terça-feira, 10 de julho de 2012

O Bosque Cintilante # 54

Robert Schumann: Traumerei

O número das ruas que sobem
não é o mesmo que o das ruas que descem.

Sei que me aguardas
e não vou voltar.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista


Defender o SNS


Concentração em defesa do Serviço Nacional de Saúde
dia 11 de Julho às 15 em fernte ao Ministério da Saúde, Avda. João Crisóstomo, 14 / Lisboa

segunda-feira, 9 de julho de 2012

António Cândido Franco


António Cândido Franco, poeta convidado


3 poemas inéditos


 
LUIZ PACHECO

Foi outro Fernando Pessoa
com mais miopia e mais filhos.
Foi lúcido como ele
mas não lhe bastou escrever merda.
Aos Coelhos mandou-os para a cona-da-mãe
e às Pedrosas chamou-lhes filhas-da-puta.

Teve o talento do Outro
mas também mais tasca e mais verdade.
No Rossio, no meio do lixo
voltou costas ao SNI e aos prémios da caca.
Deu gravata, casa, sapatos e livralhada.
E entre Tejo e Sado, nú e recém-nascido
cego mas não mudo, vadio e genial
ficou a sorrir entre tolos, bêbedos e gafos.








NA MORTE DE ANTÓNIO TELMO

À esquina o nome do lugar.
Na porta a declaração de óbito
e uma fotografia a preto e branco.
Um homem de óculos
de ar impenetrável e amplo.
Na capela uma caixa de pinho
embrulhada em veludo preto e
coberta com um pano cor de vinho.
Por cima pétalas e rosas.
Aos pés duas batas de flores.
Diante o altar com crucifixo em lata.
No nicho em pau as santas do lugar.
Ao cimo um Cristo triste no Calvário
com cruz e espinhos.
Nos bancos corridos
sombras negras que compõem o cenário.
 Um grupo de amigos caminha e avança.
No centro a caixa preta de pinho. 
O Filósofo é agora o tapete
 à volta do qual se vive o transe.
No silêncio hierático e puro
da sua boca selada pelo não ser
brilha o azul incriado do verbo escuro.
Morte, mistério da iniciação.
E numa rosa quente, a arder 
que alguém lhe pôs à altura d’ coração 
explode a luz em fogo do Oriente.










ISABEL MEIRELLES

Para facilitar falei ao telefone em francês
e apontei la preface.
Ela escutou, falou e voltou ao português.
Ouvi-a parar a meio e repetir o traço.
Logo suspirar com ânsia um ah! 
Queixou-se do França mas não da França.
Tinha-lhe vetado uma antologia.
Sempre o mesmo, sempre por perto.
Tanto veto e tanto dia.
Do Gelo só cinco poetas, disse à cautela!
Quais seriam, pensei eu?
O Pressler com azar, mais que certo.
A minha Isabel era a mulher da lambreta
dum sonho do Mário
a dobrar uma esquina de Paris de blusa preta.
Ou a Isabelinha do Artur
a cantar uma chanson.
Oiço agora a voz dela num armário.
Há azul no som e na rua ar de barro.
Nada de prego a fundo.
A Lua nova a brilhar no prato. 
E basta.
Uma antologia da poesia surrealista, diz ela!
E vai no escuro o poema do mundo
e na mão a sombra de ferrar os astros.




Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas: © António Cândido Franco

António Cândido Franco -  nasceu em 1956, Lisboa. Publicou o primeiro livro em 1976, Murmúrios do Mar de Peniche, numa colecção onde se estrearam Manuel Cadafaz de Matos, João Carlos Raposo Nunes, Levi Condinho, António Cabrita e Abel Neves. O último que deu a lume, já em 2012, foi Autos do Fogo Analógico. Pelo meio fica muita barafunda, de que ressalva o seguinte estudo: Teixeira de Pascoaes  nas Palavras do Surrealismo em Português, 2010. Sonha um dia passar ao papel uma memória da geração nascida na década de cinquenta do século XX, seguindo de perto o modelo que Ruben A. usou nos três volumes
de O Mundo à Minha Procura.

Cristina Carvalho



Cristina Carvalho,
é a convidada do próximo 'conversas ao fim da tarde',
dia 11 de Julho, pelas 18 horas,
na Biblioteca Municipal de Coimbra

domingo, 8 de julho de 2012

Vilborg Dagbjartsdóttir



4 poemas

O CONSELHO

Sentados à volta da mesa
estranhos jogadores
deitam os dados sobre a minha vida
sobre a nossa vida.

Esta noite perguntei-me
se não serão eles meninos
como o que está no berço
e enche o quarto com a respiração.

                                               Laufid á trjánum, 1960



JAKOV FLÍER INTERPRETA A SONATA
EM RÉ BEMOL DE CHOPIN

Rosas brancas que se enredam num muro negro
um arroio que corre à luz da lua.

Duas borboletas bailando entre as rosas.

Com um bater de asas
uma delas cai e agoniza

a corrente leva-a.

Um raio azul de lua cai
sobre a outra borboleta
sobre uma rosa.

                                               Dvergliljur, 1968



VOCAÇÃO

Ali vai, o glutão e ébrio
quantas vezes não desejei
deixar a minha cruz da casa
e segui-lo?
poderia sentar-me a seus pés
à sombra de uma figueira
e admirar
as suas graciosas palavras
ou correr com ele na praia
ou vê-lo desenhar na areia figuras de peixes
ou ir buscar barro
para modelar pássaros
depois iríamos a uma festa
de algum cobrador de impostos
ou a uma boda camponesa
onde houvesse bastante
que comer e beber
com muito gosto armaria a tenda na praça
escandalizando os fiéis da paróquia
e derrubaria as mesas dos vendedores
no pátio do templo.

                                               Ljód, 1981



DOIS MIL ANOS


Dois mil anos
ajoelhando-nos
na igreja
chorando
a memória do nosso
primogénito crucificado.

E os seguidores
e os filhos do sofrimento
que aprenderam os seus truques
com as suas mãos
junto ao fogão
Que podem comprar
com o seu prato de lentilhas?

A terra já está repartida
entre os herdeiros menos directos
e chegou o momento
em que já não há um lugar
no mundo
que possa servir-lhes de refúgio
no seu desterro.

Não lhes resta uma pedra
em que reclinar a cabeça.
É inútil querer decifrar sonhos
nos cárceres.

Não é já a hora
de levantar
e atirar para longe de nós
os véus?
Depois de tanto
todas estamos tosquiadas.

                                               Ljód, 1981


Versão minha - © Amadeu Baptista

Vilborg Dagbjartsdóttir. Nasceu em 1930 e publicou o seu primeiro livro de poesia em 1960. É uma das poetas islandesas mais lidas contemporaneamente. A sua poesia alia o imaginário romântico com o realismo lírico. É activista dos direitos das mulheres.

sábado, 7 de julho de 2012

O Bosque Cintilante # 53

Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Polonaise, de Yevgeni Onegin

Todas as cores eram suaves naquele tempo
em que acreditávamos que a divindade existia.
Hoje o nosso amor distribui-se por pequenas parcelas
de nuvens cor-de-rosa, alguns segmentos de sol que tomaram a forma de um lago
sobre o nosso olhar, um risco entre duas coisas
que já não sabemos nomear mas estão lá, perante as nossas mãos 
chegam a queimar os sentimentos e a magoar como jamais pudemos imaginar.
A divindade ainda vive, tal como vivem coisas imemoriais
entre nós, mas talvez se tenha perdido o sentido essencial
do que habita a alma nestes dias, o poderoso triunfo
da aliança sobre todos os eventos. Sentamo-nos nesta pedra
e esperamos, um processo de múltiplos brilhos emerge do céu
para que contemplemos a dor, às vezes adormecemos
para escutarmos as vozes do que aconteceu e o pesadelo
adensa sobre as cabeças esse ruído indizível de muitos anos
de desolação após outras tantas estações de uma felicidade quase subversiva, alheia
a tudo quanto dói e fere. Hoje é possível dizer que o amor
nos induziu às sete partidas do mundo e a clareira nos espera
ainda se algo mais denso pulsar na pedra do nosso contentamento, eu digo
como te entrego este bloco de sílabas inesperadas
para compreender todas as turbinas do mundo, os seus vulcões,
o movimento que enche o coração e há-de animar
de novo a divindade a operar o milagre da transfiguração e da esperança.
Amo-te dezenas de vezes e de mil maneiras diferentes, carrego nos dedos
este inebriamento de mel com o teu nome e o teu odor
e sei como há plácidas tempestades entre dois seres,
a flor do meu segredo é essa pulsão que conduz às tuas raízes
para que um imenso vendaval de pétalas floresça
no meu peito, meu amor,
um surto de escuridão.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Açougue


Está em distribuição a publicação portuguesa de Açougue, em edição & Etc.
A capa é de Bárbara Assis Pacheco e a composição e paginação de Pedro Serpa.


Um poema:


MIL NOVECENTOS E OITENTA E SEIS

Na extensão do quarto não há senão
um lençol vermelho e a mulher.

A cama, ao fundo, e a lâmpada acesa
não são mais que motivos para prender
a atenção.

Dou dois passos absolutamente vacilantes.

O lençol vermelho é de um cetim que cega,
um brilho extenuante.

Mas eu quero ver, quero ver a mulher.

Na extensão do lençol de cetim
a mulher não vacila.

Parecendo
que dorme, tem um sorriso nos lábios,
desconhecido.

Dou dois passos na sua direcção.

Paira no ar um perfume quente,
quase sólido, que me embriaga a ponto
de a querer ou de a matar.

Quero, quero ver a mulher, em toda
a extensão do quarto, surpreender-me
com o fascínio da oferenda, os seios breves
no lençol vermelho, de cetim,

esse sorriso,
assim desconhecido.

A pouco mais de um passo, tocando-a
ao de leve,
sinto que a carne não é carne
nesse momento intenso,
a carne é a visão do desejo sobre um lençol vermelho, de cetim,

em que a lascívia se amplia
e o desencontro
se entrega à claridade da extensão do quarto
para que o crime se consuma
e eu use, cegamente,

este punhal.


in Açougue, Lisboa, & Etc. 2012
© de Amadeu Baptista