quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Luz Passional # 3


















Fotos: © de Amadeu Baptista

Rosa Alice Branco


Rosa Alice Branco
Concerto ao Vivo
& Etc, 2012



No próximo sábado, dia 2 de Junho, às 18.30, valter hugo mãe apresentará o livro
Concerto ao Vivo, de Rosa Alice Branco,
na Fnac de Santa Catarina, no Porto.
A leitura de poemas será acompanhada pelo músico João Germano.

Guilherme Centazzi

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Miguel-Manso


Foto: © de FIlipe Bonito


Miguel-Manso, poeta convidado



3 POEMAS DO LIVRO
ENSINAR O CAMINHO AO DIABO




SÃO MARCOS PELA TARDINHA 


os arredores com o vento 
a meter-se entre os lotes, a maltratar 
marquises e arbustos

as pessoas com quem falámos – ainda 
o Sol mandava e escorria
por paredes de prédio, pelo toldo do café –
ficaram ali até a bola de fogo desaparecer 
de todo atrás da serra; o Palácio 

da Pena recortou a extinção do incêndio 
e ao que depois deflagrou 
chamámos noite e trazia glaciais punhaladas
que as camisolas de Agosto não 
puderam temperar

vento, alturas, um certo silêncio
aziago, o televisor desligado para futebóis
ou para as galas com que o centro e o poder 
enganam, entretendo, as cercanias

encurtámos nossos versos, não é lugar para 
canções e a poesia – permita-me o retoque, Natália – é 
para nos comermos

(ó suburbanos da dívida) 

e comemos

(in Ensinar o Caminho ao Diabo, 2012)





PIAZZA SAN MARCO – ACQUA ALTA


às Musas não interessam 
drenagens, deixam alagar livremente 
com o que sobrevém: a água do instante 
subjectivo

quando o poeta era uma fera luminosa
e Veneza, sobre a laguna, a porta para o Levante
com seu tráfego de peregrinos imateriais – que também traziam 
as laranjas douradas, a seda, a musselina
porcelanas, aço, pimenta
incenso e alívios

a cidade detinha um colégio de sábios
que sabia, em dialecto próprio, ser a magia 
este palácio mergulhado nos silêncios
mais submersos

e que apenas a ciência da leitura paulatina
poderá ser o escafandro glotal e sinal que soltará
da grosseria eloquente 

o espanto oculto do poema


(in Ensinar o Caminho ao Diabo, 2012)




CONTAR OS CORVOS EM VENICE BEACH


não era só a tristeza de estar só, era 
há tanto tempo andar perdida, escangalhada 
no impenetrável regalório de Los Angeles

hóspede amontoada na pior camarata 
disse-me que o desespero se arraigou, manchava
pareceu-lhe, o futuro com nebulosas e quase esfumava
da memória o luso cravo, a sardinha, o superior 
areal da Caparica

nesse outro Sol, tão luzente que se apagou, ia 
de mochila pouco a pouco, odiando as genéricas feições
somente na biblioteca se sentava, provendo 
rabiscando um email a ninguém

e aqueles corvos por todo o lado  
agoirentos, mal-entendidos na arte de agradar
esgrimiam ultrajes nocivos, injúrias funestas

hoje, a salvo, num banquinho sujo de jardim 
alfacinha que atravessa o Inverno, recompõe para mim 
a insípida descrição dessa aventura, pondo a tónica nos corvos 
da Windward Ave, dos quais garante estar 

em definitivo liberta, embora eu pressinta (mas não 
comente) a causa da contristada veste, a correspondente 
tingidura dos cabelos

até o olhar tem agora
um quê de padecimento corvídeo, como quem forjou 
uma benigna aflição para a vida


(in Ensinar o Caminho ao Diabo, 2012)



Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas© de Miguel-Manso
Miguel-Manso (1979) nasceu em Santarém e publicou cinco livros de poemas desde 2008: CONTRA A MANHÃ BURRA (2008) 1ª edição do autor, 2ª e 3ª edição Mariposa Azual; QUANDO ESCREVE DESCALÇA-SE (2008) 1ª, 2ª e 3ª edição Trama Livraria; SANTO SUBITO (2010) 1ª e 2ª edição do autor; ENSINAR O CAMINHO AO DIABO (2012), 1ª edição do autor; UM LUGAR A MENOS (2012) 1ª edição do autor. Colaborou em teatro com a companhia Cão Solteiro. Tem participado em residências artísticas e de criação literária. Participa em leituras públicas de poesia, onde se destacam as Quintas de Leitura no Teatro do Campo Alegre, Porto.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 43

Johann Strauss: Schatz Walser

Não ser nitidamente de nenhum lugar
que não desse precário poder que há na música
e em suaves contornos corresponde
ao que de mais efémero se reparte
em puro encantamento e pura luz.
A perfeição é esta melodia
onde se ocultam brilhos de fogueiras
em noites extensíssimas e palavras
que se partilham pela transparência
de um sortilégio ausente.
Inerme é o mistério que nos cerca
e prodigiosamente entrega um nome
quando sob os segredos se vislumbra
uma forma irreal de autonomia
– o primitivo Deus, diáfano e esplêndido.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista


segunda-feira, 28 de maio de 2012

FITEI



A abertura oficial da 35 ª edição do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica acontece a 28 de Maio, Segunda-feira, às 21h30, no Mosteiro São Bento da Vitória, no Porto, com a apresentação da mais recente criação da companhia de teatro itinerante Footsbarn, “Indian Tempest (Tempestade Indiana)”, a partir do clássico de Shakespeare. O espectáculo, encomendado por Guimarães 2012 à Footsbarn Travelling Theatre, cuja estreia mundial aconteceu em Guimarães, repete no dia 29 de Maio, Terça-feira, às 19h00.


Em destaque na programação para os primeiros dias do Festival está a produção própria do FITEI para esta edição – “Sinfonia Erasmus” (29 de Maio, Terça, 17h00, Estação de São Bento), realizada com a comunidade de estudantes de Erasmus da cidade e dirigida por Claire Binyon, em estreia absoluta. O segundo dia do Festival traz-nos ainda a peça “Soy la Outra (La Diva)” (29 de Maio, Terça, 22h00, Teatro Helena Sá e Costa) na qual num só acto, a actriz Alba Sarraute, que é também palhaça, música e acrobata, narra os impulsos que levaram a sua personagem a aspirar uma vida de excentricidade.



Ciclo São PalcoO Teatrão organiza de 29 de Maio a 8 de Junho de 2012, em Coimbra, o Ciclo São Palco, uma mostra de teatro brasileiro de São Paulo. Esta mostra, que integra o FITEI e conta com o apoio da FUNARTE e da Embaixada do Brasil em Portugal e com a colaboração do TAGV e da Cena Lusófona, conta com a apresentação dos seguintes espectáculos: “Quem Não Sabe Mais Quem É, O Que É E Onde Está Precisa Se Mexer” da Companhia São Jorge de Variedades (29 de Maio, 21h30, OMT – Sala Grande), “Mire Veja” da Companhia do Feijão (31 de Maio, 21h30, OMT – Sala Grande), “Luis Antonio-Gabriela” da Companhia Mungunzá de Teatro (3 de Junho, 21h30, OMT – Sala Grande), “Hygiene” do Grupo XIX de Teatro (7 de Junho, 20h00, Largo da Sé Velha), “Ópera dos Vivos”, da Companhia do Latão (8 de Junho, 21h30, TAGV). 

Bilhetes e informações

Em 2012, o FITEI ocupa temporariamente o nº 64 da Rua Cândido dos Reis para instalar a loja do Festival.  O espaço, que está aberto de 21 de Maio a 3 de Junho (Domingo a Quarta – das 12h30 às 20h00 e Quinta, Sexta e Sábado – das 12h30 às 24h00), possibilita a compra de bilhetes e a aquisição em exclusivo da assinatura FITEI que por 30 € permite o acesso a 6 espectáculos à escolha.
A pensar nos mais novos, o FITEI apresenta o espectáculo “Farfalle” (30 de Maio, Quarta, 11h00 + 18h30, Balleteatro Auditório) do Teatro di Piazza o d'Occasione, uma peça dedicado a “meninos e meninas, pintores e bailarinos” sobre a vida das borboletas, onde os mais pequenos são convidados a participar. Depois do Porto, esta peça é apresentada em Faro, Viseu e Guarda. Em estreia absoluta, a peça “As Intermitências da Morte” por Ítaca Teatro / Quinta Parede sobe ao palco do TeCa nos dias 30 e 31 de Maio, às 21h30, uma co-produção entre Itália e Portugal a partir do livro de José Saramago (projecto, texto dramático e dramaturgia de José Caldas).

O Bosque Cintilante # 42

George Philip Telemann: Cantabile, de Tafelmusik

A correlação de forças entre os homens e o vento.
Este sopra da maneira mais simples sobre as cabeças,
levanta a espuma para a coroação de um anjo,
arranca pedaços das casas, o ânimo antiquíssimo
que governou o tempo e o espaço.

Inebriados, os anjos não esmorecem.
Usam leves utensílios de medir e contar,
usam o arco, a flecha e o diamante,
armadilham o céu com pêndulos e ogivas,
aguardam a edificação da maravilha.

As forças: uma curva imensa sob a pedra
que nasce do chão por geração espontânea,
um deus vingativo a percorrer a abóbada
onde nos encontramos perdidos,
tensão e risco onde o nascimento produz a luz e o calor.

Vamos, que o corpo aceda a esse lugar secreto,
que a verosimilhança cresça na vasta planície
e se edifique no mármore a intensidade da luz,
com o vento produza o suspiro e a chama,
cantável,
poderosamente cantável como a alma de um homem.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista