domingo, 22 de maio de 2011

O Outro Lado das Nuvens / 5




Zoo Musical, 2010



Farto de tocar o sino
por uma ou duas moedas
o elefante Renato
teve uma ideia brilhante.

Reuniu os animais
e apresentou a proposta
de entre todos formarem
uma orquestra janota.

Tratava-se, segundo ele,
de alegrar o zoológico.
Considerava que, assim,
quem os fosse visitar,

teria motivos óbvios
para melhor desfrutar
o passeio que fizesse:
via os bichos do jardim

e tinha a oportunidade
de poder usufruir
de momentos agradáveis
com a música que fizessem.

(in Zoo Musical, Vila Nova de Gaia, Calendário das Letras, 2010)

Ilustrações de Ana Biscaia



sábado, 21 de maio de 2011

Divina Música, 2009 (Organização de Antologia)




Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música é uma edição comemorativa do 25.º Aniversário do Conservatório Regional de Música José de Azerêdo Perdigão, de Viseu, que organizei em 2009.

Colaboradores: Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andresen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.





Quatro poemas da Antologia:


ANTÓNIO CABRITA

DESCOBERTA DE MOZART

Conduzo um chapa, não gramo games
ao volante, vou a magicar palavras
que ouço e desbobino – be-gó-nia
era a cena do dia, ouvida a uma tuga
morena, que pedia visto na migração.

Begónia, tipo e formato, material,
a cor, a medida, deve ser coisa
pra caber numa gaiola,
begónia, sabe a chuchas ao domingo,
se calhar come-se, a curiosidade

é o que mata o rato, e nesse dia o chapa
aumentara de 5 mil pra 7 e meio e calhava
estar out ao bazé do people, cansa
não ter desculpa e ir na onda
do mau-trato, que xinguem o Guebuza,

vota-se sempre em quem engorda,
quem acredita no que escangalha o corpo
a lutar contra a miséria? Begónia,
se calha é peixe, e vai de escama até
ao pescoço, e meto a rádio, gosto

de cismar uma coisa de cada vez,
se vem ao cardume desatino, é preciso
descampar o juízo quando as árvores
levantam voo, só china é que não gosta,

ou pitinho de dama já morta.
Na Malhangalene entrou um branco
que sentou ao lado, a perna encostava
à mudança, não gramo de ter de forçar
prá terceira, mas chateava era ir na dele,

de headphones, a descurtir o som. Desatei
a picar, ‘patrão, não gosta de música de preto?’
E ele fininho ‘prefiro Mozart!’. Mozart,
era ainda mais esquisito que begónia,
e antes que ele se pisgasse, pedi, ‘deixa

ouvir’ e ele pôs-me os auscultadores na cabeça,
a meio da carreira, a meio de uma cena qualquer,
pois passei ao fundo do mar. Conduzia
por entre algas gigantes e corais relinchavam
à passagem, disto sei que sou do Bazaruto.

A água parecia nascida da nuca e vazava
no meu olho uma claridade muito marada.
Aquele mundo sem músculos era para
alguém pensar que se tratava de um sonho?
Foi aí que bati e parti dos dentes ao sobressalto.







DANIEL ABRUNHEIRO

MÚSICA QUE VEIO DE NOITE

                                                 Casa, Souto, madrugada de 20 de Janeiro de 2009

Vim trabalhar para a música e ainda não voltei a casa.
Uma pessoa perde-se, o que não falta é bosque:
madeiras e sopros, lobos escuros como notas na neve pautada.

Agora não sei como hei-de fazer, embora saiba o que.
Às sete da manhã, vou ali ao café, há pacotes pequenos
de bolacha-baunilha, a malta reúne-se lá a discutir a última
jornada e as estrofes mais recentes do nosso mundo e o que
veio de noite enquanto as mulheres dormiam.

O problema é que depois
se vai tudo embora nos respectivos camiões,
tenho de voltar sozinho para o bosque, sopros nas madeiras,
passaritos de apogiatura tilintam no cimo dos cedros,
a mulher-da-erva sente-se através,
não tenho fósforos, tenho pó de café, tenho cafeteira e tenho lenha,
mas esqueci-me de comprar fósforos no café para o café.

A meio do concerto, não dá para telefonar, os músicos irritam-se,
há que respeitar os músicos por dentro, eles tocam dentro,
se uma pessoa prestar atenção acaba por não pensar tanto em casa,
consegue suportar a manhã, o gelo que vitrifica a respiração,
o vago pânico de ter vindo trabalhar por conta das sereias.

À falta de fósforos, fuma-se vapor, o garruço descido aos olhos,
os pés de pedra na tumba das botas, as mãos estalando como galhos,
mas ainda assim dá para trautear aquela inclinação a verde,
o ponteiro do pinheiro que verga a verde na lividez do ar,
e não é preciso tirar um curso superior para se saber que perto
o ribeiro percute peixitos, breves, a compasso do que tenha
chovido.

Vim para a música ver se distingo de vez tristeza de graça.
A melancolia é apanágio das árvores, mas uma pessoa em bosque
acaba por lhes solfejar a íntima batida – todo o cuidado é mouco,
portanto.
Vejamos: isto é a tristeza, aquilo é a graça.
Nisto, o sino canta a meio caminho entre nós e um alegado Deus,
que, a existir, só existiu para Bach.
Vale-me que não tardam aí os madeireiros: clarinetistas quase todos.
Pode ser que um deles traga fósforos e o mapa de retorno a casa.







ISABEL CRISTINA PIRES

A ACEITAÇÃO DOS DIAS

Dá-se um rasgão no pálido do céu. Há dias
assim. Há dias em que sai pelo céu
uma ponta da alma. Há dias misteriosos
que entendemos, sem saber porquê.
Dias de imensa simplicidade em existir,
rosados, claros, incomensuráveis. De exercício
no abrir das labaredas. De aceitação
pura do branco. De permitir uma dança,
quebrada pelos rins, de todo o olhar. Do
esplendor radiado da invenção, em que flui
a lava do momento, a garra
cravada pelo dia. Mozart é
isso.







JORGE VELHOTE

O CONSERVATÓRIO DE MÚSICA
                                                
                                                 Se a barbárie não é visível do interior da teoria,
                                                 ela torna-se possível desde que nos situemos
                                                 num ponto de vista que lhe é exterior.
  
                                                                                               José Manuel Sobral

A luz expõe por dentro a ordem do caos
A abundância policroma dos sons desponta
Contra toda a claridade ou exaltação, deslumbra,
Enquanto contemplamos o enxame sonoro,
pendurando na paisagem escadas
para pomares ignorados,
O conflito abstracto que amplia
O desenho audível do mundo intriga e,
Na aridez, alicerça a energia limpa,
A infinita imagem
Insubmissa

Medido assim, o tempo perdura, encontra a eternidade
Espessamente visível, gravita no júbilo insistente, é
infindável a água que o chão absorve
exactamente, paira penitente no rigor
Com que o ar deriva incandescente
E desnudado
Fulge


O que persegue o ouvido na súplica indigente
O olhar cicatriza, vagaroso
A transferir fronteiras ou provisórias
Deduções, punge
A penúria do sentido, ou empolga
No espanto extremo da pobreza
Com que a dádiva celebra
Os vestígios da narração ausente,
se a boca fosse um íman,
Tépido sinal ou
Sopro táctil

O estudo avoluma então o que o pulso incerta
O que a nostalgia destaca ou isenta
do nome espesso da escuridão
Como fósforo meticuloso
Em sombra
Ou osso

Ascendem de timbres intensos
E pêndulos insondáveis,
Armadilham imagens, lugares lentos
Ou palavras silenciadas,
São como a luz sofrendo


No seu invisível a dor da sua
Sombra, erguendo sempre
A sujidade dos ruídos
Para o infinito
O alvo

Toca um pouquinho para mim
Enquanto não escrevo no vento as poucas
Palavras do meu epitáfio.



(in Divina Música Antologia de Poesia Sobre Música, org, de Amadeu Baptista, Viseu, Edição do Conservatório Regional de Música Dr. José de Azerêdo Perdigão, 2009)

Fotografias © de Amadeu Baptista

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Outro Lado das Nuvens / 4














O Sonhor do Elefante Tomé, 2009



(fragmento)

Mesmo o Palhaço José, que já tinha visto e ouvido muita coisa, estava perplexo. Um elefante azul? Só se fosse na letra de uma canção, para divertir a pequenada. E começou a improvisar:

                                   O cinzento é uma cor
                                   Que parece que não é.
                                   Também quero ser azul
                                   Como o Elefante Tomé.

            Quem parece não ter gostado muito da brincadeira foi o Director do Grande Circo Universal que, com os seus ruivos bigodes no ar, gritou:

              Silêncio! –  para logo acrescentar –  Não me parece que sejam horas de cantigas. E muito menos agora, quando temos um problema que pode influenciar negativamente a nossa comunidade.

            E perguntou: –  Alguém quer fazer uma sugestão?


(in O Sonho do Elefante Tomé, Porto, Trinta Por Uma Linha, 2009)


Ilustrações de Isabel da Rocha Leite

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Poética da Floresta / 1

para Nuno Dempster



Escalpe, 2009



(fragmento)

Nos meus e nos teus rins se acumulam
segredos desusados,
o real é um cúmulo de árvores e areais
desoladores,
visões devastadoras do silêncio,
espaços inaudíveis a sitiar-nos os ombros.

Mas nós, sendo sagrados, ardemos tanto
que sopesamos os ritmos da memória e os da terra,
ainda volúveis,
ainda corça e gamo,
ainda mensageiros.

Assim adormecemos.

Assim velo o teu sono com o meu sono,
assim velas o meu sono com o teu sono.

E são os nossos sonhos sonhos lúbricos,

e fluis suavemente pelos meus lábios,
e fluo suavemente pelos teus lábios.

Há uma seda sensual nos teus cabelos que apetece conhecer.

Os dedos deslizam nessas pequenas cascatas
que perseguimos,

e assim nos introduzimos no mistério.

A nossa maldição é o benefício
do fervor que mantemos entranhado
na carne,
desde o início.

(in Escalpe, Lisboa, & Etc, 2009)


Arte de António Ferra para Escalpe (desenhos do livro):