sexta-feira, 22 de abril de 2011
Kefiah, 1988
(fragmento inicial)
Procurarás esse nome no fluxo silencioso
da solidão, mas ninguém te responderá.
Procurarás no iniludível estremecimento da noite,
no vagaroso rumor que se desprende do fogo, no rosto
inverosímil que se oculta na sombra, mas ninguém te responderá. A tua casa são quatro paredes de silêncio,
uma ausência que se perpetua cada dia que passa, o ciclo
de uma luta sem tréguas golpeando-te a respiração e a saudade
de tudo o que perdeste para sempre, mas conservas ainda
no coração aberto.
Abres o pão das tuas sílabas indecisas em busca da transparência da vida uma vez mais, fechas
na gaveta um pouco dessa escuridão que desce pela tua face, atiras para trás
o lençol porque o calor crepuscular afoga os teus soluços, mas ninguém te responderá.
Não és quem és, um homem na encruzilhada, essa interrogação que te palpita nas mãos, a última personagem
de um capítulo onde a asfixia exerce o poder de coagir sobre o teu sofrimento; não és
quem és, cinza e ruínas convertidas em recordações e esperança, aquele que ama transgressoramente, esse cúmplice
que pede à própria sombra uma réstia de sombra – desesperante,
o silêncio arrasta atrás de ti a revelação dos prisioneiros, gente cansada que espera que a insolúvel labareda se levante, a ponta
de dor que poderia aplacar os teus gritos infinitos.
Choras – sabes que algures no mundo não haverá quem partilhe contigo a mesma solidão, a última aposta sobre o pano verde da vida, o último dado a equacionar enquanto os nervos te travam
a pulsação no pescoço, as aves que te esperam na brisa, a expectativa de um último plano fascinante antes que a inquietação
da misericórdia dê conta dos ângulos mais agudos da tua insónia ancestral.
(in Kefiah, Viana do Castelo, Centro Cultural do Alto Minho, 1988)
Maçã, 1986
Toco esta flauta desde que me conheço e desde que me conheço a toco junto ao mar, é possível que ali eu procure um dos meus antepassados, creio mesmo que foi à beira do mar que reconheceram fascinados que se encontravam nus, o mar representa muito para mim nesta incumbência que tenho de tocar esta flauta junto ao mar, a origem de alguma coisa está ali escondida, quando o mar se resolver a falar vamos saber perguntar convenientemente, o meu reino, o meu reino por uma canção do mar, os segredos submersos nesta tranquilidade poderiam definitivamente dar-nos o nome de que sempre precisamos.
Toco esta flauta desde que me conheço, minha mãe doou-ma em nome da sua humilde memória, a memória de quase ninguém, passou pela vida provando-lhe todos os ferros, todas as decepções, sobrevivendo anos a fio com os joelhos rasgados pelas pedras que lhe foram destinadas, ela própria uma vítima mais do desencanto, a cal agasalhando-a na planície última que o destino lhe deixou para que pudesse agora repousar.
Toco esta flauta desde que me conheço e hei-de se puder doá-la aos que tiver por meus, esta flauta de osso que minha mãe me doou, levei para a beira do mar com as minhas mais profundas preocupações, esta flauta de osso que ninguém quebrará, feita de um osso implacavelmente duro de roer.
(in Maçã, Porto, Limiar, 1986)
Prémio José Silvério de Andrade - Foz Côa Cultural, 1985
Green Man & French Horn, 1985
THE FAMOUS GROUSE
(para Helga Moreira)
Peço-te uma pequena ave que irradie luz, aquela que trocámos
na nossa primeira praia, a que devemos ao mar
sempre que temos fome e há clarões inexplicáveis dentro das nossas casas.
A ave que nos sobrevoou sem qualquer medo depois de ter voltado
dos corações dos homens em que grassava a tristeza, erravam pelas ruas
como uma boca amarga, sobressaltadamente.
A ave que com todos os seus mistérios se opôs aos olhos
rasos de lágrimas com que enfrentamos a multidão ameaçadoramente vigilante
e nos obrigou a dar as mãos contra o pânico que as estátuas nos fizeram sentir.
A ave que declarou por nós, na única noite clara deste mundo,
uma paz sem reservas e eternamente duradoira
para que a luz se instalasse sobre as nossas cabeças
e a multiplicação dos pães fosse possível.
A ave miraculosa contra as arestas de silêncio entre nós dois,
que nos uniu as bocas porque não era tarde e nada poderia justificar a solidão
com que a nós próprios andámos enganando, ignorando
a solução dos barcos que fertilizam a linha do horizonte
e dão às rectas paralelas uma última possibilidade de encontro.
A ave a que perdemos o rastro porque o abandono comeu à nossa mesa
e em noites de insónia e desespero permanecemos confusos e distantes
sem que esperássemos nada – a árvore que em nós ramificasse
os dedos transparentes da ternura que incendeia para sempre
as chamas vivas que com certeza há nas nossas vidas.
A ave que mata a sede e concretiza nas pedras a beleza
do usufruto da memória como fonte cantante e reproduz,
não a esperança sem nome a que docilmente nos fomos submetendo,
mas uma esperança sólida e sem sombras explodindo
dos múltiplos crepúsculos que a madrugada tem.
A ave quente que nos olha descalça do cimo das montanhas
e nos inventa bálsamos desconhecidos, amor e inocência
para que não mais nos tentemos por situações de perigo.
A ave de luz na manhã incorrupta.
(in A Jovem Poesia Portuguesa /2, Porto, Limiar, 1985)
As Passagens Secretas,1982
Escrevo algumas vezes pelas praias.
Recolho seixos, pequenas coisas, algas
que me fazem lembrar uma outra infância
que respirei algures num outro mar.
Palavras lisas, vocábulos minúsculos, bruma,
são búzios que manejo nos poemas,
descasco, abro
como súbita concha,
ou súbita mulher de seios brandos.
Duas ou três gaivotas, um navio lá longe,
o mar que enrola na areia
– canções que cantei quando menino –,
escrevo mansa, torrencial, apaziguadamente,
desperto pela brisa
a espuma branca,
os lábios que há nas ondas.
Às vezes,
pelas praias,
reconheço
que pago muito pouco pela água.
(in As Passagens Secretas, Coimbra, Fenda Edições, 1982)
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