terça-feira, 22 de novembro de 2011

Vida adulta / 33

DOIS MIL E SETE

Alexandria, Alexandria, procuro o teu refúgio.
Há por aí um velho que me lê os teus versos.
Amar é morrer neste porto de sal,
a pedra amarga que rasga a língua.

Mais além do silêncio hão-de estar os teus braços,
é a pedra que cinges o alvoroço secreto.
Talha-me com as tuas mãos ao sabor do teu tempo,
amar é saber-te – e, sabendo, perder.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista

domingo, 20 de novembro de 2011

Nína Bjork Árnadóttir, 5 poemas



A LORCA

Desapareceram os nossos cavalos
silenciosamente no bosque.

Ponho a minha mão sobre o teu coração.
Foi aqui?

Dás-me a tua mão
conduzes-me à luz
e ofereces-me a navalha
enquanto os nossos cavalos desaparecem
silenciosamente no bosque.

Cravo a navalha no coração
distanciamo-nos silenciosamente.

Sorridentes descemos o declive
mutuamente saboreando as nossas palavras.

                                  
( de Undarlegt er ad spryrja mennina, 1968)




INTERESSANTE É PERGUNTAR AOS OUTROS

Interessante é perguntar aos outros
pelos demais.
Interessante é perguntar pela paz
e o amor.
Interessante é sentir o teu alento
meu filho
sentir-te beber dos meus seios
das flores dos meus seios.

Pergunta-o aos outros.

                                  
( de Undarlegt er ad spyrja mennina, 1968)





CANÇÃO

Não te posso esquecer
durante a noite não durmo
Às vezes as tuas palavras eram como lâminas
outras vezes como sinos
deitámos fogo a uma montanha
que logo nos recordou para sempre
Cantou a urze
cantaram todas as plantas
o nosso amor

e não pude esquecer-te
não posso dormir à noite.

                                  
( de Bornin í gardinum, 1971)





NOITE DE JUNHO

( canção para flauta )

Cantaram pássaros
em nossos olhos
os nossos dedos
voaram
de sonho
em sonho

os meus lábios
no teu ombro
a brisa
intimamente alegre

os teus lábios e a tua língua
flores voadoras
eu fui o seu prado
essa noite

fui água, montanha, barro
e sobretudo
arroio imensamente alegre
que corria
entre as tuas pernas
e te arrastava
para o abismo

ali onde brilhava
como cristal
a tua semente.

Tão ardentes eram os nossos corações
tão ardentes
pulsavam
juntos.

Tão ardentes eram
os nossos corações
tão ardentes
que o gelo não poderá
jamais
endurece-los.

E desde então sempre
cantamos cada um
no sangue
do outro
cantamos sempre desde então
cada qual
no sangue
do outro.

                                  
( de Svartur hestur í myrkrinu, 1982)





CONVIDADOS

Anoitece no nosso pensamento
sossegaram as vozes das tarefas
oxalá a noite fosse tão comprida como o dia
e maior o descanso
porque andamos a transformar em convidados
um montão de guinchos e zumbidos.

Tenho sonhos terríveis, irmão,
sonhos terríveis,
sonho
que somos a engrenagem de uma máquina uivante
e não conseguimos fazer ver
que somos eu, e tu, irmão,
e não a roda numa máquina uivante.

                                  
( de Hvíti trúdurinn, 1988)


Versão minha; © de Amadeu Baptista


Nína Bjork Árnadóttir. Poeta, dramaturga e romancista islandesa. Nasceu a 7 de Junho de 1941. Formou-se na Escola de Actores de Reykjavik e na Universidade de Copenhaga. Faleceu a 16 de Abril de 2000.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Vida adulta / 32

DOIS MIL E SEIS

Quando escrevemos poesia escrevemos o idioma
das crianças que não falam, o idioma
que as crianças que ainda não aprenderam a falar
trocam entre si, no silêncio intransmissível
do melhor da infância. Quando escrevemos poesia escrevemos
algo mais profundo que a emoção ou a memória,
porque da ausência de emoção e de memória
há-de sempre tratar a poesia, por mais novelos
de emoções e de memórias que se descubram
na linguagem atroz, na linguagem
sempre insuficiente. A minha arte poética,
aquela onde empreendo uma efémera tentativa
para renascer pelo conhecimento, não pode ser
senão essa fragilidade perante o que é real mas não tem nome, o que é real
mas só a uma música desconhecida corresponde
na impaciência de estar e não saber falar. Por isso,
o meu nome é esta cintilação obscura onde uma criança se oculta,
esta paisagem de instantes onde persigo a luz.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)
 
 

Foto: © de Amadeu Baptista

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Joaquim Cardoso Dias


Joaquim Cardoso Dias, poeta convidado



Notícia para uma carta de José Agostinho Baptista

3.
Estou a pensar nos amigos que amei e
lembrei-me que a poesia não é feita de
palavras, mas
da cólera de não sermos deuses. Por isso,
falo do perigo de escrever
para encontrar o segredo dessas palavras.
E escrever é sempre aquele desejo demasiado
inocente. Às vezes,
fazia-me falta o mar
e a sabedoria das lâmpadas que despem
as cidades
e que enlouquecem esta profecia. Mas eu
digo
escrevo
oiço
com a certeza de que o amor absoluto é
ao mesmo tempo necessário
e impossível. Como a amizade.
Sei-o há muito tempo.
Lembro-me do milagre de curar uma mentira
com este mar por detrás dos vidros da janela
ao longe
descendo
na inquietação dos dias
neste exacto momento,
como um filme,
o barulho do mar é uma noite infindável
erguida do sono e cega pela escuridão.
Hoje a chuva é um segredo que o meu corpo
guarda para o meu corpo
depois
do lume dos pássaros e dos gritos desiguais
das crianças no pátio da escola.
Hoje ainda nada sei da trovoada ou dos anjos
caídos
devagar
e eu não tenho culpa. Eu
poderia até construir uma casa
numa árvore grande e depois ficar no céu
a pensar para ter coragem de dizer tudo isto
assim
à flor da boca entre a Rua dos Caminhos de Ferro
e o Arco das Portas do Mar
à mesa de café em Santa Apolónia entre tantas partidas
e chegadas e sentir o olhar a cada instante
como um girassol na inclinação dos mastros,
um perfil doce e triste em mármore branco
movendo-se com a velocidade de uma doença fixa,
torturado em ouro com mãos que matam
a minha alma nómada.



Primeira Parte

Nesta página recomeço a partir de muito pouco.
Pergunto-me
como foi possível um livro
sonhar numa gaveta desarrumada,
no interior dos dias
sem ninguém,
como se simples fosse o modo de
ir para longe,
o silvo dos comboios,
a música do mar,
o rasto dos aviões à volta de
uma ilha
e as mãos tristes
completamente sós.
Pergunto-me para que serve a infância
e os hábitos que nos aproximam uns dos outros,
esses significados sem defesa possível
a trair a vida
toda,
os degraus da frente da casa como uma
palavra justa
demasiado perto
de tantos nomes imóveis
(a inocência
ou este perigo)
e olhando nos olhos uns dos outros,
quase
com as mãos nos bolsos,
podemos viver
com água nos pulmões,
e dizer que à força da respiração
escrever
é como viajar à boleia,
procurar este trabalho onde
fulguram os pêlos da nossa masculina morte
e continuarmos outra vez
inertes a um vício sincero
de esconder o peso da boca
em redor da cabeça
ao fundo da rua que
mediu o mundo,
que é todo assim
por baixo do fogo,
no fundo do mar
e dos números nos cascos dos navios,
e das paredes do quarto
à deriva.






Registo horizontal

Querido amigo,
A distância dos braços é também
uma asa mordida sobre a pele
na primeira casa em que nascemos.
Eu escrevo livros para pulsar
no mundo,
para a felicidade de todos ser mais diferente
e nunca mais acontecer.
Ontem reconheci o mar rente à janela
e as cidades envolvidas pelo nevoeiro,
a alma que a luz em luminosa sombra
rouba sinais e desejos.
Por mim,
nunca saberei dessa palavra

que ergue o nome
do que não vem mais.
E a minha casa,
digo-te agora,
a minha casa é onde tu
estás. Além-mar.
Não esqueças.
Adeus.
Abraço-te muito.




                Joaquim Cardoso Dias nasceu num mês de Junho em Castelo Branco e vive em Lisboa. É licenciado em Sociologia e não entende para que serve ser licenciado neste país e num tempo assim. Publicou livros de poemas e muitos poemas em antologias, revistas e jornais (em Portugal e no estrangeiro). Gosta de fotografia e já expôs fotografia e publicou fotografias em tantos "lugares" que nem se lembra bem de todos.



Fotos (que ilustram os poemas): © de Amadeu Baptista; Poemas: © de Joaquim Cardoso Dias

domingo, 13 de novembro de 2011

Vida adulta / 31

DOIS MIL E CINCO

Os sortilégios florescem neste caminho
e tenho o sonho de sempre. Alguma vez
daremos as mãos e o círculo em vez de se fechar
há-de abrir-se ao misterioso encanto. Eu estou
com os homens, bem para lá do triunfo desse poder
sem nome, essa facção dos que temem
porque não é bastante o amor. Confio, numa palavra.
E sei quanto vale o fascínio de um cântico,
quanto vale esse inesperado sentimento
de entregar o sonho contra o ódio secular.
Dou um passo, e outro, e outro ainda.
E a voz do vento é audível para além do silêncio,
este mar de gente onde a ânsia aguarda
que a justiça chegue e possa festejar
a amplitude do sangue que há em cada homem.
Eu sei que nos encontramos para não nos perdermos.
Do início de tudo alastra para sempre
um enigma maior que a raça de que somos, um instantâneo
de luz onde um ponto de harmonia
amplia a dimensão do sofrimento
para que haja um sentido universal
que obstine o sonho e proclame a vida.
Apontam-nos a carabina e disparam sobre nós.
Mas há um rastro na frágil transparência
das nossas mãos erguidas sobre a terra,
um golpe subtil que o coração entende
quando as lágrimas fecundam o chão onde fundamos
o sangue de que a terra há-de crescer.
Os sortilégios florescem neste caminho
e tenho o sonho de sempre.
Só o amor transfigurará o mundo.
( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)








Foto: © de Amadeu Baptista



J.S. Bach, Air


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Vida adulta / 30

DOIS MIL E QUATRO

Ainda bem que sou um homem do norte.

Ainda bem que tenho um horror suculento
a parasitas pardos e viúvas negras.

Ainda bem que resisto como um pré-esforçado
e registo em cadernos as incandescências do mar.

Ainda bem que evoluo na travessia das nuvens,
e acredito
e aceito, ainda.

Ainda bem que num momento particular
estou em presença de um torso
e um cavalo a arder,
em sinal de vida, sobre o campo visual.

Ainda bem que não mastigo bem,
não digiro bem,
não dirijo bem,
e choro, como uma criança.

Ainda bem que as formas circuncêntricas
se explanam como processos escultóricos
e a manhã deste outono anunciado
é primaveril.

Ainda bem que nas paisagens reais
não há seres indefesos
  não há seres indefensáveis
nesta rede de hipóteses cruéis e sanguinárias.

Ainda bem que a irregularidade é a única lei
dos fora-da-lei
e no outro lado da duna,
no outro lado da rua,
há uma curva,
depois um bosque,
depois uma depressão no terreno
que denominamos com contracções musculares,
sobreposições de imagens,
Deus, na aula de trabalho manuais.

Ainda bem que, após a fuga,
há uma casa na árvore para retemperar as forças.

Ainda bem que sou um homem de sorte.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista

sábado, 5 de novembro de 2011

Vida adulta / 29

DOIS MIL E TRÊS

Aos cinquenta anos há já poucas decisões
para tomar.

Os filhos estão criados,
há muito que deixaram de tocar a relha
do arado
e de olhar as árvores
como poderosos
instrumentos da imperceptibilidade.

Sem alegria,
ouvimo-los sussurrar,
quase em segredo,

«agora não se agaste,
de há uns tempos a esta parte pertencemos
a um reino
de números primos
e não queremos voltar ao canavial».

Aos cinquenta anos,
nem já um cão queremos ter,
vamos de café em café a pôr questões inúteis,
a perguntar
se o desejo que temos pela mulher que passa
é realmente genuíno,
ou só a desejamos
pelas meias violeta que lhe iluminam
a perna,
fazendo entretecer a agitação do corpo
com uma certa graciosidade incontornável.

Aos cinquenta anos,
apenas indagamos as horas a que é o jogo,
sem qualquer intenção de o irmos ver
ou anotar na agenda
a hora pré-determinada
da consulta
em que a exclusão nos vai visitar,
aqui,
ali,
no centro médico,
ou na capela mortuária
onde dizemos um derradeiro adeus
ao mais pontual amigo.

Aos cinquenta anos,
constatamos que o radiador perde água,
que a lâmpada fundida está coberta
por uma fina película de poeira
que nunca víramos antes,
a mesma poeira que suja a nossa pele,
a nossa excessiva presença pela casa.

Aos cinquenta anos
a cabeça vai-nos caindo sobre o peito
e sufocamos com sono
e os joelhos dobram-se sobre nós,
no exacto momento em que recitamos a oração da infância,
com medo do escuro,
o mesmo medo do escuro
de quando éramos meninos
e o vigor dos nossos tornozelos suportava
a correria no vento,
entre os fetos.

Aos cinquenta anos
perdemos mais um dente,
espiamos a cabeleira ainda farta,
percebendo que não nos irá faltar cabelo
até ao fim,
se, eventualmente,
a radioterapia se desviar de nós
e o arsenal químico do costume
se não interpuser entre a nossa ténue esperança.

Aos cinquenta anos
ainda projectamos ir pela pedreira
à procura de mica e feldspato,
ainda interpelamos a morte
com as mãos vivas, ensombrecendo
o chão à nossa frente,
limpo,
sinuosamente limpo à nossa frente,
atirando uma pedra para o lago
na tentativa vã de descobrirmos
o que são esses círculos circuncêntricos
que, com mansa bonança, avançam
para a margem.

Aos cinquenta anos,
dizemos, entre-dentes,
“calma, não é, ainda, o fim do mundo”,
enquanto perscrutamos o sulco
que a retroescavadora abriu
no campo largo.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista