terça-feira, 3 de maio de 2011

Pedro Tamen


Pedro Tamen vence o Grande Prémio de Poesia APE/CTT – 2010


O júri constituído por Ana Marques Gastão, Fernando J. B. Martinho e Francisco Duarte Mangas, reunido na Sede da APE, decidiu, por maioria, atribuir o Grande Prémio de Poesia APE/CTT, edição de 2010, ao livro 'O Livro do Sapateiro', de Pedro Tamen (D. Quixote).
O Grande Prémio de Poesia, instituído em 1989 pela Associação Portuguesa de Escritores, é patrocinado pelo Correios de Portugal (CTT). 
A cerimónia de entrega do prémio será oportunamente divulgada.
Para Pedro Tamen, um caloroso abraço de parabéns!
Pedro Tamen nasceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1934. Licenciado em Direito, publicou os seus primeiros poemas nos «cadernos de cultura» Anteu, de que foi co-orientador e de que saíram apenas dois números, ambos editados em 1954. Pertenceu à direcção da Associação Portuguesa de Escritores entre 1973 e 1975. Foi presidente do PEN Clube Português entre 1987 e 1990 e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. É autor de inúmeras traduções para português, designadamente de Lautréamont, Proust, Breton, Foucault, Flaubert, etc…Tem a sua poesia reunida em ‘Tábua das Matérias’ (Círculo de Leitores, 1995). ‘O Livro do Sapateiro’ foi publicado em 2010, pela D. Quixote. Já em 2011 publicou, na mesma editora, ‘Um Teatro às Escuras’.


Clarice Lispector


Agenda: 4 de Maio, Livraria Leitura (Shopping Cidade do Porto, Bom Sucesso), pelas 18h30, terceira sessão do Colóquio Tinha Paixão? Participação de Pedro Almeida, Joana Matos Frias e José Caldas.

Viagens Alheias / 3


Paixão, 2003



APARECIMENTO DE CRISTO À VIRGEM

Não penses que morri por ter partido
ou que parti só por ter morrido.
Onde estive não estive e onde estou
não estive nunca. Não penses que me vês
só por me veres, ou que por não me veres
eu não existo. Nem penses que existo
se me vires, ou mesmo que existes
por me veres. Não penses que me amas
porque amas o que os teus sentidos
de mim sentem. Nem penses que me sentes
ou me amas só porque me sentiste e amaste.
Não somos nada e tudo somos sempre,
embora sempre eterna seja a eternidade
e a nossa eternidade não exista.



(in Paixão, Porto, Afrontamento, 2003)

Prémio Vítor Matos e Sá, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2001
Prémio Teixeira de Pascoaes, 2004

segunda-feira, 2 de maio de 2011

239.º Aniversário do Nascimento de Novalis



A poesia é o autêntico real absoluto.
Isto é o cerne da minha filosofia.
Quanto mais poético, mais verdadeiro.

                     Novalis

Georg Philipp Friedrich von Hardenberg (Schloss Oberwiederstedt, Harz, 2 de Maio de 1772 - Weißenfels, 25 de Março de 1801), Freiherr (barão) von Hardenberg, mais conhecido pelo pseudónimo Novalis, foi um dos mais importantes representantes do primeiro romantrismo alemão de finais do séc. XVIII.

Poesia Digital 7 Poetas dos Anos 80, 2002 (Organização de Antologia)


Organizei a Antologia 'Poesia Digital 7 Poetas dos Anos 80' em colaboração com José Emílio-Nelson, em 2002. O volume foi prefaciado por Luís Adriano Carlos. Poetas representados: Alexandre Vargas, Amadeu Baptista, António Cândido Franco, Fernando Guerreiro, Helga Moreira, José Emílio-Nelson e Luís Adriano Carlos.

Apresenta-se um dos meus poemas representados nesta Antologia, cuja primeira publicação ocorreu no 3.º número da revista 'Cadernos do Tâmega, em 1990:


SITUAÇÃO DA INDÚSTRIA PORTUGUESA
NO INÍCIO DA DÉCADA

            ( para Artur Pereira)

Às vezes, quando a pressão das entregas
aumenta, ajudo a carregar os camiões,
mas o envenenamento é o fim-de-linha,
onde cada tarefa é como a execução
de um castigo. Pagam-me mal, mal tenho
tempo para comer um pão ao meio-dia, sinto
que a força dos meus dezasseis anos não corresponde
ao parco salário que me devem.
De aqui a uns anos, irei cumprir
o serviço militar, perderei a precariedade
do emprego, ainda ontem uma das mulheres
quase ficou sem um braço no sector velocíssimo
da transformação. Servir a pátria é, começo
a não ter dúvidas, sofrer esta amargura
endémica, a pobreza a alcançar-nos
em pouco mais de um passo, os olhos
corrompidos pelo vinagre da luminosidade,
a consciência das coisas ilegítima
na compreensão da linguagem, eu calo-me,
os outros falam por mim. Olho em volta, sinto
inexplicavelmente a natureza fortuita das coisas,
embrenho-me aos domingos na multidão
triunfante, gasto em vinho a humilde alegria
que as pequenas vitórias me consentem,
tremem-me as mãos só de pensar que existe
amor no mundo, algures, longinquamente,
no infinito da nossa ignorância. Gostava
de saber o nome deste usufruto da terra,
quais as cumplicidades que tornam tudo isto possível,
em que lugar de fogo e de agrura
o rosto corresponderá ao rosto e o silêncio
a esta forma de fome secular. Tudo é assim
liminarmente sujo, carregado de sangue
e de arestas, e duvido das proféticas sentenças
sobre a vida que me oferecem,
sem que as contemple, ao menos um instante.
Ao fim da noite, aconchego-me ao sol da praia
predilecta do meu coração, tudo me dói,
é um lençol de luz e solidão o que recebo, creio
na morte como única solução, maldito quem
por minha vez alguma vez pecou
sem que ratificasse a estranha recompensa
de ter aberto uma passagem para nenhum lugar.
Agora estou aqui e não posso pensar, uma outra
carga chama-me, obedeço cegamente
ao encarregado geral, ninguém suspeita
mas tenho dentro de mim uma indústria
onde ninguém produz porque não vale a pena.


(in Vários, Poesia Digital 7 Poetas dos Anos 80, organização de Amadeu Baptista e José Emílio-Nelson. Prefácio de Luís Adriano Carlos. Porto, Campo das Letras, 2002)



domingo, 1 de maio de 2011

1.º de Maio



1.º DE MAIO

                                    Não posso parar. Não posso parar.

                                                           José Afonso

Que não seja este dia só de circunstancia.
Que não chegues à rua e não digas nada.
Que sejas pó, e pólen, e frutos, e raízes.
Que ao desatino de Maio não resistas.

Não hesites em Maio. Não vaciles.
Maio é um mês trabalhador
que se estende pelas praças e os campos
com garlopas e ramos de papoilas.

Que não seja este dia sem audácia.
Que o acendas nas veias e no rosto.
É Maio, agora, o dia primeiro

do que por ti mesmo foi criado.
Em Maio és tu quem está para que a mudança
da inverosimilhança tenha nome.



(Inédito - © do A.)