sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 35

Johann Strauss Sr.: Marcha Radetzky

Uma intensidade subtil percorre os cabelos
desta sombra que baila, o corrupio amplia
as formas fascinadas, desvela-se o enigma
nesse troar das coisas, o olhar que irrompe do fogo
para o fogo onde um cristal se levanta
e uma imagem devolve a luz ao arco que há no céu
e adensa os perfis que há na eternidade.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

António Ventura e Fernando Cabrita


Biblioteca Municipal de Olhão, apresentação do livro Quarenta Poemas,
de António Ventura e Fernando Cabrita
Dia 11 de Maio, 6ª. Feira, 18 horas

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Iannos Ritsos


ATÉ À MADRUGADA


    Chovia sobre a terra das altas urtigas.
Atrás delas gritavam grandes relógios e sinos.
Depois um tambor, logo outro – corria;
muitos tambores à meia-noite; o seu sangue
corria pelos pés e pelas mãos; ofegava;
tropeçou em algo e calou-se; a sua fúria cessou
tal como o seu medo, apenas uma tranquila pergunta:
qual seria o obstáculo – quase curiosidade.

    Assim, caída no chão, procurou com todos os seus membros,
levantou a cabeça cortada de uma estátua,
limpou-lhe os olhos, os relógios pararam,
também se calaram os sinos e os tambores.
       Amanhecia.
O que aguentava como uma criança nos braços
era o seu rosto. Pelos seus lábios corria
um floco de leite que tenuamente brilhava na madrugada.


Versão minha - © Amadeu Baptista



Iannos Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi internado em vários campos de reabilitação. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis e Odysseus Elytis, é considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Faleceu a 11 de Novembro de 1990.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

João Camilo


João Camilo, poeta convidado



TRÊS POEMAS INÉDITOS



Outono ainda

A palavra é nada. Mas às vezes é
tudo o que parece acontecer
quando os olhos e as mãos
as pernas e o coração
não encontram o caminho dos
sentimentos, o porto de
abrigo de onde recomeçar
a velha história. Interrupção.
A palavra, que é nada, serve
de muro onde apoiar-se,
de almofada onde encostar
brevemente a cabeça. E
respiramos.

Abanavam ao vento as folhas
e os frágeis ramos das árvores.
Os homens e as mulheres que
passavam na rua em frente
do café prosseguiam, sem darem
por nós, o seu destino incerto.
Não há mistérios, é verdade, mas
existe o amor e a esperança do
amor, o passado e a memória
dos erros e da alegria, o
futuro e a imaginação do
paraíso. O tempo é habitado,
aquilo a que chamamos a vida
parece ter sentido. Para quê
duvidar, atirar ao vidro da
janela uma pedra, interferir
com o correr natural dos rios
para o mar? Para quê, de facto.

Existe o amor e existe o ódio.
Existe a paz e existe o inferno.
Para aquele que aprendeu a viver
todos os estados de espírito
se equivalem. Aprende-se a ir
pelo caminho da vida como o
barco que navega entre as
rochas e sabe evitar os fundos
traiçoeiros. Aprende-se a olhar
com indiferença para aqueles que
na estrada que atravessamos
esconderam objectos e imprecações.
Afastar-se de quem com falsas
palavras de amor tenta exercer
sobre nós a doença do seu poder
é fácil e necessário. De todos
os percalços e inquietações
nos cura a tarde de sol sossegada.
E esquecemos os nossos inimigos
e a sua ingénua ilusão, o seu
impotente talento: inacessíveis à
perturbação e ao medo, contemplamos
as paisagens do mundo, o infinito.




Bela cidade

Cidade de oiro da infância e da adolescência,
pelas tuas ruas luminosas passeei-me, melancólico.
Pátria de quem, agora? Na direcção de que
futuro caminham os teus apressados transeuntes?
O amor, esse mito incómodo que nos acompanhou
durante os anos do exílio, bate molemente as asas,
céptico e desiludido. O futuro a quem pertence?
Jovens raparigas e rapazes ocuparam os lugares
que um dia foram nossos. Acreditámos na eternidade
de todos os sentimentos? Mas ouvimos, enfim,
o eco das palavras que escreviam e declamavam
os sábios: nada, ninguém, pertence, tudo é de
empréstimo; e a terra que engolirá os ossos
e a cinza dos sonhos, indiferente espera por
nós, o pó. O sol brilha ainda, nas montras das
livrarias erguem-se os rostos e as vozes imortais.
Algazarra imensa, ó ilusão. Poetas amantes das
palavras e perdidos da vida sentam-se ainda nas
esplanadas dos cafés a meditar. Silhuetas pesadas
que ninguém vê. Quem tem destino, a quem é
concedida, senão aos inexistentes deuses, a
duração? Bela cidade de pedras brancas
sob o céu azul, nas tuas ruas passeei a
minha melancolia. Não estava triste, não
sofri, aprendia apenas, de novo, e mais
claramente, que tudo é vaidade, mentira,
que tudo é ficção. Dias absurdos, insensatez.
De sonho em sonho, adiamos o entendimento
da morte, o pavor do vazio, o terror do nada.









oração à santa

a santa olha para o céu com muita serenidade
a alma da santa é uma pomba branca imaculada

os pés descalços da santa pisam o chão das abadias
as mãos da santa cruzam-se santamente muito brancas

eu queria amar a santa seduz-me a sua pureza intacta
queria sentir colado ao meu o seu corpo sobrenatural

sou um pobre pecador a santa ignora o meu desejo
dá aos moços da cavalariça o que me recusa a mim

eu sofro a olhar para a imagem da santa de perfil
para os seus olhos onde resplandece a santidade

vêm-me desejos insensatos de lhe morder a boca
de lhe dizer no ouvido baixinho obscenidades

ó santa tem piedade de mim e do meu infortúnio
estende a tua mão divina para a minha solidão

eu depois tiro-te do altar e levo-te às compras
passamos a tarde na cidade vamos ver as montras

podes escolher sapatos saias vestidos e camisas
um enxoval completo para as tuas santas núpcias

casas-te com o duque na catedral das abóbadas seculares
e o heróico descendente renascerá no teu ventre ámen jesus

eu ofereço-me para apadrinhar o triunfo de tão santo amor:
maldição eterna em nome de cristo nosso senhor

surgiu-me quando fitava o horizonte na sexta-feira à tarde
de entre as nuvens a estampa da tua beata integridade

antes de seres santa por que caminhos penaste ó renascida
ó ressuscitada dos pecados ancestrais da raça mais boçal

ajoelho-me às tuas pernas cheio de emocionada adoração
toco com os meus dedos impuros a seda da tua saia branca

se olhas para o céu com esse ar de palerma embevecida
deixas de ser a minha padroeira nas dificuldades da vida

tu que nunca conheceste ó santa amada a sombra do pecado
leva-me por veredas secretas até aos cimos consagrados

hei-de de longe deleitar-me a contemplar a tua virtude
serei o mais fiel devoto da tua impoluta juventude

pede a deus por mim intercede sempre em meu favor
e talvez no meu ferido coração volte a florescer o amor



Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas© de João Camilo

João Camilo. Licenciado em Filologia Românica pela Universidade Clássica de Lisboa e Doutorado em Letras pela Université de Haute Bretagne. Ensinou nas universidades de Oslo, Rennes, Aix-en-Provence, Grenoble. Entre 2000 e 2003 foi Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres. É, desde 1989, Professor Catedrático de literatura poetuguesa, brasileira e comparada e Director do Center for Portuguese Studies na Universidade da Calfórnia em Santa Bárbara, onde criou a revista Santa Barbara Portuguese Studies. Além de ensaios em revista ou em livro, publicou vários livros de poemas e de ficção. Alguns títulos: A Mala dos Max Brothers (Lisboa, 1989); Nunca Mais se Apagam as Imagens (Lisboa, 1996); Retrato Breve de J.B. (Porto, 1975, Lisboa, 2ª. edição, 2006); O Som Atinge o Cimo das Montanhas (Entroncamento, 2006); Um Animal de Pele Branca, Imaculada (Entroncamento, 2006)

terça-feira, 8 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 34

Antonin Dvorak: Dança Eslava Op. 46 No. 1 em dó maior

Ao perseguir o terror e a graça,
cheguei a este lugar onde nunca estive.
Não ter casa nem pátria é o delírio
de que me faço sobrevivente último.

Quis uma árvore para respirar,
a simples constelação de um amieiro.
Mas apenas a cinza de uma estrela respondeu
a este vão apelo, a esta vã esperança.

Quem me ilumina e comanda
há-de ser  longínquo como uma montanha.
Aceito o vazio e o silêncio à minha volta.
Nada há mais sagrado que a música que escrevo.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

Pena Ventosa


Está em distribuição o nº. 3 de Pena Ventosa - Cadernos de Poesia / Porto, Dezembro de 2011, dos quais sou, conjuntamente com António José Queirós e Henrique Monteiro, editor.
O design e as ilustrações são de Júlio Cunha e a execução gráfica de Manuel Carneiro.
Neste número colaboram os poetas nascidos nos anos 70 do século passado:

Ana de Sousa Baptista
António Carlos Cortez
Daniel Jones
Joaquim Cardoso Dias
José Mário Silva
José Rui Teixeira
Margarida Ferra
Margarida Vale de Gato
Pedro Sena-Lino
Rui Almeida
Tiago Patrício
 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 33

Wolfgang Amadeus Mozart: Rondo alla Turca

Há uma linha entre o arco e o violoncelo.
E essa linha é pura e transfigura as coisas
e sobe mais alto, para além do céu.
E risca o ar como uma quimera.

Uma mulher possessa emerge dessa treva.
A linha cruza a terra com a água.
E o fogo propaga-se a essa sombra negra
onde a mulher canta para além do mundo.

A intensidade da chama levanta-se no rosto,
vibra e amplia-se sobre o universo:
uma linha negra que no vento alastra.

O silêncio arde nesse vendaval.
Em silêncio arde na mulher que canta
e transfigura as coisas para além do mundo.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista