domingo, 11 de setembro de 2011

Ground Zero - 11 de Setembro de 1973


O Golpe de Estado de 11 de Setembro, ocorrido no Chile em 1973, consistiu na derrubada do regime democrático constitucional do Chile, e de seu presidente Salvador Allende, tendo sido articulado conjuntamente por oficiais sediciosos da marinha e do exército chileno, com apoio militar e financeiro do governo dos Estados Unidos e da CIA, bem como de organizações terroristas chilenas, de tendências nacionalistas-fascistas, tendo sido encabeçado pelo general Augusto Pinochet, que se proclamou presidente.

Fonte: Wikipédia



Pablo Neruda, Canto Geral:




Vida adulta / 17

MIL NOVECENTOS E OITENTA E NOVE

A balaustrada serve para olharmos para dentro.
Quanto mais olhamos para dentro mais é possível ver
a azáfama do mar nos élitros do vidro, os seus galões
suavemente ameaçados. Olhando mais, um passo
noutro passo, vislumbra-se o silêncio,
os vasos de flores que a hierarquia das coisas
permite observar, carvão, sandálias, lápis.
A sensação que fica é a de um rosto
que a si mesmo exorcisma, acrescentando
ao lume lume, água aos sedimentos. Quem quiser
pode vibrar nesse propósito de sal,
caso não esteja fechada a persiana,
embaciado o diálogo interior pelo vento recorrente.
Depois, é só ouvir, o erotismo conclama as luzes,
abre-se a cama, a vulva pulsa, o orgasmo
desencadeia na carne agitações, montanhas.
Sendo possível ver, sendo possível
de longe observar a derrapagem,
poder-se-á, então, recomeçar a morte, adivinhar
os negros filamentos da abordagem
que as mãos, incendiadas, encetaram
quando a sanguínea brotou à flor da pele
e a dimensão exacta do retrato
foi a evasão possível nos cálidos pulmões
que a varanda permitiu, por ser tão ampla a noite
e fino o ar em trânsito nas cortinas.


( in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista

sábado, 10 de setembro de 2011

Vida adulta / 16

MIL NOVECENTOS E OITENTA E OITO

A minha mãe morreu ontem à tarde.

Ontem à tarde fui-me pelas exéquias
à igreja de S. Pedro,
atordoado
pelo ínvio folclore daquilo tudo,
o algodão hidrófilo nas narinas,
as mãos justapostas por uma ligadura,
o cheiro enjoativo das flores,
o silêncio soturno,
entrecortado
por suspiros e gritos
e as pressurosas obscenidades do costume.

Devia-se morrer e desaparecer,
para que só uma certa luz
nos encontrasse.


( in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista

20.000 Visualizações

Este blog ultrapassou ontem as 20.000 visualizações.

Iniciado a 22 de Abril deste ano, com 5 semanas de paragem enquanto foi período de férias, parece ser este um número excelente, tanto mais por ser este um blog, quase exclusivamente, de Poesia
(com alguma fotografia à mistura).

A todos os que passaram por aqui, a todos os que são 'seguidores', a todos os que deixaram comentários, a todos os que enviaram poemas, a todos os que, em suma, apreciam
o trabalho que se foi apresentando
ao longo destes meses,

o meu muito obrigado!


Foto: © de Amadeu Baptista



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

António Ferra


António Ferra, poeta convidado


TRÊS POEMAS



Canalização


Domino a infiltração que me perturba,
imagino o prazer da cama seca à espera de
algum canalizador a olhar obra futura com desdém,
há fuga de água, há ar a mais, é preciso calafetar a alma,
não vá sair de chofre o sopro que a sustem.

Tento consertar os canos,
esgotos de mim mesmo propagados pela casa,
o resto pouco importa, é o resultado dos anos.
Que é isso do poema
feito no jogo da  palavra barroca,
cultismo de circunstância sem lugar para
infiltrações ou para qualquer ratazana saída da toca
obstruindo a casa onde respiro e esqueço detritos
num banho de alfazema?

Não há canalizador que me valha,
estão todos ocupados com serviços importantes, urgentes até,
e eu que me arranje,
que escreva metáforas aos canos apodrecidos pelo tempo
onde sempre correu água turva por onde se esgueirou
o que sobra de mim, ao fim do dia,
não toda essa merda conspurcando enunciados, não,
antes aquela inventada para dar lugar a outra, que sobrou
por contraste, sacrifício, teimosia.

Como era bom agora uma esplanada junto ao mar,
ouvir outra água sem saber de nada, esquecer a tubagem,
tomar batidos de leite e nata com morango, sorver o café,
percorrer uma gaivota na praia com o olhar, sentir uma aragem,
pôr fim à  porcaria dos poemas encharcados de quotidiano
até cheirar mal, e depois dizer “então como é?
Que chatice! Que é que eu vou fazer,
quem é que me vem consertar o raio do cano?”

Está roto e não há quem o remende, quem o troque por outro
asséptico e novo para durar a eternidade, sem pruridos,
como se os canos não se gastassem, e as juntas,
as ligações estranhas que fazemos sem saber porquê,
sem saber que somos infiltrados e à nascença entupidos,
até dizer basta!, quero respirar, quero escrever o que me vem
à cabeça com todos os sentidos,
depois logo se vê.


(in A Palavra Passe, 2006)



Tragédia Urbana
           
Vede como o infortúnio se faz coro e no lamento se prolonga!
Assim é a tragédia que me toca o corpo manchado de sangue,
como se eu fora um atrida, um labdácio de bairro, aqui no Lumiar,
onde espreito deste anfiteatro, à varanda, um actor arrastando a máscara
no regresso ao fim da tarde, sem saber a dimensão do seu coturno,
mas provavelmente baixo, sob longas vestes de pronto a vestir
o proscénio de um vastíssimo teatro periférico,

ai de ti,  se desprezas neste tempo o corifeu!
não te prendas ao destino,
a vida que traçaste, só por isso, aconteceu

Em Édipo me ceguei, tão custoso foi de ver esta luz intermitente
do néon, e caminhei tacteando as árvores plantadas pela junta
de freguesia em véspera de eleições, sem que Antígona me guiasse
por esta alameda das linhas de torres enormes,

ai de mim se desprezo neste tempo o mensageiro!
se não fujo ao destino,
é porque a vida que tracei foi por inteiro

Nenhum oráculo me disse que o sonho desta pólis
se desfaz em fumo poluente e, por mais bancos que se abram
nas esquinas, pagarei em vida e não em dracmas o preço
de um trajecto simulado na rotina, de mãos nos bolsos,
à espera  que o autocarro dê a volta pela ágora vazia,

ai de ti se não entras neste drama
e desprezas as leis desta cidade
no regresso ao fim da tarde que te trama.


(inédito)


A poesia é caríssima

A poesia é caríssima, custa muito aos pedintes,
a mendigar junto ao semáforo, traje a rigor,
por dois livros de versos ganham vintes:
«- Ainda ontem tomei um copo de leite
e uma bola de Berlim, qual Belarmino na ressaca,
e não soquei ninguém neste boxe da palavra,
nesta queda no tapete a preto e branco»

Tanto verso, às vezes curto, a euro e meio,
tanta sílaba dividida pelos cêntimos!
Vendem os poetas versos livres
ou as métricas saídas do paleio
onde se finge a dor que não se sente,
se fere a angústia e fecha o cerco ao sentimento
de Pessoas ao dispor de toda a gente

(e digo isto porque tenho lido coisas!...
ai, meu Deus, que parecem ser mesmo verdade,
se calhar um poeta nunca mente.)

E a cruz arrastada do leitor que penetra na leitura
interrompendo a noite, ouvindo Debussy,
decifrando versos durante as horas lisas,
folheando rimas, a surpresa dos conceitos,
sem saber que aquelas letras feitas de água
dão muita despesa, uma grande trabalheira,
e muito estudo, enquanto a noite dura?

Tantos anos de palavras e de jogos,
tantas luzes sentadas na cadeira, na ferrugem das manhãs,
no comércio do mote que os guia!

E se a sátira se estende na lombada do livro curto,
ou da antologia volumosa, (oh, senhores, de meia vida?!)
juntai metáforas, lede Camões que é bom e é barato,
ride-vos d’ O’Neill que não perdoa graças, sofre a sorrir.

Mas, por quem sois, se arrumais carros nas pracetas,
não entreis na versalhada ao desbarato, é tempo de ir
comprar poemas avulso para os bolsos.
No entanto, comprai poucos,
podeis crer que as letras não são tretas
andamos todos é a ler-nos uns aos outros.

(in Livro de Reclamações, 2010)





Foto: © de Amadeu Baptista


António Ferra nasceu no Porto, em 1947. As suas primeiras publicações situam-se nas áreas da pedagogia e da literatura para crianças, especialmente teatro, em que é autor premiado. No campo da ficção escreveu Crónica dos Novos Feitos da Guiné e narrativas curtas, como O Vermelho e o Negro, Olhar o Silêncio, Água e Fogo e Silêncios Comprados. Em 2002 publicou o seu primeiro livro de Poesia, Com a Cidade no Corpo, e em 2006, A Palavra Passe. Em 2009, experimentou a prosa poética com A Estação Suspensa e em 2011, Marias Pardas. Mantém, desde sempre actividade como artista plástico, em articulação possível com o trabalho de escrita.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Um poema para Sophia


Sophia por Arpad Szenes



PRAIA DA GRANJA

Pelo que quer que seja a exaltação habito aqui,
nesta casa de sete janelas,
com uma pequena porta e uma varanda verde.

A praia incendeia-me os olhos,
e chamo, chamo à mulher espiral do mundo.

Toco com um dedo o muro branco e acrescento
ao entendimento ervas amargas, animais solares
e obscuros, um antigo instrumento de trabalho,
o búzio, o barco, o arado,
um ramo de salgueiro, esta pedra incisiva,
uma maçã vermelha.

Guardo no coração uma voz que vai de lugar em lugar
a interrogar as sombras
e no poema murmura o poder das cintilações
sobre a cânfora,
a hortelã,
os figos,
o encantamento,
a cabeça da víbora.

A extensão desta casa é a dimensão desta praia
divina sobre as águas,
tal como é divina a mulher que me acompanha
e a quem chamo espiral do mundo
por ter criado um sortilégio assim,
uma casa grega,
branca,
nítida,
com sete janelas,
uma pequena porta e uma varanda verde
sobre o mar.

(in A Sohpia, Editorial Caminho, 2007)


Fotos: © de Amadeu Baptista


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um poema disperso

NOTAÇÕES PARA UM CALENDÁRIO PERPÉTUO

o que abala o vapor que passa, a sulcar as águas?
aquele que vai sonhando com a escuridão, como li em pavese (sognando il buio)?
outra dor mortal, que se fixou entre a décima e a décima-primeira vértebra?
alguma coisa que se perdeu nos confins da infância,
ou nos confins da infância dos nossos filhos?   
este rumor que oscila no forro da casa e não sabemos
de onde veio, quem é e para onde vai?
a cor que nunca saberemos definir muito bem, a cor
que domina, entre o esmeralda e o negro asa-de-corvo?
o fim do mundo, sempre tão próximo e temido, ó contemporâneos?
o juízo final?
a certeza de não haver qualquer certeza, de djerba a padron?
o óbito que o médico há anos assinou no hospital de santa maria, de um homem
que jazia a meus pés quando se pensou que a minha nevrite era um ataque cardíaco?
a sábia mulher das castanhas, tão magra, que um dia me ofereceu num cartucho
a recordação do outono de 89 para toda a vida?
a fotografia da casa de espinho, com o cemitério em frente, que ángeles afirmou
ter visitado certa noite de luar?
a brigada da polícia que a mulher chamou certa vez porque num acesso de cólera
o homem partiu a sala toda?
outra dor mental, entre o hemisfério direito e o hemisfério esquerdo?
o flagelo dos mais pobres?
a morte da avó, a instalar em mim, definitivamente,
a vacilação, o medo, o fascínio?
o segredo inviolável da carta lacrada (lacre azul) poisada na base do vaso (vaso vermelho) de avenca?
o pássaro imóvel, que canta, circunstancialmente?
o sorriso de cândida, quando me pergunta se quero dançar?
certas rochas magmáticas, que a aliança com o vento solidifica?
o som do corne inglês, a ressonância do cravo, o sortilégio da anta?
a vigília do estore, que ninguém quer ver fechado?
a esconsa janela da taberna, através da qual se observa a claridade embriagada?
todas as sombras de santo stefano belbo?
a fita de cetim que com estrondo esvoaça na rua, quando não passa ninguém?
o ciclista que vai em último lugar na classificação geral mas irá envergar a camisola amarela antes do final da etapa?
o feitiço que o anúncio da rádio afirma ser irreversível ?
a feiticeira de que me falou alfredo na corunha  (se tu falas galaico-português
a minha pátria é a língua galaico-portuguesa, embora portuguesmente me sinta irlandês,
de dublin ou de belfast) e que por ser galega dá pelo nome de meiga?
a informação de capital importância a que ninguém prestou a mínima atenção
e  não é, afinal, de capital importância?
o papel de parede do primeiro andar do número setenta e oito
da rua do monte de judeus no dia 6 de maio de mil novecentos e cinquenta e três      
como apontamento  autobiográfico?
teotihuacan, silves ou florença, em finais da década de setenta?
a memória fotográfica de verónica?
determinadas somas e outras subtracções que se fizeram num guardanapo de papel
como quem escreve um poema (uma arte poética?)?
o último bilhete de eléctrico do ruy belo guardado entre um livro de carlos de oliveira?
a mulher da noite de madrid?
a outra mulher de madrid que observei a comer batatas fritas
perto do museu do prado (goya)?
conímbriga, que sempre visitei quando ia com os meninos a riachos,
chamando-lhes o olhar para determinadas ossadas que lá estão e tenho a certeza
de que são as minhas?  
a noite que acaba de cair no marão e abraça a montanha com a hesitação
de um primeiro nevão?
o tâmega, de que amadeo pintou certo recôndito lugar?
o guarda florestal que acabou agora de acender o cachimbo para poder ter
um incêndio – embora pequeno – para vigiar?
o ar circunspecto com que ele puxa a primeira fumaça e acompanha no livro
o mais obscuro herói de emílio salgari?
o quase imperceptível assobio da brisa nas conchas espalhadas no areal da tarde?
a sereníssima república de veneza, que para surpresa minha nunca visitei
(murano fica perto?)?
esta dupla interrogação supracitada?
o flagelo dos mais pobres?
a crónica falta de cigarros (três da manhã!), obviamente a desoras?
os alazões que me cavalgaram a ansiedade, a pretexto de uma ideia que não quero
agora explorar, e são vermelhos (gauguin) e vão à desfilada pela praia?
a palmeira de tânger, que não tendo visto nunca estou a ver aqui?
dois triângulos escalenos desenhados a giz por um dos heterónimos de pessoa
(ricardo reis, no ano da morte?) no cais das colunas
e que alguma chuva e muito anonimato deixou esquecidos sob a luz das gaivotas?
o oráculo de delfos, que estabeleceu o choro de uma mulher muçulmana
em alcácer do sal,
em dois mil e doze da nossa era (ano da minha morte?)?
esta segunda dupla interrogação supracitada?
o pingo de cera que derreteu no braço beneficiando a imagem impressa sob a pele?
o volkswagen branco matrícula hg-63-24 que estacionou numa página de pedro tamen
e a intertextualidade mandou parar aqui?
o omisso incidente entre a rapariga cigana, núria, e zé manel, carpinteiro-de-limpos,
que a ponta de uma faca sujou para a eternidade?
um dos barcos que atravessa o rio e transporta um vulto para a outra margem
(um lacrau?) ( uma predestinação?)?
esta terceira dupla interrogação supracitada?
a eternidade ela-mesma, diáfana e irreal?
o poço onde ela cai?
o rosto perplexo que lá em baixo brilha?
o coração cansado que nesse brilho mora?
o fluxo do vapor que passa e abala as águas,
encerrando assim o círculo, escarlate?  




( in Inútil, nº. 2, Lisboa, Abril, 2010)




Foto: © de Amadeu Baptista