terça-feira, 13 de dezembro de 2011

APONTAMENTO, ENTRE AS PÁGINAS DE UM LIVRO DE JORGE DE SENA

Bem mais que a expressão do inefável
seja a expressão do amor a poesia.
Mais longe ainda que o silêncio denso
onde tudo se amplia e se concentra,
seja o amor a expressão mais simples
do que se escreve e passa para o mundo
como mais nítida transparência entre os sinais
que nos entregaram um dia e soubemos
guardar inexoravelmente. Pode o vazio
vir despedaçar-nos, encher-se o coração
de solidão, enegrecer-se a alma
de não haver sentido, desesperar-se
o espírito por não ouvir o anjo,
seja a expressão do amor a poesia.
Onde quer que estejamos há-de estar o indizível,
mas não menos insondável há-de ser o nosso nome
se entre o infinito em que estivermos
for a expressão do amor a poesia.
Bem mais que a expressão do inefável
seja a expressão do amor a poesia.


(in 'Desenho de Luzes', Amigos de Azdertuiop, Corunha, Espanha, 1997)



Foto: © de Amadeu Baptista



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

SALA DOS ACTOS


usa a tua nudez acessórios mortais
para quem procura. a fita de veludo,
o cinto de fivela prateada,
a pintura guerreira, o golpe subtil

com que anuncias a ascensão
ao cume do carinho, exactamente
quando sobre o desvario
distendes os flancos e lanças sobre mim

o golpe intrépido
para que o êxtase estoure no meu corpo
esse mar de grata violência

que pressinto chegar em vagas sucessivas
sempre que gritas e, nesse grito,
desatas o meu grito.


(Arte de António Ferra)


trabalha com a língua, guarnece
de asas o vínculo precário
que nos prende à vida. o brilho
nos teus dentes sugere que a mágoa

pode vencer-se à míngua, acalentando-se
a transparência do sonho, a magnitude
da pele, o sobressalto
que perpassa no teu dorso

e responde à lascívia e ao denodo.
abraça nessa luz o alvoroço
de seres o animal que me conduza

à loba negra que em ti habita
e sob esta penumbra desoculta
a mancha branca que a cama oculta.


(Arte de António Ferra)


agora, vibra, vibra como vibro
ao saber a saliva e a alegria
com que é possível morrer nesta paixão
e ressurgir na graça do tumulto.

afunda no meu peito a energia
que vem sob a penumbra realçar
a tua silhueta de serpente.
no ardor da carícia podes tudo.

estou pronto para o infortúnio
e o assassínio, seja a luxúria esta
e o entendimento

do que nos pode poupar o sofrimento.
que a tua solidão seja na minha
o lume decisivo, a lura, o luto.


(Arte de António Ferra)

( in Umbigo, nº. 20, Lisboa, Março, 2007)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Caravaggio / 5

CARAVAGGIO: DAVID COM A CABEÇA DE GOLIAS

(para Henrique Manuel Bento Fialho)

Esta cabeça, que David, com um olhar
piedoso, segura pelos cabelos,
é a minha, que decidi retratar-me
como Golias degolado,
após um combate sem tréguas,
mas já com um vencedor estabelecido
pelo céu, o destino, ou o que seja.

Os homens chegam à vida para viverem,
mas o que têm mais certo é que a vida,
ou alguém por ela,
se encarregue de, ou tarde ou cedo,
lhes mostrar o único caminho previsível,
permanecendo inimaginável
o exacto minuto do estertor,
o instante em que tudo se acaba
e a alma é entregue ao criador,
ou o criador a toma, sem mais,
ou só o vazio prevalente sobre tudo.

Era rapaz quando perdi meu pai.
Era um homem valente, que, dir-se-ia,
nada poderia derrubar,
apto para o trabalho duro, fosse a construir
casas ou a demoli-las, passando pelas estações
como um grosso castanheiro a recolher
do tempo somente o benefício, e das eras
robustez, e dos dias a alegria possível
de quem pouco mais tem que as mãos
com que se sustentar e uma casa pobre
em que abrigar-se.

Estava bem, o dia estava muito quente,
e sentou-se à mesa a refrescar-se
com uma malga de vinho e algumas azeitonas
até que o calor baixasse por alguma aragem
que amenizasse a tarde – e, de repente,
vi-o caído, como se tivesse sido fulminado
por um raio de que Deus não o tivesse protegido.

Perdi a minha mãe anos depois,
já eu estava longe da aldeia,
mas sei que a sua morte foi antecedida
por um longo período de doença
que a prostrou durante longo meses
e que se lhe meteu nos ossos
de um modo brutal, mirrando-lhe o corpo
e esvaziando-a do discernimento,
a ponto de não saber o próprio nome.

Não a vi no seu leito de morte
e, no fundo, prefiro que assim seja,
porque a posso recordar cheia de vida
às voltas pelo casebre onde vivíamos,
a arear os tachos e as panelas,
a tratar das galinhas e dos coelhos,
a pontear as meias,
a desmanchar as peças de carne
que o meu pai trazia como paga
do conserto de um telhado,
ou de um muro derrubado.

Havia nela, lembro-me,
uma ternura franca pelas coisas.
Mesmo se ralhava com as vizinhas,
que a não largavam a pedir um ovo,
um canado de leite,
ou um pé de salsa,
que nunca devolviam,
era doce e meiga,
sorrindo para todos e cuidando
de que fossem as zangas de curta duração
e as desavenças breves.

A ela devo a fascinação pela pintura.
Levava-me à igreja e apontava-me
a Via Crucis que, nas paredes do templo,
mostrava aos crentes o caminho
e, a mim, desvendava os traços do desenho,
a girândola das cores e os efeitos
que a luz fazia nos retratos,
a destacar o rosto de Pilatos a lavar
as mãos, as cabeças dos soldados
a jogar os dados, a silhueta de Cristo
a transportar a cruz, enquanto tropeçava
nas pedras e transpirava sangue,
e dor, e mágoa.

Ficava-me a olhar as estampas por tempos
infinitos, e a minha mãe deixava
que eu olhasse tudo aquilo o tempo que quisesse,
como se planeasse a aprendizagem dos meus olhos
e me adivinhasse o futuro
entre as tintas e as telas
com que expresso o tenebrismo
que cada coisa tem
quando é da vida que os contrastes chegam
e a arte é um movimento intolerável
para quem só pela arte se concebe.

Ando fugido há muito. Quer a justiça
que dê contas de um homem que matei,
mas um artista é sempre um perseguido,
senão pelos outros, pelo braço secular
que em si habita, e eu não me imagino
encarcerado, doente de malária,
longe dos meus pincéis, da minha pátria
pária, da arte a que o meu espírito se consagra
para que eu não morra nunca,
ou o temperamento com que me afirmo
perante os meus contemporâneos,
ou a memória que houver de mim.

À minha volta só vejo medíocres,
sem uma nesga de génio,
um gesto sublime que me espante
– defuntos já em vida,
maculam a essência de que vimos
e o teor vital de tudo quanto
deveriam amar e proteger
de modo a que nada se perdesse
e puro se entregasse
à procedência divina da nossa natureza.

É a minha cabeça que David
segura, pelos cabelos – no meu rosto,
o rosto de Michelangelo Merisi Caravaggio,
estão as marcas da luta
e os efeitos do combate desigual
que travo com a intransigência,
a castração e o medo,
em busca de um abrigo ou de um amigo
que saiba o que a luz faz quando nos entra
no peito e toma o coração
para que outra grandeza se estabeleça
na nossa condição

e a beleza estoure, à nossa volta,
e seja um festim, a vida,
e, por uma vez, levemos de vencida
a morte que não morre.


(in Poemas de Caravaggio, Maia, Cosmorama, 2008)







Caravaggio, 'David com a Cabeça de Golias, Óleo s/ tela, 125 x 101 cm, Galleria Borghese,  1610

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Caravaggio /4

CARAVAGGIO: A DEGOLAÇÃO DE S. JOÃO BAPTISTA

(para Rui Almeida)

Retenho do quadro uma mancha azul, opaca,
onde o silêncio paira como um agoiro de luz
– em tudo há um silêncio assim,
mas é deste rastro de ínvia escuridão
que o rescaldo do mundo se impregna,
como uma dor interminável,
um grito que tudo obscurece,
para que a cegueira dos homens nunca se interrompa.

Não é uma questão de saber onde está a mágoa,
ou se a mágoa existe.
Sempre se soube de que enigmas a tristeza se reveste
e como, pelos séculos, tudo é perturbação e desagravo,
e como não há bênção pelo esforço, e nada irá render-nos
pelo que, pelo horror e o enigma, distende as suas garras
em direcção aos homens.

Atrás há outra escuridão: preenche o quadro
como uma admoestação
para que o encontro e o desencontro dos olhares
proclamem no silêncio
o fragor da tristeza no rosto de quem olha
e se não pode redimir por tanta angústia.

Há, ainda, uma parede ocre,
travejamentos negros,
e dois vultos que perscrutam, sem surpresa,
o que se passa à sua esquerda,
numa atitude grave e carregada, com as mãos
presas às grades da janela,
ou nelas se sustendo.
De onde chegaram, ainda há muito pouco,
havia luz e ar,
mas o que vêem é de um domínio atroz
e insustentável,
de modo que respiram entrecortadamente,
como se um punhal lhes rasgasse a carne
e Deus não fosse o criador do mundo.

Estão, assim, parados porque sabem
que é pelo sangue que se lava o sangue
e é injusta a terra, e débil
para o poder de um rei,
a sua amante, e a miríade sumptuária de guerreiros
que os serve.

Estão à esquerda as cinco figuras que modulam o quadro
e explicam como a nossa humanidade se ressente
do que pesa:
em cada coisa há sempre um atropelo que se ergue
sobre a transcendência para que a cegueira
mais se expanda em nós
  e nós, sempre mais cegos, suportemos
qualquer atrocidade sem que a asfixia
nos esmague o crânio,
o coração.

Eis que o homem do centro do conjunto
ordena a que o abate tenha início:
o braço distendido e a tensão do corpo
demonstram como é altivez
a cobardia,
e o dedo indicador, que aponta a vítima,
atesta, decisivamente,
como pode ser precário o arbítrio de quem
só pode obedecer.
Enverga um casaco verde
sobre uma camisa clara, sem botões,
sendo que, pelas várias chaves que carrega na cintura,
se pressinta que se presta ao zelo de estabelecer a ordem
do que, nenhuma vez, terá ordenação:
era ainda manhã e já o indispunham os escravos,
e não estava quente o leite,
e azedava o vinho nos tonéis,
e descobria insuportável a algazarra na cozinha,
e os ratos saqueavam a despensa,
e não havia azeite para as lâmpadas,
e o rei não se cansava de o chamar,
a doerem-lhe as costas, os rins e a cabeça.

À esquerda deste homem está uma mulher velha
– dela se nota o pânico que antecipa pela degolação:
tapa os ouvidos com as mãos,
não para deixar de ouvir,
mas para não ver o que na extensão do silêncio fere os olhos.
Talvez pelo que fez,
talvez pelo que não fez,
esta mulher tem medo do que assiste,
sendo que há muito não sabe de si mesma:
ia na estrada, e subia a estrada,
e o seu cansaço era infinito,
e se voltava atrás era sempre em frente o seu caminho,
uma subida íngreme,
e rosnavam-lhe os cães,
e quando orava tinha visões do abismo,
e tudo ardia em volta,
e abandonavam-na os filhos,
e toda a noite tinha pesadelos,
e ouvia ao longe,
mas cada vez mais perto,
o grito interminável com que a morte,
mais do que chamá-la,
a invectivava,
a arrancar-lhe os cabelos,
a enredar-lhe os pés,
num sobressalto terrível, contínuo, insuportável.

Mais para a esquerda, está uma mulher jovem.
Se virmos bem,
cegos que somos,
veremos como lhe tremem as mãos,
enquanto escolhe um lugar apropriado para pôr a bandeja
que irá receber a cabeça do profeta.

É ainda nova para tanto alarme, a rapariga,
e o corpo ressente-se-lhe do que sente,
a trança presa por uma fita de veludo e a boca fechada
para que não entre em si o silêncio circundante,
e as suas lâminas não lhe atinjam as entranhas.
Do mais, nem quer saber: estava a bom recato e veio por uma ordem,
sendo que, sempre que é assim, o melhor é obedecer,
manda quem pode,
e quando lhe dirigem uma ordem só tem que a cumprir,
cala-se e faz,
por muito que prefira a frescura dos canteiros,
o doce odor que vem das laranjeiras,
o rumor da água a crepitar nos tanques,
o jardim, lá fora.

Restam dois homens. Um empunha a faca,
que esconde atrás das costas.
Com os braços possantes e as pernas vigorosas,
inclina o corpo em frente,
a sujeitar o que está por terra,
conferindo ao desempenho a força necessária,
nem maior, nem menor,
porque tudo é uma questão de adestramento:
matar um porco, ou um boi, é, no fundo,
o mesmo que matar um homem,
basta saber como empregar a força,
em que lugar fixar a lâmina,
que movimento usar para que não suje as mãos e o rosto.
Por ele, não há que duvidar: o que há para fazer
deve ser feito eficazmente e sem perguntas,
que até podem ser mal interpretadas, a contaminar
a confiança do amo,
sem que valha a pena.

O outro homem é João Baptista.
No chão manietado,
detido e indefeso,
não se sabe o que pensa,
se reza ou se é divino o seu silêncio,
se nos olhos cerrados é um rebanho que vai,
ou se só cuida de ovelhas tresmalhadas,
exactamente agora, no último momento,
como fez em toda a sua vida.

De tudo quanto fez e quanto viu
o mais de que se alegra foi ter baptizado Jesus Cristo,
e todos os demais, sacrílegos e ímpios, descrentes e pagãos,
e ter por certa, agora, a recompensa dada aos mártires pelo céu,
que lê o infortúnio como dádiva,
e o destino que chega como confirmação
de que, sob o arco do tempo,
há-de passar Salomé e a blasfémia,
e a crueldade,
e Herodes,
e cada um dos criados e os escravos,
e os reféns,
e os que, com ou sem arrependimento,
acicatam a carne e a degolam
no resguardo das caves,
para que ninguém veja a violência atroz,
salvando-se, ou não, a salvação.

Por fim, no quadro, há outra luz: a luz que, em contrastes, se insinua
nas figuras e faz ver o que lá não está: a mancha azul, opaca, na escuridão latente
  a que os dois vultos,
que da janela obscura espiam, sempre,
não podem escapar,
talvez porque um deles seja o próprio autor desta pintura
e o outro seja Deus

­– Deus que observa a sua criação sempre em silêncio e permanece imóvel
para que Caravaggio alcance a claridade e reproduza
este agoiro de luz, imperscrutável.


(in Poemas de Caravaggio, Maia, Cosmorama, 2008)


Caravaggio, 'A Degolação de S. João Baptista', Óleo s/ tela, 361 x 520 cm, Catedral de S. João, La Valetta, Malta,  1608

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Daniel Abrunheiro


Daniel Abrunheiro, poeta convidado


LENDO E VENDO E SENDO de Duarte Belo,
NO NÚCLEO DA CLARIDADE – entre as palavras de Ruy Belo


para o dito Duarte, naturalmente

Leiria, quarta-feira, 30 de Novembro de 2011


Melhores dias não virão talvez
salvar-nos da carestia anunciada
de de borla morrer e de viver pra nada
a meio da graciosa desgraça do português
como este-aquele ali, que pelas esplanadas
pedincha o cêntimo para a sopa, o tostão pró-pão,
por sua alma de cristão que é para pão, 
pela pobreza da minha roupa que é prá-sopa,
isto não é que me comova mas amargura-me,
mais de meia população vive do ar, que não da terra,
o resto vai a pé a Fátima ver a boneca, cura-me,
ó Virgem de louça, da cegueira que nos aterra,
não, melhores dias não virão,
sabeis,
mas não tarda será Verão,
vereis.

*
Cresceram duas mãos de homem
ao cabo dos meus braços de menino:
vou para velho, não mais já jovem
– dizem que é fado, que é destino. 
*
Estou aqui sentado entretido a ser português
ao sol morno e manso qual leão saciado.
Eu já nunca mais para sempre vivo outra vez,
é melhor portanto curtir o banco encontrado. 


*
Acaba-se-nos hoje o mês
O primeiro Novembro a seguir à vida
da minha Mãe
Não é fácil nem tenro nem terno
ser um órfão descriado à beira
do Inverno.




(Fotografias de Ruy Belo, montagem de Duarte Belo)


Daniel Abrunheiro, diz sobre si mesmo: nasci em Coimbra no mês de Maio de 1964. Publiquei quatro livros e tenho duas filhas. Os livros chamam-se Cronicão (2003), O Preço da Chuva (2006), Licor, Sabão e Sapatos (2007) e Terminação do Anjo (2008). As meninas chamam-se Leonor (1993) e Teresa (2000).

sábado, 3 de dezembro de 2011

Em memória de António Cabral

Dois documentos:



Foto: © de A. M. Pires Caral

Uma foto histórica, em São Leonardo da Galafura, viagem de preparação da publicação 'Douro: Um Percurso de Segredos' (Instituto de Navegabilidade do Douro, s/l, 2000). Na imagem, da esquerda para a direita: Amadeu Baptista, Jorge Velhote, António Cabral, Braga Amaral, João Paulo Sotto Mayor (de costas), Albano Lobo e Eugénio de Andrade (Primavera de 1999)





Vídeo feito por excertos de duas intervenções de António Cabral nos "Dias da Criação",
em Vilar, Boticas. Setembro de 2007

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Caravaggio / 3

CARAVAGGIO: A INCREDULIDADE DE S. TOMÉ

Acredito no novilho primogénito
e no basalto erradio da Galileia.
Acredito na transigência de Abel
e no gesto truculento de Caim.
Acredito no cinamomo e no bálsamo
aromático, e no ónix, e em Loth.

Acredito que Judite, a filha de Marari,
derrubou os gigantes com a sua formosura.
E na perturbação dos Persas e dos Medos
perante quem os castiga. Acredito
na aliança, na terra,  e que o terebinto
há-de estender os seus ramos
na amplidão do deserto.

Acredito que as gerações fenecem
para que outras nasçam. Assim como acredito
que são belas as mulheres de Jerusalém,
sem que as tenha olhado longamente.
Acredito na sombra e nos estigmas,
e no prodígio das dádivas.
E acredito que são insondáveis os caminhos
que levam à abundância.

Acredito no bordão e nas sandálias,
e que ainda há homens dignos na cidade.
E acredito na oliveira dos campos
e nos desígnios com que alguns clamores
nos vêm perseguir. Acredito na escada de Jacob,
e que brotou da rocha a água,
e que as colinas podem ser cordeiros de um rebanho.

Acredito na essência preciosa
na barba de Aarão, e no orvalho de Hermon.
E que haverá vida para sempre.
Acredito nas harpas suspensas
nos salgueiros, porque exigiam canções
e, na Babilónia, tal como em Sião,
era cativo, o povo.

Acredito em Noé, e na canção
do poço. E que nevou no Verão,
e choveu, na ceifa. E que a maldade
dos homens é infinita. Acredito que há
corações feridos e mirrados
como erva. Acredito na coruja
das ruínas, e que os que vituperam
o inimigo, ainda assim,
devem ser vigiados. E acredito
na pomba, no pântano, e no hissopo
que cura e regenera.

Acredito em Sodoma e Gomorra
e na pestilência de alguns lugares,
assim como acredito no hino das aves,
e que estão em flor as vides,
e a figueira é benigna.
Acredito em Moisés, e na fragrância
do monte de Beter. E que o índigo
é uma planta mágica, de que retiro
o mais belo azul.

Acredito na dança e no adufe,
e que a voz da rola se estende sobre a terra.
E acredito que o amado pode
fazer como o veado ou o filho da gazela.
Acredito nos que praticam a justiça
antes da morte. E no refrigério da tenda,
e na esperança.

Acredito no pó e no engendramento
de algumas maravilhas, e no barro,
e que chegam recompensas
da esfera alta, da luz, e das estrelas.
Acredito que a dádiva santifica,
e acredito no penhor do sacrifício.
Acredito que o que pede pão será saciado.

Acredito no profeta Jeremias
a louvar as lágrimas, e em Job,
que sabe que o cavalo
é um fulgor possante. Acredito
no mistério, e que há um pano espesso
e invisível entre nós e os anjos,
entre nós e o céu. E na centelha,
eis no que acredito.

Acredito em Baal, e na noite da vigília.
E em Daniel, na cova dos leões.
E em Jonas, no ventre da baleia.
Acredito que se deve preservar o trigo
e festejar as primícias. E acredito no escravo
que, num murmúrio, exprime a liberdade.

Acredito no brilho do espírito
e na resina do pinheiro. E acredito
nas cores, nos verdes e vermelhos
com que se esboça uma veste, ou um pregueio.

Acredito no sol, no áspero espinho.
E que a poeira é cinzenta, e cinza, e negra.
E que no Horebe tudo arde.

Acredito no rábano silvestre e que Elias
dele se alimentou em Jericó.
E em Lilith, também acredito,
seja ela o vento, a lua,
ou o próprio inferno.

Acredito na cobra e no seixo rolado,
na árvore e no arroio. E acredito em Babel,
no mal e na serpente, e nos arcanjos
que velam, entre nuvens de fogo.
Acredito na luminosidade e nos clarões
da distância, e como pode
um brilho ser decisivo num quadro,
a iluminar o oculto.

Acredito no galo, e acredito em Pedro,
mesmo que negue Cristo, só por medo.
E acredito no anho, no peixe, e no pelicano
– e no mistério. Acredito na treva e na manhã.

Acredito até que num guia cego se mostra
a rota certa. Acredito no vinho,
em Canaã, em Belém, e nos pastores,
e acredito no mar de Tiberíades.
Acredito que à perseguição dos inocentes
se seguiu a chacina. Acredito em José,
o carpinteiro, e em José de Arimateia.
Acredito nos justos, nos rectos, nos legítimos.

Acredito em Simão, o cireneu que levou a cruz.
E em Verónica, e em cada um dos pregos
da crucificação. E acredito na pena, e na vertigem,
e que o silêncio tem a boca cheia de palavras.
Acredito na perdição de Agag, e em Balaão,
o filho de Beor. Acredito nas miríades de Efraim,
e de quantos em Manassés estão.
E no sermão da montanha, e no sepulcro,
perfumado de aloés.

Contudo, eu,
Michelangelo Merisi Caravaggio, tal como Tomé,
vacilo em acreditar na ressurreição dos mortos
e na vida do mundo que há-de vir,
provavelmente porque é coxo o meu idioma
e para acreditar preciso de atingir
a chama que me há-de incendiar
tocando, ou não, a ferida que nos sara.


(in Poemas de Caravaggio, Maia, Cosmorama, 2008)





Caravaggio, 'A Incrudelidade de S.Tomé', Óleo s/ tela, 107 x 146 cm, Sanssouci, Potsdam, 1601-1601