domingo, 20 de maio de 2012

Timor Lorosae - 10 Anos de Independência





UM POEMA DE XANANA GUSMÃO



ESPERANÇAS RASGADAS


Timor
Jazigo de uma alma
Que não pereceu
Nas névoas
De uma história que se perdeu
Na distância das lendas

Timor
Montanha de ossos
De uma valentia
Que bocas guerreiras
Abençoaram seus filhos
Para a perenidade dos dias

Timor
Onde a morte
Só se consagra no combate
Para deter a vida
E contar a história às crianças
Que nascem para recordar

Timor
Onde as flores
Também desabrocham
Para embelezar
As sepulturas desconhecidas
‘Em noites frias, infindáveis’.

Timor
Onde as pessoas
Nascem para morrer
Pela esperança
Em rasgos de dor
Em rasgos de carne
Em rasgos de sangue
Em rasgos de vida
Em Rasgos de alma
Em rasgos
Da própria liberdade
Que se alcança…
Com a morte!



'Esperanças Rasgadas', poema de Xanana Gusmão, declamado pelo próprio
no documentário de Grace Phan "A Hero's Journey" / "Where the Sun Rises"



sábado, 19 de maio de 2012

Maria João Cantinho


Maria João Cantinho, poeta convidada


3 POEMAS


URGÊNCIA 

Um homem chegou e deitou-se, 
era aquele que avançava contra o vento frio, 
que se abraçava às palavras, às árvores, às flores 
e no seu ventre amanhecia a luz de uma chaga, 
de onde saiu um pássaro. 
As nuvens voavam à altura dos seus olhos 
e era preciso escutar a voz, o canto das sílabas 
que sufocava no sangue, 
a urgência, a terra contra o sangue 
que corria nos veios azuis do seu corpo. 
Na claridade do seu olhar movia-se velozmente 
a paisagem, como em incertos dias de Verão, 
nos seus olhos iluminava-se o assombro, 
reflectiam-se as imagens e as sílabas da catástrofe, 
a obscura gramática que neles se desenhava 
em linhas de solidão, como sulcos de água, 
escoando-se lentamente. 
Era preciso lembrar a luz, recordar os vestígios, 
o canto que emanava das vísceras, interrompendo o mundo, 
era ali o início do círculo, o lugar onde tudo recomeçava, 
o começo da liberdade, exacto, 
recapitulando o destino do voo alucinado, na noite. 
E era preciso não temer os nomes, a escuridão, 
a alquimia que tudo funde, emergindo do sonho. 
Era preciso não temer as imagens que se sucediam, 
a memória interrompida, antigos nomes 
que se escreviam contra as raízes, para que cantasse 
a glória da infância renascida. 
Na claridade do seu olhar, era já a morte em sonhos, 
florescendo no horizonte do tempo 
e então disse-me: bebe da minha luz, 
bebe, a noite descia, puro anil, 
bebe do meu sangue, bebe-me, 
só aí terei sido porque te vi. Sou tu.

(in  Sílabas de Água, Porto, 2006)






DESPERTAR A VOZ, SEGUIR O TRAÇO

É o mais difícil, este gesto
de amanhecer a palavra, o poema,
deixando-nos a sós com a brancura da página.
O canto não chega, quando o chamamos
tal como a luz não vem,
 senão de mansinho,
quando os flocos da noite se desvanecem
em orvalho límpido e claro.
E então a canção irrompe, novamente,
mas apenas para aquele que se senta à beira do início,
do seu início, e escuta.
É o mais difícil, este gesto
de descer à sombra, ao sem-fundo da linguagem,
para ouvir o canto. 
Que rastro, que traço é este, que nos visita
e nos desperta a voz, em manso segredo?
Que vislumbre nos toma e nos arrasta,
agora que um outro alfabeto nos é revelado, 
exterior ao dito, anterior ao hálito da palavra,
como se as sombras dos nossos antepassados
nos percorressem, por entre os nossos sonhos,
música límpida e tão próxima,
tão imponderável na sua aura?
Cantam em nós essas vozes, silentes,
mas que esvoaçam no vento, invisíveis,
cantam em nós, mas as suas vozes são de rio
e tempo, de outros tempos, 
em que também fomos outros.

(in O Traço do Anjo, Porto, 2011)







Há um país antigo que se abriga em mim      
um país de que não me lembro
senão de mim menina,  uma língua de sol e água
que se cola à minha pele, obstinadamente
quer ser tempo em mim,  quer ser boca  
procura a abertura,  escorre entre as fendas 
da memória, como um pássaro de asas feridas.
Há um país antigo que se abriga em mim
E eu procuro a voz do vento que o cante, 
Nessa harpa fria que é memória minha.

(inédito)





Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas© de Maria João Cantinho



Maria João Cantinho nasceu em 1963. Publicou “A Garça” (ed.Diferença, Leiria, 2001), “O Anjo Melancólico” (ed.Angelus Novus, Coimbra, 2003), “Sílabas de Água” (Ver-o-Verso, Porto, 2006), “Caligrafia da Solidão” (ed. Escrituras, S. Paulo, 2006), “O Traço do Anjo” (edium editora, Porto, 2011), entre outras obras. Actualmente é professora no Secundário e no Iade, crítica e poeta.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 38

Wolfgang Amadeus Mozart: Andante, do Concerto para piano em lá maior K. 488

Há um arco para descer e um arco para subir,
as mãos tremem no sentido longínquo do mundo, o coração
esvoaça de encontro ao céu, os homens perscrutam-se
nesse ritmo fulgurante da respiração, gastam
a vida, matam
e vão morrer.

O brilho da lâmina poisa na única genialidade da terra,
um pouco antes da treva poisa e rebenta, aglutina
o mistério nos olhos dos que são abatidos,
há um crime que compensa,
o medo asfixia sobre essa lei precária,
vê a órbita das coisas reflectidas no tempo,
brancas e poderosas
na corda incandescente que religa os enigmas,
o corpo abandonado e sem misericórdia.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 37

Gioacchino Rossini: O Barbeiro de Sevilha, abertura

Estão abertas para os lugares as moradas dos deuses,
o afã divino esvoaça sobre as nossas cabeças,
as ondas rendem-se à serena agitação dos ventos,
são como árvores iluminadas dentro do mar que se inclina
para um rosto flutuante. Aqui o tempo regressa
à inúmera voltagem das coisas, um vidro rasga
o sobressalto das águas, uma gaivota resplandece
sobre a secreta qualidade dos enigmas, uma palavra grená
que evolui sobre os ombros. Amo-te hoje como nunca
amei ninguém, a brancura atravessa esta ilha de fogo, o mar
procura-nos, espera-nos, neste alimento faz-nos crescer
para o abismo, os ramos
de algo calcinado sob a subtil transparência do olhar.
Eis as mãos com que te encontro, a luz
com que te posso adivinhar e como recrudesce
a bátega para tua e nossa esperança, sobre o mundo
irrompe o silêncio onde uma chama
amplia as nossas sombras,
o infinito onde tudo se perde e tudo se transforma.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

terça-feira, 15 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 36

Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Canção sem Palavras

Algumas aves são mais aves que outras,
algumas aves possuem maior obstinação na obstinação do céu,
algumas aves influenciam mais vastamente o canto,
abrem espaço mais vezes à glorificação do ar
e da imponderabilidade.

De todas as aves amaria ser a cotovia,
essa que passa no seu voo de arabesco e medusa
e me encontra sempre na mais amarga solidão
e me desperta para o incontornável mistério
de me encontrar sempre e sempre.

Esta ave deve todo o seu fascínio ao poder da noite
e ao poder do mar,
várias vezes me vesti de terra para escutar o seu canto,
sou esta noite onde esta ave aguarda
a manhã para despertar o sol,
o sol e o milagre de uma canção
quando esta ave desperta o meu coração tangível,
o meu coração volúvel.

É espessa a tristeza de onde venho,
uma pedra estala no meu peito,
a água às vezes é lume nos meus olhos,
obsessivo mistério
que me conduz ao espaço
onde o deserto principia.

A norte e a sul o deserto prolifera
em golpes poderosos sob as mãos,
estas mãos vazias e irreais
na solidão do mundo
em que apenas aguardo
o canto matinal da cotovia,
o benefício de uma ave na solidão do mundo.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista