sábado, 14 de abril de 2012

Aniversário da minha fiha Raquel




(a minha filha Raquel, com o meu neto, Afonso)



POEMA PARA A MINHA FILHA RAQUEL, QUE FAZ HOJE ANOS


De súbito, sabemos que não perdemos o coração.
O coração eleva-se ao ermo, cinge-se à memória,
passa a sufragar tudo o que resta –  e aparece.
Aparece a brilhar num espaço negro.

De súbito, tudo volta para trás. Tudo é cativo.
E volto a passar as mãos pelo teu cabelo,
essas  ínfimas aves que chegaram a uma praia
que ninguém sabe que existe, o coração.

 De súbito, a morte faz sentido. Não se sabe
que quantidade de dor estiolou na árvore, como ficaram
roxas as mãos, e o mar, a sua superfície azul, foi
os teus olhos, os meus olhos nos teus num movimento atroz.

De súbito, o coração aparece – é um barco
à deriva no teu peito, e tudo o que te pertence me pertence,
e é por ti que chega, e é a ti que reconhece quando a treva vem,
 e nada mais vem ao coração.





inédito
poema e fotos © de Amadeu Baptista 


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Maria do Rosário Pedreira


Maria do Rosário Pedreira, poeta convidada




3 POEMAS


Vem ver-me antes que eu morra de amor — o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer — mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite —
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida pulsar nessa palavra como um músculo tenso
escondido sob a pele — mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa —
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.


(in O Canto do Vento nos Ciprestes, 2001)






FADO

Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.

A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu

estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.


                             (in A Casa e o Cheiro dos Livros, 2001)







                            

Por serem mães, nem viram aquilo que
parecia um raio de sol interrompendo o
mundo; e levam os meninos mortos ao
colo no fio dos caminhos, confundindo
sempre a lã dos xailes com o calor do
sangue que lhes ensopa as mãos. Seguem

sem poder acreditar – ou então acreditam
que não seriam capazes de amar tanto
uma coisa parada no tempo, e por isso
vão, imperturbáveis, ouvindo bater dentro
do próprio peito os corações vermelhos
pequeníssimos. Mais adiante, deter-se-ão

para descobrir um seio redondo e cheio à
minúscula boca prometido – não vá ela
abrir-se de repente e, milagrosamente,
começar a chorar.

(inédito)




 Poemas: © de Maria do Rosário Pedreira
Fotos: ilustração dos poemas: © de Amadeu Baptista


Maria do Rosário Pedreira nasceu em Lisboa em 1959. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Clássica de Lisboa. Estudou paralelamente outros idiomas, como o alemão e o italiano. É editora e escritora. Recebeu vários prémios literários pela sua obra poética e as suas séries de livros juvenis foram adaptadas à televisão.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Thorkild Bjørnvig



TRÊS POEMAS DE THORKILD BJØRNVIG



TARDE NUMA CIDADE DESCONHECIDA


É isto a morte?: no meio do alvoroço da festa.
                Conversa, amigos e estrépito de música,
                a amada descansando nos meus braços,
                enquanto o bramido como um zumbido melífluo
me invade o ouvido – roça-te o frio gélido.
                Vais-te. Atrás de ti perdem-se as vozes,
                a música soa como um mosquito alto e longínquo –
                Ora bem: um instante os salões estiveram cheios
agora a luz apaga-se. O que esperas
                aconteceu há muito tempo. Fecho os olhos, os ouvidos,
                tento recordar imagens e palavras –
então sinto que uma corrente gélida vem da porta,

e ouço passos a acercar-se da minha mesa,
e uma voz em surdina que me diz: tem que ir-se.

                              
                                                                              Fiur og ild, 1959 



EROS


Divindade não chamada, só a vida numa forma ou a pureza te
                comovem,
se algo te comove – tu, doçura inumana, e de repente
púrpura perante o olhar, tu, absurdo, que crias felicidade,
                desassossego,
fazes e desfazes famílias, impávida, indiferente,
tu – se te resistimos, provocamos a tua crueldade, até que a dor
nos faz crer em espírito, ou te aniquilamos no abraço:
és indefectível. Como a fénix, uma águia num longínquo e desolado
                cume,
perscrutas firmamentos em brasa, ressuscitada, insaciável.

Corpos clarividentes, descansamos, meu amor, imóveis,
constelações refrescadas pelo vento descansam sobre as
pálpebras fechadas,
e os rios primitivos do sonho fluem en torno do coração – como
                ritmos dentro de mim
continua o movimento dos teus braços, erguidos para o abraço,
e o desejo bruscamente, dispo os teus seios, o estremecimento
das ancas – um ritmo que esquece a sua substância até que apenas
                recordamos,
quando passaram os anos, as copas das árvores sobre nós,
                a ondulação do mar,
os enfeitados minuetes de um campanário que abriram o céu.

Uma noite sonhei, meu amor, que te vi com uma máscara dourada,
vi-te sair por uma porta secreta, gritei, não me
ouviste; família e amigos rodeavam-te, despedindo-se – Eros:
um rosto totalmente desconhecido, impregnado da doçura
                da intimidade,
um rosto terno e familiar, iluminado pela estranheza,
sim, essa é precisamente a tua obra – e sejas quem sejas, tu, a abraçada,
bela até transtornares-me, és a máscara que generaliza
                os gestos individuais
e a que, sem que os apague, aperfeiçoa com toda a pureza a tua nudez.

                                                                                              Figur og ild, 1959



O pesadelo, nele
não és corpo nem espírito,
não és mais que uma alma entre
as mós do moinho
do incorpóreo e do não espiritual.
Aí só ajuda Platão
ou o Corpo do Amado.

                                                                                              Vibrationer, 1966

Versão minha - © Amadeu Baptista


Thorkild Bjørnvig. Nasceu em Aarhus, a 2 de Fevereiro de 1908 e faleceu a 5 de Março de 2004. Licenciou-se na Universidade de Aarhus, com uma dissertação sobre Rainer Maria Rilke (1944) e doutorou-se em filosofia em 1964. Traduziu para dinamarquês, além de Rilke, Friedrich Hölderlin. Foi co-fundador e co-editor da revista ‘Heretica’. Publicou poesia e ensaio, datando de 1987 o seu último livro de poesia, intitulado ‘Através do Arco-Íris’. Foi amigo íntimo de Karen Blixen, que tão bem conhecemos do romance (e do filme) ‘África Minha’.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Bosque Cintilante # 23

George Friederic Handel: La Paix, de Music for the Royal Fireworks

Há uma curta distância entre o céu
e a terra,
eu posso imaginar as aves inquietas,
o que passa é forte
como um remo abrindo as águas
e a imagem do homem.

Deste lado da luz
o horizonte em chamas
nomeia a solidão,
é grande o ar,
a justa partição do que redime
pelo precário poder
dos deuses,
a chama ilesa.

É do fogo que chega
este mistério,
pelo inefável arde,
o eterno sopro em pedra
e som
– a paz do mar.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista
 


terça-feira, 10 de abril de 2012

O Bsque Cintilante # 22

Frederic Chopin: Valsa do Minuto

Chegou enfim o teu nome e as portas abriram-se
e a solidão do poeta reduziu-se à expressão mais simples,
a expressão do poeta é mesmo essa que vês
a experimentar por fim o princípio das palavras
onde cada sílaba pesa como um vulto imponderável
que a luz atraiu ao infinito
onde já nem os anjos aguardam, nem aguarda o poeta
porque o teu nome chegou e as portas se abriram
e pela primeira vez o círculo se fechou
e o que estava escrito foi cumprido
e floresceu a pequena semente do resgate
e alguém instituiu perpetuamente a trégua
e a paz inacessível está connosco.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista
 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Zoo Musical

O meu livro Zoo Musical, editado pela Calendário das Letras, em 2010, é um dos 30 livros portugueses para a infância e juventude mais recentemente adquiridos pela Biblioteca Internacional da Juventude, na Alemanha. Seguem-se algumas ilustrações do livro, de autoria de Ana Biscaia, bem como o respectivo corpo da notícia, cf o semanário Sol e a Lusa:












"Trinta livros portugueses para a infância e juventude são as mais recentes aquisições da Biblioteca Internacional da Juventude, na Alemanha, considerada a maior do mundo na área infanto-juvenil,
com cerca de 600 mil títulos.
As obras portuguesas foram escolhidas por aquela biblioteca durante a Feira do Livro Infantil de Bolonha, que decorreu em Março, em Itália, na qual Portugal foi país convidado.
Jochen Weber, um dos responsáveis da biblioteca, explicou à Agência Lusa ter ficado «muito satisfeito com a selecção de livros», que passam a integrar o arquivo do organismo.
«São um bom apoio para reforçar a presença de livros portugueses» que já existe na biblioteca,
disse Jochen Weber.
Os livros foram escolhidos entre os 150 que a Direcção-geral do Livro e das Bibliotecas tinha em exposição no espaço oficial de Portugal, naquela feira italiana.
Entre os 30 títulos escolhidos contam-se textos de Alexandre Honrado, Manuel António Pina, António Mota, Luísa Dacosta, José Jorge Letria, António Torrado, Eugénio Roda, Amadeu Baptista e obras ilustradas por Cristina Valadas, João Vaz de Carvalho, José Feitor, Marta Madureira e Tiago Manuel.
A eles juntam-se ainda Oinc! A história do príncipe porco, com texto de Isabel Minhós Martins, a partir de um conjunto de litografias de Paula Rego, Sérgio Godinho e as 40 ilustrações, com obras de 40 ilustradores para outras tantas canções do músico português, e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, uma edição recente com ilustrações de Tiago Albuquerque e Adriano Lameira.
Todos os livros foram editados entre 2010 e 2012.
A Biblioteca Internacional da Juventude, que funciona num castelo em Munique, foi criada em 1949 e, desde então, tem constituído um arquivo com literatura infanto-juvenil de todo o mundo, que totaliza actualmente cerca de 600 mil títulos, disse Jochen Weber à Lusa.
Anualmente, a biblioteca escolhe cerca de 200 títulos de 50 países para os seus arquivos, mas como Portugal foi país convidado em Bolonha, efectuou uma selecção extra da literatura portuguesa.
À margem desta escolha dos 30 livros, no início do ano a biblioteca divulgou a lista de seleccionados de 2012, que incluía A manta, de Isabel Minhós Martins e Yara Kono, e o romance Meia hora para mudar a minha vida, de Alice Vieira.

Lusa/SOL "

O Bosque Cintilante # 21

Claude Debussy: Clair de Lune

Não me vês. A esquadria das coisas
recobre o teu olhar dessa poeira branca
em que um vulto suspende o braço
sobre o mar. Há uma zona franca
à nossa volta, como o traço
de giz que cobre as coisas
negras onde depositamos
uma parte do corpo, uma parte da alma.
A alma, essa trama de gestos
que ninguém reclama.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista