quarta-feira, 20 de junho de 2012

Tiago Nené


Tiago Nené, poeta convidado


3 POEMAS


COMUNICAÇÃO

pões uma pausa à volta de cada palavra.
em cada pausa circular colocas uma porta.
convidas outras palavras para irem ao encontro
dessa pausa, dessa porta.
cada palavra tem, então, dentro de si
outras palavras.
ninguém sabe. mais tarde, pões uma distância
à volta de cada palavra.
algures a meio, colocas uma janela. desafias
outras palavras para taparem essa janela
com os seus significados mais primitivos, de modo
a se não permitir a interrupção dessa distância.
ao longe ninguém dará por isso.
erradicas do teu vocabulário a palavra
«nomeadamente».
sabes que os poemas secundam a vida
e por vezes vão para além dela.
mais tarde, comunicas com o teu amor
mais distante.
envias uma carta. telefonas. mandas mail.
és experiente e superior porque te soubeste
condicionar de múltiplas maneiras.
sabes que o amor é a menor distância possível
entre dois seres vivos.


in 100 poemas para Albano Martins, 2010







O TERRAMOTO

[a uma pessoa intemporal]

querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,
pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,
pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,
pessoas com instrumentos na terra fértil,
pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.
os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam
viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,
os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,
os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,
os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,
os que não tinham relógio escaparam ao tempo.
meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,
sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,
espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja
o efeito directo de um presente que ainda treme muito.


in Polishop, 2010







O BOM POETA

a António Ramos Rosa

o poeta inventa um leitor abstracto,
a sua extensão lível.
o poeta não consegue ler os seus poemas,
o bom poeta apenas escreve os seus poemas;
escrever poemas sem ler os poemas que se escreve
é perfeitamente possível
se o poeta estiver demasiado perto de cada palavra.
o grande poeta dorme dentro de cada palavra,
e eu não me conheço quando escrevo isto.
dentro de que palavra estarei?
que sílaba servirá de travesseiro aos meus sonhos?
creio que as primeiras palavras que escrevi
diziam que o poeta inventa um leitor abstracto,
não me lembro da versificação certa.
não importa.
apenas exponho permissões em cada sentimento,
e é isto o poema:
um grande sentimento amplificando
a inconfundível prosa de toda a vida.


in Relevo Móbil num Coração de Tempo, 2012





Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista


Poemas: Tiago Nené



Tiago Nené é um poeta da nova geração nascido em Tavira a 29 de Março de 1982. Publicou “Versos Nus” em 2007, “Polishop” em 2010, e “Relevo Móbil Num Coração de Tempo” em 2012. Está representado em variadas revistas, jornais e antologias literárias entre as quais se incluem “Os Dias do Amor” (ed: Ministério dos Livros, 2009), “Cem Poemas para Albano Martins” (ed: Labirinto 2012) e “Algarve – 12 Poetas a Sul do Século XXI” (ed: Livros Capital, 2012). Tem também traduzido livros de poesia em língua espanhola na colecção Palavra Ibérica (ed: Ayuntamiento de Punta Umbria) e nas chancelas da Linguagem de Cálculo, associação cultural que dirige com o escritor Fernando  Esteves Pinto. Licenciado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, é advogado em Faro, cidade onde reside. Alguma da sua poesia pode ser lida no blogue pessoal: tiagonene.blogs.sapo.pt

terça-feira, 19 de junho de 2012

Benny Andersen


5 poemas de Benny Andersen


DIETA

As gambas secam a córnea
a gordura dá seborreia
os crepes atulham em demasia o estômago
o toucinho não é bom para o coração
o peixe não é bom para o carniceiro
o frango não é bom para os franganotes
os croquetes não são bons para nada
evitem a sopa de mandioca durante o casamento
o doce é pecado
o ácido é perigoso
o sal encurta a vida
o amargo prolonga inutilmente
a marmelada achata as orelhas
o guisado contrai a bexiga natatória
os ovos fazem com que os braços fiquem torcidos
o queijo influi no sentido do olfacto
o rábano branco influi no paladar
as massas influem a audição
os rábanos limitam o horizonte
as ervilhas entravam o crescimento
a couve-flor impede que se veja a paisagem
o pequeno-almoço tira o apetite
o jantar agudiza-o
os alimentos não são bons para o estômago
a vida é malsã
nham
nham
nham

Det indre bowlerhat, 1964




VOYEUR

Ver –
sabe-se verdadeiramente o que seja
ver?
Árvores, pássaros, rostos nas ruas, nos comboios –
é isso ver?
Tudo adopta uma pose.
Não há mais do que fotografar.
Mas ver
é surpreender o motivo
quando este não se sente observado.

Estou de joelhos em frente à fechadura
e vejo:
a mulher do terceiro andar detém-se para tomar alento –
quem a não ser eu
a viu a reconhecer as suas gorduras?
O carteiro coça o rabo diante da minha porta.
Um jovem nervoso não pára de limpar as mãos
às mangas – em vão.
O ocioso, de olhar fixo, leva a mão ao coração,
o mendigo sorri jactante a descer a escada,
o erguido derruba-se
e o bonifrates apruma-se,
eu vejo, vejo
pela primeira vez,
de joelhos diante do meu pequeno altar,
o buraco da minha fechadura por onde passa
o frio vento da verdade –
enfim respiro,
por fim vejo realmente
agora que ninguém me observa.

Kamera med køkkenedgang, 1965



M

Suspenso um crucifixo sobre a minha cama
para mim o amor é sagrado
olho por cima do ombro do meu amante
e tropeço com o martirizado olhar do crucificado
mas o meu amante dá-se conta
sente ciúmes
não compreende
detém-se
e tenho que pendurar o Filho do Homem na cozinha
no prego dos panos da cozinha
mas deixo a porta entreaberta
e quando nos pomos de certa maneira posso ver
o meu Salvador através da frincha
que acena com a cabeça: e carrego também com ele.
E assim que dói de verdade
tiro dele o máximo proveito
quando realmente dói
sinto que o Coroado de Espinhos
vigia para que tudo se faça correctamente
eu sofro
os espinhos afundam-se na minha carne
a cortina rasga-se de cima abaixo
carrego a minha parte do sofrimento do mundo
tudo está consumado

Portœtgalleri, 1966



ESTA INCERTEZA

Quando finalmente compreendi que certamente não era de mim
de quem tinhas dito aquilo e que certamente não era aquilo
o que havias dito e que certamente não eras tu o que
o havia dito fiquei nervoso de verdade porque
que é o que te podia ocorrer não dizer
na próxima vez em que talvez não vás dizer nada sobre mim.

Det sidste øh, 1969




UM BURACO NA TERRA

Apareceu um buraco na terra. Vazio.
Sem terra à volta
não existiria em absoluto.
O buraco depende profundamente da terra,
um vazio que mostra que algo existe
algo que mostra que aquele vazio existe.
Se não houvesse terra
tão pouco haveria vazio.
De um buraco vieste
à terra voltarás.
Ou vice-versa.
Dou uma palmaditas carinhosas no buraco
e sigo caminhando na terra.

Personlige papirer, 1974


Versão minha - © Amadeu Baptista



Benny Andersen. Nasceu em Vangede, Copenhagen, em 1929. Estreou-se em 1965. Além de poesia, escreveu um romance, guiões para cinema, literatura infanto-juvenil e comédias para a televisão. Excelente pianista, compõe a música e as letras das suas canções. A sua poesia, de tom humorístico, é já parte integrante da cultura dinamarquesa.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O Sonho do Elefante Tomé


De 24 de Abril a 15 de Julho, a Ludoteca “O Moinho”, situada no Bairro do Casal das Figueiras, em Setúbal, apresentará em teatro, a adaptação da história de
Amadeu Baptista: “O Sonho do Elefante Tomé “. 

A autoria da adaptação teatral é de Dalila Moura Baião

Aqui fica uma selecção de fotografias de algumas das representações levadas a cabo até agora:






Aqui ficam os horários e outras informações relevantes:

Horários :
De 2ª a quinta-feira, na Ludoteca "O Moinho" Rua dos Ventos - Bairro Casal das Figueiras - Setúbal (tel: 265 573408)

Manhã: 1º turno - das 10h às 11h30
2º turno - das 11h30 às 13h

Tarde: 1º turno - das 15h às 16h30
2º turno das 16h30 às 18h

(efectuam-se marcações prévias para grupos de alunos de escolas de 1º Ciclo, Jardins de Infância e outras Instituições públicas ou particulares, que trabalhem com a infância)


Personagens da História:

- Director do Circo Universal: André Cortina (licenciatura em Teatro - Artes Performativas pela E.S.T.A.L.)

- Elefante Tomé: Patrícia Santos (animadora sócio-profissional)

Trapezista: Sónia Bordalo (Técnica de Acção Educativa)

Treinador de Elefantes :Sónia Bordalo (desdobra a personagem)

Palhaço José: Dalila Moura Baião (Coordenadora Pedagógica - Professora - Formação em Teatro e Expressão Dramática)

Encenação a cargo de Dalila M. Baião e André Cortina


O Bosque Cintilante # 49

Sergei Rachmaninov: Prelúdio em dó sustenido menor

Para além da janela a neve abria
outro caminho além desses caminhos
que se ocultam no vento quando o tempo
já não é mais o tempo que vivemos
mas a marca do destino que trazemos
de uma outra dimensão, outro lugar
de onde chegam a estrela e o enigma
que há em nós.

Parti, então, rumo à tempestade.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

domingo, 17 de junho de 2012

Iannos Ritsos


Um poema de Iannos Ritsos



FLORESCIMENTO ANTINATURAL


    Queria gritar – já não aguentava. Nada havia para escutar-lhe,
ninguém queria escutar. Ele mesmo temia a sua própria voz,
afogava-se no seu interior. O seu silêncio afogava-o. Pedaços do
seu corpo saltavam no ar. Ele recolhia-os com muito cuidado, silenciosamente,
voltava a pô-los no lugar, fechando os buracos. E se encontrava casualmente
uma papoila, uma açucena amarela, recolhia-as também, colocava-as
no seu corpo, como parte de si – assim golpeado, estranhamente florescido.


(Versão minha - © Amadeu Baptista)



Iannos Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi internado em vários campos de reabilitação. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis e Odysseus Elytis, é considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Faleceu a 11 de Novembro de 1990.