segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 33

Wolfgang Amadeus Mozart: Rondo alla Turca

Há uma linha entre o arco e o violoncelo.
E essa linha é pura e transfigura as coisas
e sobe mais alto, para além do céu.
E risca o ar como uma quimera.

Uma mulher possessa emerge dessa treva.
A linha cruza a terra com a água.
E o fogo propaga-se a essa sombra negra
onde a mulher canta para além do mundo.

A intensidade da chama levanta-se no rosto,
vibra e amplia-se sobre o universo:
uma linha negra que no vento alastra.

O silêncio arde nesse vendaval.
Em silêncio arde na mulher que canta
e transfigura as coisas para além do mundo.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista


domingo, 6 de maio de 2012

Soneto do 59º. aniversário

Um dia terás idade suficiente para começar
a ler contos de fadas outra vez.
C. S. Lewis


Chegado ao tempo de enlouquecer,
emocionado me entrego a esse plano.
Se perguntar por mim não sei que responder
a tomar sobre a idade mais um ano.

Certo é que amo a voz que ouço
a desvairar-me como só um feitiço pode.
Não peroro o facto de já não ser moço
e encorajo o tumulto que hoje me sacode.

Presságios me atravessam neste dia
em que me subo para me descair,
a saber que onde fui não vou voltar a ir.

Poeta ainda, com bravia alegria,
puxo com paixão o corpo para o lugar
em que abro os braços e começo a voar.

inédito - © Amadeu Baptista

Foto: © de Amadeu Baptista


sábado, 5 de maio de 2012

Amadeu Baptista - 30 anos de actividade literária


Foto: © de Inês Ramos


Faz hoje 30 anos que recebi, via Vasco Santos, ao tempo editor da Fenda,
os exemplares do meu primeiro livro
As Passagens Secretas
(Coimbra, Fenda Edições, 1982).

Ainda que anteriormente já tivesse publicado em jornais e revistas alguns poemas, considero a publicação deste livro como marco para o início da contagem da minha actividade literária.

Do livro referido deixo, a título de celebração, um poema.
Mais abaixo, um inventário destes 30 anos, de que muito me orgulho.




A respiração avança através de um gladíolo, as mãos
encrespam-se de silêncio, minerais dolorosos asfixiam a noite, riscam
como se fossem fósforos as sardas do teu rosto. Vens

com os dentes branquíssimos, o peito aberto aos ninhos, barco
que balouça na névoa, é tecto, casa, cama. Dar-te-ia

a cereja do bolo, a serenidade do mar, uma praia de colmo,

se os dias não fossem transitivos e os objectos íntimos, ó ave,
insuportáveis.



(in As Passagens Secretas, Coimbra, Fenda Edições, 1982)


Poema: © de Amadeu Baptista



Amadeu Baptista. Nasceu no Porto, a 6 de Maio de 1953


OBRAS DO AUTOR


Poesia


As Passagens Secretas. Com uma fotografia de Nelson Mendes. Coimbra, Fenda Edições, 1982
Green Man & French Horn. In Vários, A Jovem Poesia Portuguesa /2. Porto, Limiar, 1985.
Maçã. Prémio José Silvério de Andrade – Foz Côa Cultural, 1985. Porto, Limiar, 1986.
Kefiah. Viana do Castelo, Centro Cultural do Alto Minho, 1988.
O Sossego da Luz. Porto, Limiar, 1989.
Desenho de Luzes. Corunha, Amigos de Azertyuiop, 1997.
Arte do Regresso. Pelo primeiro capítulo deste livro, Cúmplices, recebeu o Prémio Pedro Mir, na categoria de Língua Portuguesa, promovido pela revista Plural, da Cidade do México, em 1993. Porto, Campo das Letras, 1999.
As Tentações. Santarém, Edição «O Mirante», 1999.
A Sombra Iluminada. In Vários, Douro: Um Percurso de Segredos… S/l, Instituto de Navegabilidade do Douro, Campo das Letras, 2000.
A Noite Ismaelita. Guimarães, Pedra Formosa, 2000.
A Construção de Nínive. Porto, Edições Mortas, 2001.
Paixão. Prémio Vítor Matos e Sá, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2001 e Prémio Teixeira de Pascoaes, 2004. Porto, Afrontamento, 2003.
Sal Negro. Com fotografias de Rosa Reis, sob o título Sal Branco. Almada, Íman Edições, 2003.
O Som do Vermelho – Tríptico Poético sobre Pintura de Rogério Ribeiro. Porto, Campo das Letras, 2003.
O Claro Interior. Prémio de Poesia e Ficção de Almada – 2000 / poesia. Com ilustrações de Rogério Ribeiro. Almada, Íman Edições, 2004.
Salmo. Com a reprodução de um desenho de Rogério Ribeiro. Porto, Edições Asa, 2004.
Negrume. Com desenhos de Ana Biscaia. Lisboa, & Etc, 2006.
Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007). Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2007.
O Bosque Cintilante. Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 2007. Vila Nova de Azeitão, edição das Juntas de Freguesia de S. Lourenço e S. Simão, 2007.
Balada da Neve e Outros Poemas. Maputo, edição da Escola Portuguesa de Moçambique, 2007.
O Bosque Cintilante. Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 2007. Maia, Cosmorama, 2008.
Outros Domínios (Clamor por Florbela Espanca). Prémio Literário Florbela Espanca, 2007. Vila Viçosa, edição da Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2008.
Sobre as Imagens. Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica, 2008. Maia, Cosmorama, 2008.
Poemas de Caravaggio. Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007 e Prémio Literário João Lúcio, 2008. Maia, Cosmorama, 2008
Açougue. Prémio Espiral Maior, 2008. Corunha, Espiral Maior, 2008.
Os Selos da Lituânia. Prémio Edmundo Bettencourt/Cidade do Funchal – 2008. Lisboa, & Etc, 2008.
Doze Cantos do Mundo. Prémio Oliva Guerra, 2008. Sintra, edição da Câmara Municipal de Sintra, 2009.
Escalpe. Lisboa, & Etc, 2009.
O Ano da Morte de José Saramago. Lisboa, & Etc. 2010.
Outros Domínios (Clamor por Florbela Espanca). Prémio Literário Florbela Espanca, 2007. Coimbra, Temas Originais, 2011.



Prosa

Estrela De Bizâncio. Prémio de Poesia e Ficção de Almada – 2005 / prosa. Torres Vedras, Edições Livrododia, 2010.



Infanto-juvenil

Os Cavalos a Correr. Com ilustrações de Estela Baptista Costa. Vila Nova de Gaia, Trinta por uma Linha, 2008.
O Sonho do Elefante Tomé. Com ilustrações de Isabel Rocha Leite. Porto, Trinta por uma Linha, 2009.
Zoo Musical. Com ilustrações de Ana Biscaia. Vila Nova de Gaia, Calendário de Letras, 2010.
O Poeta e o Burro. Com ilustrações de Raquel Pinheiro. Matsinhos, QuidNovi, 2010.
A História Maravilhosa dos Três Pastorinhos de Fátima. Com ilustrações de Raquel Pinheiro. Matosinhos, QuidNovi, 2011.


A publicar

Atlas das Circunstâncias. Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage, 2009.
Sistina. Prémio Literário António Cabral, 2011.



Organização de antologias

Quanta Terra!!! – Poesia e Prosa Brasileira Contemporânea. Almada, Casa da Cerca, 2001.
Álbum de Acenos – Antologia de Poesia e Fotografia. Almada, edição Imaginarte, 2001.
Poesia Digital – 7 poetas dos anos 80. Em colaboração com José Emílio-Nelson. Porto, Campo das Letras, 2002.
Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música. Viseu, edição do Conservatório Regional de Viseu, 2009.


Colaboração dispersa em jornais, revistas, livros colectivos e antologias nos seguintes países: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, E.U.A. Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Luxemburgo, México, Portugal, Roménia e Uruguai.

Alguns dos seus poemas foram traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês e romeno.

É membro da Associação Portuguesa de Escritores e do PEN Clube Português.


Fotos : © de Amadeu Baptista

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 32

Ludwig van Beethoven: Ode an die Freude, da Sinfonia No. 9

Não sei se isto é um hino e os anjos
precisam deste instrumento
para ampliar o silêncio. O que sei
é que chega de longe esta surpresa
de poder segmentar em força o coração
que em mim pulsa e eu não sei
de onde vem quando na música
pressinto um tema que só aos anjos pode pertencer
pela pujante candura dos acordes
e a humilde magnificência da alegria.

Tudo quanto ignoro é que está bem.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Alejandra Flores Bermúdez



DOIS POEMAS


RESSUREIÇÃO


A carne que
se enreda
de carne
as bestas
revolvem-se
no instante
eterno
a fome
somos imortais
como um louco
que venera
a verdade.


***



CENA NA MARGEM


As crianças perscrutam
sementes, conchas, moscardos
e o caminho do coelho

Perante a fadiga aparente
da imensa montanha
despertam as pedras
e o grão de areia
- preâmbulo da rocha –

O largo caminho
do diminuto ao gigantesco
abre-se perante elas, levantando três dedos.
Próximo dali, o vento
amarra os tectos
e toca as fragrâncias

As mulheres aguardam
também as borboletas
e alguém quer levar a erva
e o cerro
para os cuidar em casa

Todos se prendem
ao caminho de regresso
resolutos, inconclusos
como cada eternidade dos deuses
verdes e encarnados.




Versão minha - © Amadeu Baptista


Alejandra Flores Bermúdez, nasceu em Tegucigalpa, Honduras, em 1957. Estudou Antropologia na Universidade dos Andes, em Bogotá, Colômbia. Publicou: Destinoultrajado (poesia, 1992), Exilios Interiores (poesia, 1996), Cantos de Barro (contos para crianças, ilustrados por si mesma, 2000) Sobretodo (poemas, 2001), Rimas Y Rondas (poemas para crianças, 2005), Sol Petreo (poemas2007), Por la Vereda (narrativa, 2007), Cartas al Mago (poesia,2008), Viaje a la Guaira (poesia, 2009), En Busca de Polaris nn Norte Imaginario (poesia, 2010), Este Cultivo De Anemonas (poesia, 2011).

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Fernando de Castro Branco


Fernando de Castro Branco, poeta convidado

4 POEMAS


1 - A Caminho de Avoriaz

A caminho de Avoriaz, quase nos quarenta
em anos que não em velocidade,
sobes no terceiro pelotão, espécie
de maltrapilhos fragmentados
serra acima. A quinze minutos

de Alberto, e do jaune no maillot
onde todo o sol se esconde,
balanças o corpo gasto para um
e outro lado, sobre uma e outra
perna, como um barco à deriva
que faz que anda mas não anda.

- Pára, homem, pára, como é possível
que não me ouças, Lance. Manda foder
o pelotão e de caminho a bicicleta.

Olhos perdidos não sei se no pico da montanha
se em Deus, alheio aos gritos esparsos
que resistem como tu: Armstrong, Armstrong.
A boca espuma, que um homem não desce
do Olimpo para uma última escalada
por dá cá aquela palha. Ninguém
ressuscita assim da morte, Lance,
e nenhumas cinzas são boas para se renascer.

Ou a vitória talvez seja outra, invisível,
surda aos gritos de quem se desespera
pelo risco branco no topo da montanha
e a montanha a subir talvez não seja esta

que se inclina na rota de Morzine
e ameaça parar no céu. E seja outra,
que não subiste nos outros sete Tours
e sobes agora por ti dentro a descer


(in A Caminho de Avoriaz, Cosmorama edições, 2011)




2 - Narrador  

Punta Umbria, Abril de 2010

Um homem conta a estranha história
de um livro a haver. Traz o sorriso
de quem deixou os mortos em sossego
e os cães à solta nos matagais.
Teria arquitectado uma enorme fábrica
de reciclagem de peixes e passados,
a fazer fé nesse mar de palavras,
e nessas redes, onde guardou o que pode
em frente ao ponta de lança
do Bétis contra o seu Sevilha.

Quer aprisionar a noite e o vento,
para isso conta com um olhar azul
de narrador celeste que, segundo o suspeito
deste poema, que não é o do costume,
curava ou feria conforme o caso
e o crime. Poetas
sorriam como se o homem fosse
um velho soneto de rimas pobres.
Que não, o seu negócio era a prosa,
e veio ao mundo, estava certo, para
desembocar nesse malfadado livro.

Desdobrou um mapa, mundo aberto
ao sol do sul, escreveria
um romance só com a imaginação
do que ao corpo aconteceu. Ele
nunca mais saberá deste leitor, o mundo
é vasto e raramente concede uma
segunda oportunidade. Deixo aqui
o que resta do seu sonho, do seu livro
reduzido a pouco, a quase nada.


(in A Caminho de Avoriaz, Cosmorama edições, 2011)






3 - Desvios 

Os incêndios desta vez passam-me à tangente,
estou fora do lugar e isso me salva para já
de arqueologia mais funda.

Como sempre, neste dias tresmalhados,
o deserto desceu à cidade
e eu trago comigo areia, miragens,
para condizer com esta atmosfera.

Acuso o tempo de muita coisa: do peso
deste fardo a partir-me os rins, deste
apocalipse suave que me inunda os olhos
e ameaça nada deixar em pé.
Só o rio permanece como novo, intacto,
por transplante de vísceras, certamente. 

A água estendida ao longe, tocando o mar,
a mistura salina no lugar volátil. Incerto,
o meu coração agita-se ao eco
de há trinta anos. Mas estamos mortos:
eu, a cidade, o coração, tudo

o que resta é pouco mais que versos.
Boa merda, diga-se, placebo inútil,
mapa incerto. A melhor maneira
de deixar tudo como está. As gaivotas
ficaram, se não em terra, nos telhados,

descem com as pombas pela certa
às mãos das velhas, o mar
que se arranje como puder
e os barcos ficam para já sem asas.

Nós também voamos pouco, quase nada.
E se respiramos é só por hábito
ou por descargo de consciência.


(in A Caminho de Avoriaz, Cosmorama edições, 2011)





4 – Málaga – 1910                   
(Calle Marqués de Larios)

Esse velho hotel continua a chamar-se Nuevo
Hotel Victoria. Ó triste ironia da palavra
deixada à solta, insensatamente entregue
a si própria. Para além desta fenda
entre as palavras e as coisas, o Banco
Hispano-Americano já então deixava os seus créditos
por mãos alheias. O desgastado toldo da Ferreria

deixa marcas na qualidade do marketing
do ferro forjado, e essa numerosa multidão
que por esta calle caminha, onde continuará
agora a caminhar? Se na água deste rio
os olhos continuam a banhar-se duas vezes,
é tão somente porque esse voyeur entendeu
suspender a submissa ordem da morte.

Mas, se assim é, continuemos a olhar esta foto
de família estranha e distante, na ilusão
de que movendo o gesto se moverá a mão
que o esboça. Os rostos fechados
parecem temer o pior, só um ou outro sorriso
permanece insensível a quem lhe armadilha a imagem
para além do razoável prazo de validade.

Sepultados vivos, e assim estranhamente
vivendo a morte, eis a absurda sorte
desta multidão, que aí ficará por conta alheia
sem que para tal fosse consultada,
ou esclarecida em seus legítimos direitos
de imagem e privacidade.


(in A Caminho de Avoriaz, Cosmorama edições, 2011)



Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista
                                                                 Fernando de Castro Branco © dos poemas


Fernando de Castro Branco (Duas Igrejas, 1959). Publicou, entre outros livros e ensaios, os volumes de poesia Estrelas Mínimas (2008), Plantas Hidropónicas (2008), Marcas de Verões Partidos (2009), Arte do Espaço (2009), estes dois últimos volumes integrados no volume A Carvão – Poesia Reunida. Assinatura Irreconhecível (2010) e A Caminho de Avoriaz (2011).