Fotos: © de Amadeu Baptista
sábado, 9 de junho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Gil T. Sousa
Gil T. Sousa, poeta convidado
último degrau
assim te levaria
pelo último degrau da lua
e no definitivo clarão
do vinho que me queimasse
deixaria ir
quase tudo o que morria
de poemas (2001)
os que se perderam
que rebentem estradas
sob os pés
dos que se perderam
que nos seus olhos gelados
cresçam fogueiras
*
que o silêncio se curve
como um animal sem voz
de falso lugar (2004)
kopenhagen script
-1-
as árvores furiosamente nuas
largam os seus pássaros negros
num outro mês qualquer
e as estradas separam as folhas
rolam as pedras cansadas de sol
para que o sul seja um lugar
onde a água espera
e o destino se esconde
em forma de ilha
que mão amputar
se assim nos pedem o frio?
-2-
são tão largas as horas
que se consegue ver
a solidão dum comboio vermelho
a raspar a noite
como homens à procura de uma porta
definhando gloriosamente
nas suas estações de
desespero
pelas gárgulas das catedrais
escoam-se noites antigas
que homens pacientemente sábios
recolhem letra a letra
a neve, tão mansa,
guarda-lhes a sombra e os passos
que numa janela alta e distante
um outro homem há-de ler
-4-
às vezes os navios doem
como ópio num pulmão derrotado
ou como quando tu ficas
no impossível meridiano da ausência
e eu te aceno de um silêncio
que é quase a loucura dos pássaros
Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista
Poemas: © de Gil T. Sousa
Gil T. Sousa (1957) nasceu e reside em Vila Nova de Gaia e é Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto.
Escreveu: poemas (2001) e falso lugar (2004) e água-forte (2007) edições privadas do autor.
Nos anos 90 participou em leituras públicas de poesia, 4.ªs-feiras do pinguim café no Porto e na Casa Fernando Pessoa em Lisboa, no âmbito dos encontros promovidos pelo canal de poesia de irc
de que foi um dos fundadores.
É autor dos blogues: poesia, falso lugar e exercícios de esquecimento, onde escreve e divulga poesia regularmente desde 2004.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Lars Forssell
POEMAS
GOSTA OSWALD
Alguém, um poeta, morre jovem.
É como quando se vai deste mundo um caçador de tesouros
– levando o mapa secreto na cabeça.
Mas que profícuo pensamento imaginar que quando um dia
o mar deixar este mundo o fundo estará coberto de tesouros!
Telegram, 1957
A SALAMANDRA
Eu não elejo as chamas
Lançam-me sobre elas
Na intensamente amarela sinto-me inquieta
Na recta não sinto nada
A fumegante é como eu mesma
A transparente evito-a
Se pudesse eleger eu
Mítico réptil
Gostaria de viver tranquila a minha desassossegada vida
Em ti
A resplandecente.
En kärleksdikt, 1960
DURMO EM TI
Durmo em ti
Não o podes saber
Próximo do nascimento durmo
e perto do sedutor
Dás voltas na cama
Como uma baleia grávida
Como um plâncton de grandes olhos
Adormeço em ti
Amo-te
Não o saberás nunca
Próximo da morte durmo
e faço estalar as minhas carapaças.
En kärleksdikt, 1960
BALADA 1952
I
O teu sexo é vermelho escuro
E húmido como carne de fruta
E o negro bosque que o cobre
Ondeia quando sopro
Ali no mais profundo há uma maçã de inverno
Viscosa como após a chuva
E sobre o teu rosto deslizam
As sombras das asas de sete pássaros
Uma perna sobre as minhas costas
Um mão nos meus testículos
E a tua boca abre-se como uma amêijoa
E sinto-me seguro
II
E tu dormes
Com os olhos semi-fechados e os reclames luminosos
Pintam diabos nas paredes
É em Paris ou em Roma
Ou Salzburgo ou
O mundo está demasiadamente connosco
Nós estamos junto
Amanhã vamos a
O teu pé sobre a minha boca
O teu alento sobre o meu pé
III
E amanhã acordamos
Um assobio da rua
No ouvido protesta a bigorna
E tu lavas-te atrás da cortina
E quando saímos vencemos
En kärleksdikt, 1960
O LAMENTO DOS AMANTES
O ácer
espera a primavera
Sabe que voltará
e regará as suas raízes.
Mas o fogo do nosso amor
será encoberto com fuligem
com os anos.
Amada.
Contradiz-me.
Corpos
entrelaçando-se mutuamente.
Nós somos um.
Mas sinto uma ameaça.
É o destino dos amantes,
boca contra boca,
pé contra pé,
ser lentamente empurrados para a morte.
Amada.
Contradiz-me.
Fragmento de Variações sobre Yeats, Ända, 1968
A ORELHA DE VAN GOGH
Van Gogh corta a orelha
Envolve-a num pano
Que lentamente se tinge de vermelho
E envia-o
A ti
Que fazes tu com essa prova
De amor, loucura, dor?
Atira-la com repugnância ao fogo da lareira
Ou ao lixo?
Ou esconde-la furtivamente, talvez com algum orgulho,
Num cofre?
Uma vez sussurras-te nela alguma coisa
Que tu esqueceste
Mas ele recordava
Tenho a vaga ideia de
Que essa orelha continua a existir
Atenta
Escutando eternamente
A luz do cruel campo de cereais
E o rumos do sol implacável
Ända, 1968
Se o amor não correspondido
nos olhos dela
fosse cobre
e a felicidade inexistente
fosse mármore ou granito
Então eu sei de um escultor
que a golpes de martelo e cinzel
poderia converter
o amor não correspondido
e a felicidade inexistente
em amor e felicidade
Mas não é assim
Os olhos dela não são cobre nem granito
mas dor
Então, de que serve o trabalho do escultor?
Det möjliga, 1974
Versão minha - © Amadeu Baptista
Lars Forssell. N. a 14 de Janeiro de 1928, em Estocolmo, onde faleceu, a 26 de Julho de 2007. Estudou na Universidade de Upsala, onde se licenciou em Filosofia e Letras. Estreou-se em 1949, sendo uma figura indiscutível da ‘geração dos anos 50’. Além de poeta, foi um dos grandes dramaturgos suecos do século passado. Também se destacou como ensaísta, tradutor, letrista e jornalista. Em 1971 ingressou na Academia Sueca. Recebeu inúmeros prémios, entre os quais se destacam o Carl Emil Englund e o Bellman.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
O Bosque Cintilante # 45
Joseph Haydn: Rondo all'Ungarese, do Concertto para piano em ré maior
Magia, onde o calor cresce para um rebentamento
no interior do coração e a noite
volatiliza a expressão do tempo
em que já nem sequer a morte
pode ter sentido, vem
com essa treva de claridade e fogo visitar-nos
nesta faixa de carne e erva
onde a alma se demora a inventar-nos
para que a evanescência estabeleça
um traço de união com o que reluz
nesta ausência total de brisa e luz.
Que sob a noite o rosto se pareça
com a dimensão das coisas vislumbradas
na ansiosa essência que Deus nos proclama.
in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista
terça-feira, 5 de junho de 2012
O Bosque Cintilante # 44
Wolfgang Amadeus Mozart: Adagio do Concerto para clarinete
Se anoitecesse agora, exactamente a meio desta manhã suave,
não teria a mínima importância, a luz
já me tocara para sempre sob a forma
de uma cintilação de fogo, um brilho incontornável
que entre o coração e as mãos subitamente floresce
para que o enigma corresponda a um trânsito subtil,
uma forma aérea de exaltação e êxtase
que como milagre ocorre sempre que entendo
que desobedecendo obedeço à limpidez das coisas
e vejo no silêncio a luz da escuridão.
Por isso, compondo esta harmonia em que os contrários
se aliam para que além da melodia outro mistério nasça,
apenas sei que sei que o sortilégio alastra
e me confronta com a treva em qualquer lugar e tempo
para que ainda assim a luz na alma permaneça
e a noite da manhã nos transfigure.
in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista
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