sexta-feira, 3 de junho de 2011

As Cores Incorrigíveis / 1

para Jorge Velhote









Eu, na infância / 3




MIL NOVECENTOS E CINQUENTA E QUATRO

Reconheço, desde já,
que sou tenro
e tenho sede.

Quando me convidarem para jogar
à cabra-cega,
protejam-me no caminho
entre o açougue
e a cisterna.

De um tenho temor às facas,
sempre afiadas.

Do outro,
da esponja de vinagre.

De ambos,

o milagre
da ressurreição.


(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2008)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Eu, na infância / 2





MIL NOVECENTOS E CINQUENTA E TRÊS

Logo no primeiro ano
estou só
e não me consigo manter de pé.

Se suspeitasse sequer
que iria ser assim para toda a vida
não me riria

com estas gargalhadas
cristalinas.


(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2008)

O Elogio da Luz / 2

para Lia Branco







quarta-feira, 1 de junho de 2011

Eu, na infância / 1

A propósito do Dia Mundial da Criança, um poema:




MIL NOVECENTOS E SESSENTA E UM

Aprendo a ler e a escrever.

O tê tem uma haste coruscante.

O éle é o ramo de cerejeira,
que ainda não está florido,
completamente estendido para o inverno.

O éme é um movimento rudimentar,
lento na cabeça e na boca,
justo como uma aflição.

O agá é todo um mistério de vida,
um mestre do disfarce,
e lembra, apesar de tudo, uma chávena de café
fumegante.

O cê é como um peixe,
muito diferente do cê de cedilha
que é, também, um peixe, mas de outra dimensão,
um peixe que habita as grandes fossas oceânicas
e reluz no escuro.

O xis, continua a ser uma incógnita,
como um terceiro incluído na agitação
do mundo.

O éne, faz cócegas.

O i é termos ido ontem jantar fora e eu ter gritado alto
por ter visto uma máscara grega.

O ésse é uma bola de sabão.

O pê pouca importância tem, há mesmo quem o não use
quando escreve o meu apelido,
mas, ainda assim, é de uma presença avassaladora.

O érre, claro, é um enxame de abelhas
que produz mel e cera
para nosso contentamento.

Aprendo a ler e a escrever,
quer dizer,
aprendo a sentir com mais força
a desobediência.


(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2008)

Essas Crianças / 1

A propósito do Dia Mundial da Criança, uma fotografia








António Ramos Rosa



António Ramos Rosa - Exposição 'Rostos da Escrita'

Inauguração: 7 de Junho, 15.00h - 19.30 h

Agenda: de 7 a 28 de Junho de 2011; de 2.ª a 6ª, das 10h. às 18h.
Local: Instituto de Ciências Sociais - UL; Rua Professor Aníbal Bettencourt, n,º 9 - Lisboa