?

                                   Morg eru dags augu, 1972


A MARAVILHA

Esta maravilha: os teus olhos negros
que se abrem de repente
a um novo sonho: o dia ilumina
o mistério da tua esperança viva
perante a incerteza do tempo e do espaço
tu  purificas a doçura da vida
como o sol que desperta as flores adormecidas
da sua letargia de escuridão e noite.

Esta maravilha: os teus olhos negros
sóis ardentes e enamorados
derramam a verdade da primavera
sobre a tua vigília, o teu sonho
que chega com o verde e as flores dos prados
chega com a alegria da tua filha
que enche também os teus olhos
com a maravilha da sua própria primavera.

Esta maravilha: os teus olhos negros
aventura de luz e de sombra
de súbito volta a chamar-nos ao sonho
de súbito tudo estará silencioso:
alguém apagará esses sóis
que brilham na profunda escuridão
dos tuas pálpebras, que se fecharam
num céu cheio de noite.

                                   Morg eru dags augu, 1972



A TERRA

I

O sol avança lentamente
no horizonte
até alcançar com velas recolhidas
os confins do oceano,
virá a manhã seguinte
com a sua nova carga
de lava de montanhas e de mar.


II

As nossas palavras

lava endurecida
do pensamento
que uma vez foi fogo,

palavras cobertas de musgo.

E nós velhos
crateras apagadas.


III

A terra segue-nos
com o seu manto branco

mas as crateras levantam
os seus punhos

contra o céu.


IV

Dormimos
sob o céu raso
e despertamos
num silêncio
não terreal
vemos o deserto
aproximar-se
vestido de uma manhã
clara e tranquila:

com a sua túnica transparente
chega o velho céu à terra
apoiado num raio de sol
sobre a lava.

                                   Tveggia bakka vedur, 1981


POEMA DAS CERCANIAS


As crateras repousam
do seu sonho
milenar

a lava veste-se de musgo
sob o silêncio
gelado

a sombra do carro
aproxima-se velozmente
tudo no caminho
se funde
em luar de noite clara

assim nos encontramos com a nossa sombra
e a seguimos
com um vulcão adormecido no peito.

                                   Tveggia bakka vedur, 1981


Ás cinco da manhã
refresca, os pássaros deixam de cantar
e a encarniçada luta entre o dia e a noite
cresce, a batalha decisiva é a esta hora
cada manhã, tudo perde
força e morrem
os que esperam a morte em casas
tétricas, um vento fresco percorre os campos
e os prados, cavalos apáticos
vigiam tudo,
como se suspeitassem que é a hora decisiva,
cavalos apáticos e pássaros
deste silêncio opaco, desta
maré fresca matutina aguardam
que a luz saia vencedora
e a noite fria fuja com sapatos obscuros
que a noite se esfume como uma pazada de carvão
no ardente fogo do novo dia
com o sol e a brisa fresca
à vista das aves canoras desta terra
pronta para partir, uma alface num ramo,
cega pela luz da manhã,
há pouca distância entre os marcos
caídos e o tempo respira na margem
e saúda o novo dia azulado
à tua passagem, terra minha.

                                   Tveggja bakka vedur, 1981


SE...

Se te tivesse seguido
ela esta noite
como a lua segue a água

se os tivesses encontrado
esta noite
no mundo transparente
da água

se tu fosses uma flor amarela
no silêncio azulado
deste dia passado

se tu fosses esta noite
esta noite de lua
branca

ela seguir-te-ia
como a lua
segue a água.

                                   Dagur af degi, 1988  


RECORDAÇÃO DE UM DIA

A tua árvore é a recordação
de uma casa
que se ausenta
caminhando lentamente
sobre a velha terra erodida
e o contacto  do pecíolo amarelado
da folha sobre o céspede
gelado
na sua despedida

e a asa do dia
ido
que te visita
é a sangrenta  podoa
dos seus ramos negros

                                   Dagur af degi, 1988


NÓS

I

Nós, que vivemos -
nós, que flutuamos nas horas que fluem
pelos  leitos da cidade
da cidade betão
que afoga os segredos
de ruínas perdidas -
nós, que no entanto chegamos
com a sua voz no sangue
que no entanto esquecemos
as suas marcas:
já nem sequer crescem                                                                                                                                     
a cauda do cavalo
e os miosótis
entre as pedras enterradas,
a sua vida está fechada
com o selo da época:
o negro asfalto.


II

Nós, que não entendemos quando nos dizem
no oeste em tempo de seca:
não há secas como as de antigamente.
Não dizemos
que sopra o ábrego
quando empurra os seus barcos
pelo céu encrespado
nós, que esquecemos
a sua voz,
a quem não desperta a atenção que alguém pergunte:
Chegaram a um acordo?
Por que não sabemos escutar?
Por que não procuramos a suas marcas
sob o asfalto
ali onde corriam
regatos tranquilos
e havia ranúnculos nos canteiros?


III

Mas nós,
que já não escutamos
a sua voz no nosso peito
olhamos o céu
como única esperança
de inesperadas notícias.
Tudo mudou:
espaço, verdade, tempo
perderam o seu sentido
e até as águas sujas
já não são as de antes:
mudaram de curso
e correm livremente
pelas nossas veias,
porque nós trocamos
o encanto da tradição
pelo rumor de pompas quotidianas.

Sim, nós -
nós, máquinas nuas,
máquinas de máquinas -
nós, que deixamos
de aspirar o aroma da urze,
o tranquilo silêncio dos páramos -
que deixamos
de sentir o rumor do glaciar
no sangue
e abrimos os olhos como pratos
se alguém adverte e diz:
olha, que formoso
esse alazão -
que enchemos os nossos pulmões
de anidrido carbónico
e vemos os esgotos
correrem por tubos de betão
para o mar -

Oh, sim, nós, máquinas nuas.

                                   Morg eru dags augu, 1972

IDEIA


Os teus pensamentos
fogem
com asas negras
na obscuridade
silenciosa
morcegos
de uma gruta
profunda
e sem eco.

                                   Dagur af degi, 1988


OH, ESTA PRIMAVERA


Oh, esta hora
que nos chama ao encontro com a terra
recém germinada, o silêncio transparente da névoa azul
silêncio da terra e do calor -
e eu o sol na tua carne.

O nosso peito é o templo
de que os pássaros da alegria
fugiram rumo à primavera,
deixámos para trás
marcas junto ao rio que os dias
vadeiam pelas pedras
e a noite amadurece sobre o campo -
ouvimo-lo respirar
no seio convexo do rio
as ondas pontais na água, a brisa
rumor suave entre os ranúnculos e as adelfas,
a água precipita-se nos rápidos,
ecoa o rio e no vapor das cataratas
os rais vívidos da manhã -
vejo-te sorrir, vejo a terra inteira sorrir
no teu olhar.

                                   Fagur er dalur, 196


REFLEXOS NA ÁGUA

Passámos por aqui o ano passado
vimos as árvores reflectidas na fonte
as folhas reflectidas que a água levou -
Voltarão novas folhas
imperceptivelmente.

Percorreremos ainda o mesmo caminho
reflectimo-nos no arroio
vemos envelhecer a nossa imagem
envelhecer e ir morrer ao mar -
imagem que sabemos
que nunca voltará.

                                   Morg eru dags augu, 1972



Versão minha - © Amadeu Baptista

Matthías Jóhannessen, nasceu em 1930. Director do jornal de maior tiragem de Reykjavik: Morgunbladid. Autor de numerosos livros de poesia, escreveu também teatro e livros sobre literatura e arte.