sábado, 30 de junho de 2012

Inês Ramos em 'Meditação Sobre O Fim'






Meditação Sobre o Fim, Editora Hariemuj, Lisboa, 2012


Hoje, não só noticio a saída da antologia Meditação Sobre o Fim, que recentemente foi dada à estampa pela editora Hariemuj (e que reuniu um extenso número de colaboradores, cf. a respectiva contra-capa que acima se reproduz), como, no caso, agradeço à Inês Ramos o poema que lá fez publicar e que teve a bondade de me dedicar. Aqui o reedito, com a devida vénia e a expressão fraternal de uma amizade que se vai fazendo antiga:




para o Amadeu Baptista

Meu caro amigo
o fim chegou como uma flecha
e não encontro a chave
para decifrar o último enigma.

Pesam-me as pálpebras e as mãos.
Houve dias em que dancei
troquei beijos
sonhei.
Agora, perto do fim
resta-me a soma das lembranças.
Passada já a última dor
acerto os passos nos últimos versos.

Não me angustia a morte
mas os rios onde não deitei os meus olhos
as pétalas que não toquei
as melodias que não ouvi
as estrelas que não espreitei.

Não vale a pena esquivar o tempo
ir buscar a cana de pesca e abalar para o rio
contar histórias aos peixes que não mordem o isco.

Resta-me ainda nos olhos
um grande reservatório de sonhos
que se embaciam.
Mas nem um vestido negro tenho
para o meu próprio luto.

Meu caro amigo
promete cobrir-me de rosas vermelhas
amanhã.
Sei que vai chover.

Não chores por mim.
Cobre-me de rosas cor de sangue
e segue para casa.
Abre a caixa de selos que te enviei pelo correio
e procura neles
as minhas impressões digitais.

No silêncio da casa
tenta tu compreender a vida
enigma de todos os meus dias
esse traço estranho que me acompanhou sempre
essa etérea luz
nem sempre chama
nem sempre ténue.

O olhar escurece-me
e nestas palavras inúteis
medito sobre o fim.

Aconchego-me na despedida
sem saber o que fui
porque nunca me forneceram
o meu livro de instruções.




Inês Ramos nasceu no dia 22 de Agosto de 1965, em Agualva-Cacém. Mantém, desde 2006 o blogue sobre poesia “Porosidade etérea”, onde divulga os poetas e os seus livros. Foi responsável pela recolha, selecção e organização da antologia de poesia “Os Dias do Amor”, para a editora Ministério dos Livros,
com poemas de 365 autores, editada em Janeiro de 2009.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Bosque Cintilante # 52

Guiseppe Verdi: Coro dos Escravos Hebreus, de Nabucco

Mais amplamente, nós, os escravos, representamos
os que estão encarcerados
mas podem usufruir de um livro para cantar.
A luz sobre o proscénio não só nos ilumina
como suavemente alastra para a estrela que se ergue
sobre as nossas cabeças, a nossa ansiedade.
Onde quer que se encontre a nossa alma,
onde estiver a forja em que o nosso encantamento se projecta,
onde alguma vez se reunirem as sombras
dos inóspitos símbolos de que formos,
ainda que invisível,
ainda que inaudível.
há-de estar esse grito,
nítido e legível.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista



quarta-feira, 27 de junho de 2012

O Bosque Cintilante # 51

Wolfgang Amadeus Mozart: Andante " Elvira Madigan ",
     do Concerto para piano No. 21


 
Há ainda a consistência do veneno, essa parte expectante
que para lá do sonho infunde pavor e mistério
a quem procura a alma. Talvez esse frasco negro
nos grite a imensa necessidade de vida que ainda aguardamos,
talvez mesmo o rosto do reflexo nessa superfície baça
nos faça lembrar o que ficou para trás, com que gatilho
superamos a realidade, as cores mortíferas da vertigem.
Redonda, a trama invectiva-nos a um gesto supremo e sagrado,
é tanto o silêncio que a oração mental das coisas
se pode ouvir e ainda hesitamos, como se não fosse
possível intuir em sequências fragmentárias
esse prazer unívoco da proximidade de algo avassalador
e agreste. O gesto abarca a precariedade de um continente,
perpetuamente suspende a tensão para que a tensão
ilumine o que é fulminante, pó branco que se separa
das paredes compactamente, como se
já não haja milagres à superfície da terra.
É uma pequena praia essa cinza finíssima, um dedo toca-a,
as recordações chegam porque algo ainda nos sustém
à amplitude do mundo, um dia, alguma vez,
um instante qualquer. A mão carrega sobre a boca
esse quinhão de aprendizagem e ignorância, mais leve que o ar
impulsiona os lábios, de novo o forte odor recobre tudo,
a língua estremece e tudo se consuma, mesmo essa árvore
que nos uniu ao passado e nos devolve ao amor, o sinal obscuro
em que a claridade alastra.
Não mais que três segundos e há-de ver-se a Deus e ao anjo.
Pela primeira vez a luz é escuridão.
O grito audível em séculos de distância
por um instante apenas: frei aber cinsam, o sonho
de qualquer homem em qualquer lugar do universo,
incontornável, tangível.

in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ernesto Rodrigues


Ernesto Rodrigues, poeta convidado


TRÊS POEMAS



Soneto


Faz, meu querido autor, o ponto da situação:
se as pessoas inda crêem, isso é lá com elas.
Vão salvar o país, fazer chichi nas estrelas,
ricas como rimas em elas e em ão.


Já viste o que o mundo te reserva, se não
dizes bem do bem, dizes mal do mal; se velas,
dentro, as tão irreais flores do sentido, pelas
quais lutaste anos. Os velhos sonhos são


pra concluir sem tardança; lê, depois, versos,
almoça com jazz em Paris, Veneza, sobre
loira estrangeira, os olhos no Danúbio imersos.


Ah, não te deixes iludir por mais um nobre
gesto: reduz a vontade e trabalha um terço.
Não ames, descrê, goza, sorri – cai de chofre. 


Budapeste, 30-X-1982






[Para manter a palavra, basta]


Para manter a palavra, basta
que um leitor a oiça. E a curiosidade
no homem faz com que haja sempre
um. Assim, em Pour Un Malherbe,
o velho Francis depõe. Mais: contra
os que nos livros homens buscam, responde
que homens ele vê todos os dias. Oh, mas praticar 
a linguagem, essa é a nossa maneira
de à República servir. E não só esta: também
o próprio homem. E a nossa pátria é o mundo
mudo.


Para que o texto possa, de alguma forma, diz,
pretender dar conta do mundo exterior, preciso é
que ele toque primeiro a realidade no seu próprio
mundo, que o mundo dos textos é, o qual conhece
outras leis. Este não sei quê, por exemplo,
que vemos no rosto das mulheres belas,
que ver se pode e exprimir não. E cito.
Beauté, mon beau souci... (Idem: traduzo
as necessárias cesuras.) Para a manter,
esse antigo leitor me basta. Dele curioso,


pla hierarquia desço, em busca da pátria
muda. E cheira a linguagem, agradavelmente.


Budapeste, 12-II-1983







Árvore


Nunca, com tanta violência, sentira antes a força estática
da cor já pintando esta árvore do parque.
Todo emudeci – lentamente franzido na alma
como ribeiro onde caiu a folha suspirada.
Logo, abrindo mais os sentidos, vim dar com ela de leve
sorrindo na travessura que é por dentro mexer toda.
Nas margens, o Sol oferecia seu ouro costumado;
queria, e eu com ele, chegar ao centro das sombras íntimas
onde pássaros navegavam. Ai de nós, tão fora
do concerto interior
que no espanto diluímos e em seguida na procura.
Não entrava pela janela donde a observava. Sentado aquém
(sentemo-nos quando a Beleza dá em cansar-nos), eu tinha
no rosto a própria árvore que na janela quadrava, e tão inteira,
que as rugas eram troncos, profundos, nodosos, levando-me
plos idos caminhos e plos quais não irei jamais, que assim
se defende a vida nos seus enigmas, sempre adiando
o círculo mais fresco que as aves sem razão adejam.
Nunca, mal a vi senhora de si conversando
por toda a ramada, senti essa vontade de partir
que dizem acontecer aos santos sedentos de outra luz.
Asas de anjo corriam-na de ponta a ponta; por vezes,
baloiçava-se na copa sem tirar os pés da terra.
Da minha inocência dependiam seus movimentos.
Via-lhe, se me frisava, os nervos, distintamente.
E quando, tendo apercebido entre nós, no peitoril da janela,
uma pomba, eu ia para a beijar, como
se deve a quem se nos oferece tão matinalmente, a árvore
recuou para o seu lugar no parque onde a vira quando
abri a janela para a violência que os olhos merecem.
Atrás dela foi a pomba, e o ribeiro só de a sentir
franzia-se nas margens sonhando-a parada sombra.
O Sol endireitou-se; mas daqui observo ainda
que a ronda, sôfrego, sem a castigar onde queria.



Budapeste, 22-IX-1985



Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas: © Ernesto Rodigues





ERNESTO RODRIGUES (Torre de Dona Chama, 1956), poeta, ficcionista, crítico, ensaísta e tradutor de húngaro, é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e presidente de direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
Principais obras: Várias Bulhas e Algumas Vítimas, novela, 1980; A Flor e a Morte, contos e novelas, 1983; Sobre o Danúbio, poesia, 1985; A Serpente de Bronze, romance, 1989; Torre de Dona Chama, romance, 1994; Histórias para Acordar, contos para a infância, 1996; Sobre o Danúbio / A Duna Partján, poesia e ficção, 1996; Pátria Breve, miscelânea, 2001; Antologia da Poesia Húngara, 2002; O Romance do Gramático, romance, 2011.  
Na crítica e ensaio, seleccionamos: Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal, 1998; Cultura Literária Oitocentista, 1999; Verso e Prosa de Novecentos, 2000; Visão dos Tempos. Os Óculos na Cultura Portuguesa, 2000; Crónica Jornalística. Século XIX, 2004; «O Século» de Lopes de Mendonça. O Primeiro Jornal Socialista, 2008; A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821), 2008; 5 de Outubro – Uma Reconstituição, 2010; Tomé Pinheiro da Veiga, «Fastigínia», estudo, edição, variantes e notas, 2011. 
Responsável pelos 3 volumes de Actualização (Literatura Portuguesa e Estilística Literária) do Dicionário de Literatura dirigido por Jacinto do Prado Coelho (2002-2003), editou, entre outros, Padre António Vieira, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Ramalho Ortigão, Trindade Coelho, José Marmelo
e Silva, António José Saraiva. 

Solidariedade