quarta-feira, 6 de julho de 2011

A adolescência / 2


Nicolas Poussin, A Fuga para o Egipto,1657,
 óleo s/ tela, 97 x 133 cms, Museu das Belas-Artes de Lyon





MIL NOVECENTOS E SESSENTA E SETE

Maria é a mulher de José,
o carpinteiro.

A cobiça divina
não é, também, cobiça?

Será que este Deus
usa o manto intratável do real
para redenção e resgate?

Ou quer-nos fazer querer
que de uma relação ilícita,
condenada por decreto,
pode nascer a luz?

Amo em Jesus o engano
de que nasceu.

E mais não amo, além
de O ver sorrir
quando eu me engano.



(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009) 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Iannos Ritsos


Um poema de Iannos Ritsos

OPERÁRIO DA PALAVRA








    Trabalhou toda a vida duramente, sem pretextos,


com ardor, com exaltação, quase com fé na imortalidade


e sem dúvida na sua imortalidade. Até que uma noite


de súbito soprou o vento. Soou sozinha a porta.

Via as estátuas cair de boca para baixo. Deu-se conta.


As palavras que tinham escrito assim calorosas, anos e anos,


petrificaram; sentiu-as sob os dedos

como a seca e neutral pele de um animal morto.



    No dia seguinte, no entanto, prosseguiu regularmente o seu trabalho


e chegou a confundir imortalidade com mortalidade,


trabalho, embriaguez e esquecimento,

mas distinguiu com exactidão o que é o trabalho


do que é vaidade e orgulho. E o toque


do relógio tinha o som de um tambor dentro da noite


dando ritmo à marcha de sonolentos soldados


entre duas batalhas.


Versão minha - © Amadeu Baptista



Iannos Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi internado em vários campos de reabilitação. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis e Odysseus Elytis, é considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Faleceu a 11 de Novembro de 1990.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Maria Callas

A adolescência / 1


MIL NOVECENTOS E SESSENTA E SEIS

Faço isto à varejeira, O´Neill:

apanho-a com uma pinça,
ato-lhe a uma pata uma linha,
a que prendo, na ponta,
um papel
colorido.

Depois, deixo-a fugir,
contente pelo papel ir intrigar
quem não sabe de tamanha crueldade
e por um voo assim ter alguma consonância
com o desvão das nuvens.



(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista

domingo, 3 de julho de 2011

Eu, na infância / 12




MIL NOVECENTOS E SESSENTA E CINCO



No ano de 1965

estou a ler Dostoievski

e os grandes mestres russos

e começo a perceber

que não há uma só Sibéria

ou uma única guerra colonial que nos ameaça.



O Zé está de partida

nas Devesas para o barco

que o há-de levar a Moçambique

e o ar da estação devassado

por lágrimas e gritos.



Entre a multidão

que se atravessa à frente

do comboio para prolongar o último adeus,

a última despedida,

encontro-me eu,

pequeno na desgraça,

em busca de auxílio.



Alguém que passa,

ao ver o meu terror,

pergunta-me de onde sou.



E eu,

com um soluço imenso preso na garganta,

respondo que dali,


é dali mesmo que sou.




(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)

 

Foto: © de Amadeu Baptista

sábado, 2 de julho de 2011

Eu, na infância / 11


MIL NOVECENTOS E SESSENTA E QUATRO

Um animal, na linha de ruptura,
sobre esta memória que golpeia
sempre que compulso os livros velhos,
a arquitectura fascinada.

Brincava com o ganso,
ainda bebé,
no chão vermelho e rápido,
sob o alpendre.

Das rosas não sabia,
mas sobre as roseiras
era como um vedor,
a rosnar-lhes,
a espetar as orelhas
e a brandir a cauda.

Ainda eu vinha longe
e já lá estava,
à porta,
como num empreendimento de adivinhação
para fazer a festa,
a única festa verdadeira.

A uma voz deitava-se,
dava a pata,
fazia-se de morto,
igual ao desenho do jornal,
e, nisso usando,
portanto,
o mesmo nome arisco,
corisco.

Nada encontrei de mais leal,
de mais fiel,
entre os da sua espécie
ou da minha.

Um automóvel apanhou-o,
a poucos metros
das grades da casa.

Veio a rastejar,
pata após pata,
até que encontrou
a minha voz e os meus pés
e revirou os olhos,
com um fio de sangue a escorrer-lhe
do focinho.

Se teve alma
e houver céu,

é no céu que está a sua alma.



(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista



sexta-feira, 1 de julho de 2011

Eu, na infância / 10


MIL NOVECENTOS E SESSENTA E DOIS

Tenho as mãos roxas de frio
quando vou para a escola.

Tenho sempre as mãos roxas de frio
quando vou para a escola,
mesmo que não esteja frio.

Aqui não aprendo a ser fonte,
arroio,
queda de água.

Aqui não aprendo a ser trompete,
arco de violino,
tambor.

Aqui não aprendo a ser libelinha,
castor,
guarda-rios.

O que aprendo aqui
é o peso e a medida da indiferença,
o escrutínio de uma falsa aritmética
que não faz distinção entre os mortos
e os vivos,
ou os corações que transitam de sala em sala
e de corredor em corredor
para ampliar, ainda mais, o túnel.

O que aprendo aqui
é o medo, sem mais.

Tenho as mãos roxas de frio
e nada sei do azul,
nada sei das luzes rastejantes,
das luzes transcendentes.

Onde o mestre
que seja efectivamente grego ou fenício
e vá comigo a caminho de Elêusis
e do brilho?

Aqui só vejo crianças a chorar,
crianças em quem batem com ponteiros
e réguas,
crianças com as mãos roxas pelo frio
circundante.

Alguém me diz
que o bem se não mede em decilitros
e que a raiz quadrada da angústia
é exponencialmente um derrame cerebral
quando não houver mais triunfo
sobre os invencíveis?

Alguém me diz que este fumo leve
que vem das árvores é mais que a respiração das árvores
e a clorofila pertence a uma indisciplina benigna
que é preciso seguir?

Desta escola só gosto mesmo é das sandes de fiambre,
da mulher que as vende,
e dos cantos sombrios.

Estou à superfície e quero,
quero muito,
submergir na fogueira,
submergir na música,
submergir no frio que me põe as mãos roxas
e despedaça as unhas,
tecidas de esferas fascinantes.



(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista