sábado, 18 de junho de 2011

El Greco



DOMENIKOS THEOTOKOPOULOS, EL GRECO: LAOCOONTE (1614)

Tudo o que me perturba
permanece

  cavalos degolados,
archeiros nas seteiras,
casas que desabam, com fragor.

De rastos,
progrido sempre em frente
e vejo tudo em volta num incêndio
incomensurável,

a roda da azenha,
o mercado,
a igreja,

o mar.

Há um momento
em que penso em abalar,
mas nada faço.

Deus,
se existir,
há-de pagar-me
os Cristos que pintei,
os retratos canónicos dos apóstolos
sempre em êxtase,
as línguas de fogo nas cabeças.

Bem-aventurados os que louvam,
digo eu,

e sobre as nuvens
pinto a pomba e o cordeiro,
as sombras dos mistérios,
as ressurreições.

Sempre que posso apelo à inteligência,
mas esta é uma época de fogueiras,

e raramente há tréguas
no repto da vingança.

E, em sonhos,
volto à Grécia

onde toda a espiritualidade
teve início,
pelo extraordinário
que há na natureza
quando as árvores se convertem
em puro engenho.

Eis como pinto:

ponho-me descalço em frente à tela
e oro,

a distender as cores para que o céu
translade esta fogueira que em mim cresce
para outra elevação,
outra proximidade do divino.

Para alcançar a glória
busco em mim
a nuvem branca,
a murta,
a cinza

e amplio a esperança
que entre o ignóbil e o abjecto
emerge dos meus contemporâneos

como delito grave, ofensa, transgressão.

E eis que Apolo vem condenar Laocoonte
por transgredir,
e, ao fundo, é Tróia que se vê,
e é Toledo
e todas as figuras são espectros:

Apolo e Artemisa,
Poseidon e Cassandra,
Páris e Helena,
Adão e Eva,

porque só Deus ordena

e só Deus castiga.

Fosse eu humilde e prostrar-me-ia
perante a vela que ilumina,

mas eu sou só um prevaricador
que usa do talento para crescer
e poder defender-se da fogueira.

S. Pedro chora de arrependimento
mas eu, pelo remorso,
diminuo-me,

ampliando a dor e a penitência,
olhando o céu
e suplicando que não seja este o nosso cálice
na estrada negra.

Mas é sempre negra a nossa estrada,
e Laocoonte
não pode usar a lança
para que se salve Tróia,

e não podem os homens esperar
senão o que lhes é prescrito
no rumo do destino,

sendo que o destino é sempre a morte
– e tudo o que me perturba permanece.

Parado, o movimento.

Aqui, onde as torres contrastam com a aurora
e a terra ferve,

sinto que o meu incêndio se aproxima:

em bom senso, juízo e natural entendimento

recebo das alturas esta doença
e acolho a morte.

Não faço testamento,

sei bem como a piedade
nos recusa os últimos pedidos
e o que arde não pode ressarcir-se
dos desígnios,

e a potestade,
atenta,

me há-de conhecer pelo indigno
que fiz
e não pelo que de mim possa deixar.

Se sei o que é a paz?

A exumação da fala nada sabe,
embora saiba o que contemplei
e a devoção
que em tudo pus.

Perder-me-ia em Veneza
se fosse esse o trato,

mas só incorporei à noite
um brilho obscuro

e relatei a dor de quem,
humanamente,
não tem como ultrapassar o fogo da vontade humana,

como ensina Plutarco
e Ariosto,

e tantas vezes me disse Paravicino,

o frade que, num retrato,
pus a sorrir-me
e escreveu sonetos a elogiar-me,
a mim,
que não sei de outro elogio
do que amar a Deus

e pintar.

A paz?

Eu penso que a paz
são os ritos consumados
e esse misto de ternura e de pássaro
que vejo,
às vezes,
nas crianças.

Mas o que são as crianças,
tantas vezes cruéis,
bravias e atrozes

quando as vejo?

A paz, presumo, sou eu mesmo,

a querer fugir do fogo,
a amontoar,
em pinceladas leves,
a narração do terrível
e do êxtase

que devo à cruz,
às cores
e à minha arte.

Do mais, mais nada sei.

Se morrer esta noite,
morro em paz.


(in Doze Cantos do Mundo, Sintra, Edição CM Sintra, 2009)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

De Ítaca ou de Tróia





Talvez porque tenha o andamento de Ítaca ou de Tróia

tenho posto casa ao mal, para meu dessassossego.

Mas quando me perguntam se sou nau ou cavalo

sempre me fico a confrontar a tormenta. Talvez seja



o que o destino me reserva. Por isso, nem sequer me desaprovo,

embora o coração abdique muitas vezes

e raramente saiba onde estou. De Ítaca ou de Tróia

sei que sou. E assim é que avanço, a tomar encruzilhadas



como força de temperamento e de resgate

do que vou sendo, mesmo sem que o seja.

É miserável destino este que tenho,



mas é o meu, cabendo-me em sorte

ser cavalo que naufraga e nau que corre

à frente de mim mesmo sem que me aviste.


(in Ítaca, n.º 3, Lisboa, 2011)

Lançamento da revista Ítaca # 3



Agenda: Hoje, Sexta-feira, 17 de Junho, 18.30 h. Local: Livraria Bulhosa, Entrecampos, 10 b, Lisboa


A apresentação estará a cargo de Vasco Graça Moura

O Outro Lado das Nuvens / 8







quinta-feira, 16 de junho de 2011

William Blake


WILLIAM BLAKE: NIGHT THOUGHTS (1797)

(para Nuno Dempster)                                  

Não há síntese,

mas só mundos paralelos
onde a graça e a desgraça
se encontram
para delimitar o inferno
e o acrescentarem

com a essência e o erro,
a tontura e o desequilíbrio.

Por isso, a minha vida é isto:

trabalhar com as mãos,
amalgamar na boca as cores da ferrugem
e descrer nos triângulos de ouro
da omnipotência:

Deus, a existir, é uma convergência
de patifarias,
com predicados de morte nos cabelos
e os olhos cegos à miséria
que em nome do homem reproduz.

Por isso, ilustro os meus cadernos
com sóis antigos,
adubos incomuns
– e ponho nos meus sonhos

os fantasmas,
a imagem de uma pulga,
com o seu perfil
ausente e circunspecto,
porque assim se faz a perenidade
e, até agora,
nenhuma linguagem foi criada
para tanta inocência.

A norte sobrevivo,
com a neve a queimar-me o coração
e os anjos sobre as árvores:

os anjos negros de que as visões
se iluminam
e de que o meu choro se expande
em cântico e oferenda
para que Urizen e Ahania
respirem,
ainda que ofegantes,
sobre a página.

Ilustro a profecia
e sou, na terra,
também eu profeta,
fazendo dos azuis e dos vermelhos
horas nocturnas,
sensíveis sagrações,
golpes de chumbo
na intensidade
com que entre nós e os mortos
o provir se estabelece,

e o que é divino recupera
do rosto numeroso da horda
do momento.

O mundo é isto:

Satã a observar Adão e Eva,
o círculo da luxúria,
as canções de inocência,
Bathsheba no banho,

e o rastro de sangue
do exílio
em que reconheço os meus contemporâneos
a subverter a agonia,
sempre sitiados pelo nojo
e a insânia.

O que mais amo é o meu temor
perante as lanças,
o doce anjo,
o tigre:

e as minhas lágrimas secam
nesse páramo,
onde, após o deserto,
só o deserto perfaz a casa,
a minha casa sob o firmamento.

De onde vim
só vi devoração

– tenho nos ombros os sinais dos ferros,
e os meus olhos cegaram pela insídia
com que outros olhos me viram
ao passar;

e ensurdeceu o meu ouvido,
e perdi o olfacto,
e, às minhas mãos,
chegou a febre
de Job,
a febre da ignomínia.

Tigre, meu tigre,
no bosque cintilante
a tua simetria
perdura além dos séculos,

enquanto os astros lançam os seus dardos
para que subsistas na floresta nocturna
e eu te reconheça como único aliado.

E assim volto às chamas do desígnio,
e canto,
e pinto:

porque sei bem que não tenho nome.

O mundo é isto:
cristal fundido e baba
de que os cavalos se afastam
para que a serena viagem tenha início.

E ri o ar,
e ri a floresta

– e ri a verde colina
e a sombra dos pássaros,

e a nossa estridência é como uma fábula
onde só há crianças,
e pão,
e corvos sobre as águas.

Não odeio ninguém.

Sobre a pobreza
juro
fidelidade à terra,
este lugar de sonhos ancorados
e hinos a exaltar
o pastor,
a vigília,

o leite e o mel.

E, pela minha morte,
conjugarei o silêncio profundo,
Sísifo no espelho
e o arco-íris:

topázio,
ocre,
azul fumo,
índigo,

branco de zinco,
verde absoluto,

vermelho
arenisco,

mínio,
cinábrio,
rosa violáceo

e negro,
negro como o infinito espaço.

Não há síntese:

mas só mundos paralelos
onde os animais rastejam,

que eu vi a pomba e o vi o sacrifício,
a pedra e o punhal –

e o poder do galope,
e os cavalos como cristais nas árvores.

O que mais amo é o meu temor
das lanças:

as anilinas fervem nessa febre,
penetram-me os ossos,
fundem-se ao meu corpo,
pulsam no meu crânio

e do leve fascínio
sei que o meu nome
é o nome de um foragido ou um proscrito,
que avança sempre em frente,
em linha recta,
em círculos,

até que, numa vitória rasa,
a terra ganha
e à morte outra morte se sucede.

Não odeio ninguém:
ponho nos meus sonhos os fantasmas,
a imagem de uma pulga,

– eu, que incerto e ágil,
sou como o tigre
que uma mão imortal
aproximou
do lugar dos segredos
e da vida.

E assim volto às chamas do desígnio,

e canto,
e pinto.


(in Doze Cantos do Mundo, Sintra, Edição CMSintra, 2009)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vermeer


VERMEER: A RAPARIGA COM CHAPÉU VERMELHO (1666-1667)

Os espelhos têm a profundidade
da água,

Delft é o silêncio profundo
da minúcia,

aqui procuro nos detalhes
o que a morte
transmite ao sublime,

as suas minudências aflitivas
onde o tempo declina
e, de encomenda em encomenda,
transijo para sobreviver.

Que pode um génio
perante quem tem a fome
por herança?

Que posso eu fazer
com as humildes tintas,
senão reter o quotidiano
das mulheres,

esta que lê,
esta que estende os fios,
esta que serve o leite
e coroa o pão,

sendo que Delft
não é a transparência
a que aspiro

e eu só sei da beleza,
e pouco mais?

A luz, esta doçura
acuada pelas salas,
é, talvez, o que me faz exprimir,
lenta e eficazmente.

Porque o mais é só saturação
de ruído,
os barcos no canal

como asas
de um voo precário,
ou um meio de transportar no ventre
a míngua
– e nada mais.

Sei bem porque assim falo:

vendo por comida o meu labor
e vejo como é com subtil escárnio
que pagam por um quadro

uma porção de hortaliça
e alguma carne
que mate a fome aos meus,

enquanto tento
que o magnífico seja
a minha soberania,
a minha arte,
ainda que os brilhos pouco brilhem
e contenha a raiva

sob a calma aparente dos meus quadros.

Às vezes,
não parece:

mas sou um ser
acossado,
transido por insónias
e ansioso
pelo resultado das vendas
no mercado,

as telas que produzo
e que, não tendo preço,
me obrigam a vender por pouca coisa

e, mais do que um trabalho,
são o firmamento da casa,
a decantação da surpresa,
o perfume da lã e a cor do linho,

enquanto seja seda o que se vê
e mapas na parede,
como que a representar a alegoria
do fausto na pobreza.

Uso profusamente o amarelo
e o azul,
o mais são velaturas,
minúcias,
pormenores da atenção
sobre o real,

que não posso descrever como real,
mas como a prosperidade enérgica
dos sovinas
que emprestam com juros

e, da sordidez da luxúria,
retiram o prazer absoluto,
muito em segredo,

para que se lhes não desdourem
os negócios

e as esposas os possam suportar.

Sou um ser acossado:

o que as mulheres lêem nos meus quadros
é o que me vai no pensamento
e tenho que ocultar,

prisioneiro da infâmia deste tempo
em que os hipócritas se salvam,
ainda que não tenham salvação.

Plácido,
pacífico,
teço a harmonia dos meus traços,
que só eu sei sem harmonia alguma,

sendo que sou um homem recatado
sem recato,
um homem perseguido pela miséria,
um homem com residência fixa
sobre um pântano.

Sim, amo a beleza:

a tranquila claridade de um ombro
ou de uma boca,
a convergir na tela,
para o deslumbramento.

Adoro
estes sinais de serenidade,
a equanimidade
do que é eterno
e dura um só instante,
a reluzir num brinco,
a resplandecer nuns lábios,
a cintilar nos olhos.

Porque a vida, eu sei,
é só instantes.

Ou não a vida,
mas o que dela vale
preservar
para que a luminosidade
se expanda e permaneça
quando, a sós com o que pinto,
usufruo do indemonstrável,
do secreto.

Eis o assombro:

acaricio o silêncio
sabendo como,
para além do silêncio,
há uma boca inconsolável
que só eu conheço,
por mais panejamentos e adornos
que a abranjam,

esta tapeçaria bordada a ouro
ou um gorro branco.

E essa boca é a minha boca,

paciente,
impaciente,
apaziguada.

Não sei o que é a luz
quando não há luz,

eu poucas coisas sei.

Mas sei que vivo
a poder de instantes
e que são as minhas mãos uma água simples:

nomeio num sussurro o anil
do entardecer,
este sossego de ancas de veludo,
as sombras pelo tecto,
as colchas de damasco,
esta cadeira de espaldar,
esta mulher soberba e orgulhosa
do chapéu adornado por penas escarlates

e sei como a minha fúria
se amansa
pelo modo como a vejo
e dela me despeço
representando-a assim

parada e em movimento
sobre o tempo.


(in Doze Cantos do Mundo, Sintra Edição CMSintra, 2009)