quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Luz Passional # 3


















Fotos: © de Amadeu Baptista

Rosa Alice Branco


Rosa Alice Branco
Concerto ao Vivo
& Etc, 2012



No próximo sábado, dia 2 de Junho, às 18.30, valter hugo mãe apresentará o livro
Concerto ao Vivo, de Rosa Alice Branco,
na Fnac de Santa Catarina, no Porto.
A leitura de poemas será acompanhada pelo músico João Germano.

Guilherme Centazzi

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Miguel-Manso


Foto: © de FIlipe Bonito


Miguel-Manso, poeta convidado



3 POEMAS DO LIVRO
ENSINAR O CAMINHO AO DIABO




SÃO MARCOS PELA TARDINHA 


os arredores com o vento 
a meter-se entre os lotes, a maltratar 
marquises e arbustos

as pessoas com quem falámos – ainda 
o Sol mandava e escorria
por paredes de prédio, pelo toldo do café –
ficaram ali até a bola de fogo desaparecer 
de todo atrás da serra; o Palácio 

da Pena recortou a extinção do incêndio 
e ao que depois deflagrou 
chamámos noite e trazia glaciais punhaladas
que as camisolas de Agosto não 
puderam temperar

vento, alturas, um certo silêncio
aziago, o televisor desligado para futebóis
ou para as galas com que o centro e o poder 
enganam, entretendo, as cercanias

encurtámos nossos versos, não é lugar para 
canções e a poesia – permita-me o retoque, Natália – é 
para nos comermos

(ó suburbanos da dívida) 

e comemos

(in Ensinar o Caminho ao Diabo, 2012)





PIAZZA SAN MARCO – ACQUA ALTA


às Musas não interessam 
drenagens, deixam alagar livremente 
com o que sobrevém: a água do instante 
subjectivo

quando o poeta era uma fera luminosa
e Veneza, sobre a laguna, a porta para o Levante
com seu tráfego de peregrinos imateriais – que também traziam 
as laranjas douradas, a seda, a musselina
porcelanas, aço, pimenta
incenso e alívios

a cidade detinha um colégio de sábios
que sabia, em dialecto próprio, ser a magia 
este palácio mergulhado nos silêncios
mais submersos

e que apenas a ciência da leitura paulatina
poderá ser o escafandro glotal e sinal que soltará
da grosseria eloquente 

o espanto oculto do poema


(in Ensinar o Caminho ao Diabo, 2012)




CONTAR OS CORVOS EM VENICE BEACH


não era só a tristeza de estar só, era 
há tanto tempo andar perdida, escangalhada 
no impenetrável regalório de Los Angeles

hóspede amontoada na pior camarata 
disse-me que o desespero se arraigou, manchava
pareceu-lhe, o futuro com nebulosas e quase esfumava
da memória o luso cravo, a sardinha, o superior 
areal da Caparica

nesse outro Sol, tão luzente que se apagou, ia 
de mochila pouco a pouco, odiando as genéricas feições
somente na biblioteca se sentava, provendo 
rabiscando um email a ninguém

e aqueles corvos por todo o lado  
agoirentos, mal-entendidos na arte de agradar
esgrimiam ultrajes nocivos, injúrias funestas

hoje, a salvo, num banquinho sujo de jardim 
alfacinha que atravessa o Inverno, recompõe para mim 
a insípida descrição dessa aventura, pondo a tónica nos corvos 
da Windward Ave, dos quais garante estar 

em definitivo liberta, embora eu pressinta (mas não 
comente) a causa da contristada veste, a correspondente 
tingidura dos cabelos

até o olhar tem agora
um quê de padecimento corvídeo, como quem forjou 
uma benigna aflição para a vida


(in Ensinar o Caminho ao Diabo, 2012)



Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas© de Miguel-Manso
Miguel-Manso (1979) nasceu em Santarém e publicou cinco livros de poemas desde 2008: CONTRA A MANHÃ BURRA (2008) 1ª edição do autor, 2ª e 3ª edição Mariposa Azual; QUANDO ESCREVE DESCALÇA-SE (2008) 1ª, 2ª e 3ª edição Trama Livraria; SANTO SUBITO (2010) 1ª e 2ª edição do autor; ENSINAR O CAMINHO AO DIABO (2012), 1ª edição do autor; UM LUGAR A MENOS (2012) 1ª edição do autor. Colaborou em teatro com a companhia Cão Solteiro. Tem participado em residências artísticas e de criação literária. Participa em leituras públicas de poesia, onde se destacam as Quintas de Leitura no Teatro do Campo Alegre, Porto.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 43

Johann Strauss: Schatz Walser

Não ser nitidamente de nenhum lugar
que não desse precário poder que há na música
e em suaves contornos corresponde
ao que de mais efémero se reparte
em puro encantamento e pura luz.
A perfeição é esta melodia
onde se ocultam brilhos de fogueiras
em noites extensíssimas e palavras
que se partilham pela transparência
de um sortilégio ausente.
Inerme é o mistério que nos cerca
e prodigiosamente entrega um nome
quando sob os segredos se vislumbra
uma forma irreal de autonomia
– o primitivo Deus, diáfano e esplêndido.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista


segunda-feira, 28 de maio de 2012

FITEI



A abertura oficial da 35 ª edição do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica acontece a 28 de Maio, Segunda-feira, às 21h30, no Mosteiro São Bento da Vitória, no Porto, com a apresentação da mais recente criação da companhia de teatro itinerante Footsbarn, “Indian Tempest (Tempestade Indiana)”, a partir do clássico de Shakespeare. O espectáculo, encomendado por Guimarães 2012 à Footsbarn Travelling Theatre, cuja estreia mundial aconteceu em Guimarães, repete no dia 29 de Maio, Terça-feira, às 19h00.


Em destaque na programação para os primeiros dias do Festival está a produção própria do FITEI para esta edição – “Sinfonia Erasmus” (29 de Maio, Terça, 17h00, Estação de São Bento), realizada com a comunidade de estudantes de Erasmus da cidade e dirigida por Claire Binyon, em estreia absoluta. O segundo dia do Festival traz-nos ainda a peça “Soy la Outra (La Diva)” (29 de Maio, Terça, 22h00, Teatro Helena Sá e Costa) na qual num só acto, a actriz Alba Sarraute, que é também palhaça, música e acrobata, narra os impulsos que levaram a sua personagem a aspirar uma vida de excentricidade.



Ciclo São PalcoO Teatrão organiza de 29 de Maio a 8 de Junho de 2012, em Coimbra, o Ciclo São Palco, uma mostra de teatro brasileiro de São Paulo. Esta mostra, que integra o FITEI e conta com o apoio da FUNARTE e da Embaixada do Brasil em Portugal e com a colaboração do TAGV e da Cena Lusófona, conta com a apresentação dos seguintes espectáculos: “Quem Não Sabe Mais Quem É, O Que É E Onde Está Precisa Se Mexer” da Companhia São Jorge de Variedades (29 de Maio, 21h30, OMT – Sala Grande), “Mire Veja” da Companhia do Feijão (31 de Maio, 21h30, OMT – Sala Grande), “Luis Antonio-Gabriela” da Companhia Mungunzá de Teatro (3 de Junho, 21h30, OMT – Sala Grande), “Hygiene” do Grupo XIX de Teatro (7 de Junho, 20h00, Largo da Sé Velha), “Ópera dos Vivos”, da Companhia do Latão (8 de Junho, 21h30, TAGV). 

Bilhetes e informações

Em 2012, o FITEI ocupa temporariamente o nº 64 da Rua Cândido dos Reis para instalar a loja do Festival.  O espaço, que está aberto de 21 de Maio a 3 de Junho (Domingo a Quarta – das 12h30 às 20h00 e Quinta, Sexta e Sábado – das 12h30 às 24h00), possibilita a compra de bilhetes e a aquisição em exclusivo da assinatura FITEI que por 30 € permite o acesso a 6 espectáculos à escolha.
A pensar nos mais novos, o FITEI apresenta o espectáculo “Farfalle” (30 de Maio, Quarta, 11h00 + 18h30, Balleteatro Auditório) do Teatro di Piazza o d'Occasione, uma peça dedicado a “meninos e meninas, pintores e bailarinos” sobre a vida das borboletas, onde os mais pequenos são convidados a participar. Depois do Porto, esta peça é apresentada em Faro, Viseu e Guarda. Em estreia absoluta, a peça “As Intermitências da Morte” por Ítaca Teatro / Quinta Parede sobe ao palco do TeCa nos dias 30 e 31 de Maio, às 21h30, uma co-produção entre Itália e Portugal a partir do livro de José Saramago (projecto, texto dramático e dramaturgia de José Caldas).

O Bosque Cintilante # 42

George Philip Telemann: Cantabile, de Tafelmusik

A correlação de forças entre os homens e o vento.
Este sopra da maneira mais simples sobre as cabeças,
levanta a espuma para a coroação de um anjo,
arranca pedaços das casas, o ânimo antiquíssimo
que governou o tempo e o espaço.

Inebriados, os anjos não esmorecem.
Usam leves utensílios de medir e contar,
usam o arco, a flecha e o diamante,
armadilham o céu com pêndulos e ogivas,
aguardam a edificação da maravilha.

As forças: uma curva imensa sob a pedra
que nasce do chão por geração espontânea,
um deus vingativo a percorrer a abóbada
onde nos encontramos perdidos,
tensão e risco onde o nascimento produz a luz e o calor.

Vamos, que o corpo aceda a esse lugar secreto,
que a verosimilhança cresça na vasta planície
e se edifique no mármore a intensidade da luz,
com o vento produza o suspiro e a chama,
cantável,
poderosamente cantável como a alma de um homem.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

domingo, 27 de maio de 2012

Jørgen Gustava Brandt


5 POEMAS


É O PÁSSARO NA ÁRVORE

É o pássaro na árvore o que é mais importante
É a árvore com o pássaro o que é mais importante
São a árvore e o pássaro o que é mais importante
Que eu veja a árvore e o pássaro na árvore

Que a árvore e o pássaro estejam lá quando os vejo
Que eu saiba que tu vês o pássaro na árvore e a árvore
Que sejamos nós os que vêem a árvore com o pássaro
É isso, é o pássaro na árvore o que é importante

Que sejamos nós os que vemos enquanto o vemos
É o pássaro na árvore o que é mais importante
Não somos nós, é o pássaro na árvore
É a árvore com o pássaro o que é mais importante.

São a árvore e o pássaro os que são verdade
É a música que há no trivial
É este pássaro e esta árvore que são tão importantes
É a música no trivial o que é misterioso

É o trivial do mistério o que é a música
É o trivial na música o que é verdade
É isso do que está ali o que é tão importante
É isso do que não está ali o que é tão importante

É o trivial o que é tão misterioso
Não há pássaro nem árvore que sejam importantes
Que eu veja o pássaro e a árvore não é importante
Que sejamos nós os que vemos não é o mais importante
É o trivial atrás do signo o que está presente

São os erros na enumeração os que são inimitáveis
É o trivial da frase o que é substancial
O incomparável é o banalmente presente

Aqui junto à janela não há círculos nem semicírculos
Junto à janela está a árvore com o pássaro, isso é o mais importante
Não há linhas rectas nas tábuas da cerca
Não há nada direito nos cabos dos postes
                                                        (que – também –  cantam)

Uma árvore é uma árvore –
Esta árvore trivial é diferente das outras
Todas as árvores triviais são diferentes
Esta árvore com este pássaro existe (também em mim)


Det er œg i mit skœg, 1966




DO NADA VENS

Do nada vens andando
como num sonho
do nada vens
andando suavemente

da obscuridade surges
como uma sombra de luz

não do sol, não
da noite das lâmpadas
mas do nada, andando suavemente


Ateliers, 1967




Vi em ti
alguém que quer ser encontrada

Vem!


Ateliers, 1967



PACIÊNCIA

Um método de esperar
sem esperar nada
manter vida num fogo
sob um céu corrente


I den høje evighed lød et bilhorn, 1970




EVIDENTE

– Deixa-me tocar-te
Estiveste muito só muito tempo,
por isso agora creio em ti

No mundo do homem
são os loucos que detêm o poder
E são os loucos
os que anseiam tê-lo
– O poder é necessário
– Esse é o teu problema

– Não quero que sejas diferente
– Então, temos que decidir!
– Oxalá o mundo seja como és tu
– Tu és a verdade e a vida


De nødstedte djœvle de er vœrste, 1972


Versão minha - © Amadeu Baptista




Jørgen Gustava Brandt, nasceu a 13 de Março de 1928 e faleceu a 1 de Dezembro de 2006, em Copenhagen. Fez estudos comerciais. Fez a sua primeira exposição de pintura em 1946 e publicou o seu primeiro livro de poesia em 1949. Jornalista e colaborador em programas radiofónicos, tanto literários como dramáticos. Traduziu Henry Miller e Dylan Thomas. Foi membro da Academia Dinamarquesa de Letras desde 1969.



sábado, 26 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 41

Antonin Dvorak: Humoreske

Existe algo dotado para o nítido e o universal
nesta tonalidade,
algo crescente e ameno,
surpreendentemente suave como uma casa de pedra,
uma luz,
um arco que evolui no sentido intratável
do barro,
grato e plácido como uma amêndoa,
um peixe translúcido,
um ramo de sombras e cintilações,
sussurrante,
atravessando os brilhos que oscilam nas coisas,
nesse lado de que nasce e morre a deriva,
onde a buganvília acrescenta um futuro promissor
à epifania das coisas,
inconcebível,
exactamente no centro do que nunca existiu.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

sexta-feira, 25 de maio de 2012

João Tomaz Parreira


João Tomaz Parreira, poeta convidado


3 POEMAS




PARA DANÇAR UM TANGO

Um tango dança-se com faca
no olhar
e sapatos a acolchoar o silêncio
Um tango estilhaça
tudo o que está perto
o ar onde o corpo se contorce
onde as mãos afogam
mãos ou na cintura
navegam como se fosse
um rio de prata.







UM BEIJO NO BOSQUE

Fecharam os olhos
os duendes do bosque, o beijo
floriu nos arbustos, nos ramos
do sol, no perfume do vento
crepitou nos lábios
um segredo profundo
lançando raízes
o incêndio no bosque
fecharam os olhos
esquilos e aves
recuperam o canto
à volta do lume.








BANHO DE MAR

Começam por entrar as pernas
nuas hesitantes
e fincam-se como Rodes sobre o Egeu
a cintura depois
de inundados os calções
por fim o próprio umbigo
cordão que sempre nos ligou à vida
os braços nus abraçam
o que do sal começa a fervilhar na onda
como um feixe de dedos nossas mãos
vão abrindo sulcos na imaginação
até ao horizonte.



Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas© de João Tomaz Parreira

João Tomaz Parreira ou J.T.Parreira, Lisboa, 1947. Poeta. 6 livros de poesia (Este Rosto do Exílio,1973; Pedra Debruçada no Céu, 1975; Pássaros Aprendendo para Sempre, 1993; Contagem de Estrelas, 1996; Os Sapatos de Auschwitz, 2008; e Encomenda a Stravinsky, 2011 ). Um ensaio teológico (O Quarto Evangelho - Aproximação ao Prólogo, 1988). Participação em Antologias. Escreve na revista  evangélica «Novas de Alegria» desde 1964 e no Portal da Aliança Evangélica Portuguesa. Na juventude escreveu poesia e artigos no suplemento juvenil do "República", entre 1970-1972.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Eduardo Lourenço


parabéns Eduardo Lourenço, pelo seu 83º. aniversário

O Bosque Cintilante # 40

Felix Mendelssohn: Andante, do Concerto para piano No. 1

Os homens afirmam em segredo
a controvérsia de uma lei devoradora,
a ilusão e a perenidade do fogo,
as chamas que desaguam nos espelhos,
os rostos cintilantes entre um extremo e outro,
um mundo e outro mundo.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista


terça-feira, 22 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 39

Richard Wagner: Coro Nupcial, de Lohengrin

O rigor da primavera acrescenta  luz
a estas passagens brilhantes onde a terra cede
à lenta progressão da maturação, os traços
que delimitam as árvores, as fontes onde os deuses
dividem com o fogo uma morada suave,
um canto astral.

A aura das coisas levanta-se para o horizonte, sobrevoa
as mãos dessas estátuas ausentes, cerca
com palavras o silêncio e a solidão do homem que aguarda
entre duas pontes uma linha de comunicação, a trama
incandescente.

Agora os que se amam produzem a canção, levitam
sobre os lagos com as mãos em fogo, o olhar
incendiado pelos pássaros e as nuvens, os mais azuis,
os mais serenos no sulfuroso lugar da perdição.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ernst Orvil




4 POEMAS


CARGAS

As cargas que levo são minhas.
Sou o seu dono. Nenhum ladrão
irrompe em mim e me rouba
as cargas que levo.

As cargas que tu levas
ninguém tas tira. Deténs-te
e sentes estranhamente pesadas
no sangue as cargas que levas.

Uma pessoa
não está só. Uma pessoa
com as mãos cheias de
dias e de noites, o amargo peso
das cargas.

Desafortunado o que não tem propriedades.
E o que não tem uma carga
que levar. O sentido da vida é ser vivida
e o das cargas serem levadas.
O homem não está só
sob o jugo.

Ama as cargas que
te unem à vida.
A morte é o ladrão.
Despoja-te das tuas cargas.



            Kommer du til meg, 1947



RELATIVIDADE

Quando os canhões retumbam
lá em Rakke
move-se a borboleta
para outra flor.

Ou visto da perspectiva
da borboleta: Quando se move
a borboleta para outra flor
retumbam os canhões em Rakke.



Brekasjer, 1970




O PERDEDOR

O perdedor vai pela vida
arrastando
um pesado fardo,
no fardo não há nada.

Não pára para descansar.
E desaparece
na sombra
de um bondoso Deus.



Nœr nok, 1980



EXISTÊNCIA

Anne voltou da escola
a dizer que na escola dizem que
Deus não existe. Eu disse-lhe
tu não deves acreditar nisso.

Bem, então Deus existe?
Não para os que não crêem,
disse-lhe, mas para os demais Deus
existe. Não é isso estranho?, disse Anne.

Sim, disse-lhe, é estranho.
É possível, disse Anne, não
existir e existir?
Sim, disse-lhe, para Deus é possível.


Videre, 1982


Versão minha - © Amadeu Baptista




Ernst Orvil, cujo verdadeiro nome é Ernst Nilsen, nasceu a 12 de Abril de 1898, em Kristiania e faleceu a 16 de Junho de 1985, em Oslo. Ficcionista, poeta e dramaturgo. Foi fortemente influenciado por Sigmund Freud e a psicanálise. Publicou mais de três dezenas de livros, sendo o primeiro, o romance Birger, datado de 1932. Em 1940, estreou-se como poeta, com Bølgeslag.

domingo, 20 de maio de 2012

Timor Lorosae - 10 Anos de Independência





UM POEMA DE XANANA GUSMÃO



ESPERANÇAS RASGADAS


Timor
Jazigo de uma alma
Que não pereceu
Nas névoas
De uma história que se perdeu
Na distância das lendas

Timor
Montanha de ossos
De uma valentia
Que bocas guerreiras
Abençoaram seus filhos
Para a perenidade dos dias

Timor
Onde a morte
Só se consagra no combate
Para deter a vida
E contar a história às crianças
Que nascem para recordar

Timor
Onde as flores
Também desabrocham
Para embelezar
As sepulturas desconhecidas
‘Em noites frias, infindáveis’.

Timor
Onde as pessoas
Nascem para morrer
Pela esperança
Em rasgos de dor
Em rasgos de carne
Em rasgos de sangue
Em rasgos de vida
Em Rasgos de alma
Em rasgos
Da própria liberdade
Que se alcança…
Com a morte!



'Esperanças Rasgadas', poema de Xanana Gusmão, declamado pelo próprio
no documentário de Grace Phan "A Hero's Journey" / "Where the Sun Rises"



sábado, 19 de maio de 2012

Maria João Cantinho


Maria João Cantinho, poeta convidada


3 POEMAS


URGÊNCIA 

Um homem chegou e deitou-se, 
era aquele que avançava contra o vento frio, 
que se abraçava às palavras, às árvores, às flores 
e no seu ventre amanhecia a luz de uma chaga, 
de onde saiu um pássaro. 
As nuvens voavam à altura dos seus olhos 
e era preciso escutar a voz, o canto das sílabas 
que sufocava no sangue, 
a urgência, a terra contra o sangue 
que corria nos veios azuis do seu corpo. 
Na claridade do seu olhar movia-se velozmente 
a paisagem, como em incertos dias de Verão, 
nos seus olhos iluminava-se o assombro, 
reflectiam-se as imagens e as sílabas da catástrofe, 
a obscura gramática que neles se desenhava 
em linhas de solidão, como sulcos de água, 
escoando-se lentamente. 
Era preciso lembrar a luz, recordar os vestígios, 
o canto que emanava das vísceras, interrompendo o mundo, 
era ali o início do círculo, o lugar onde tudo recomeçava, 
o começo da liberdade, exacto, 
recapitulando o destino do voo alucinado, na noite. 
E era preciso não temer os nomes, a escuridão, 
a alquimia que tudo funde, emergindo do sonho. 
Era preciso não temer as imagens que se sucediam, 
a memória interrompida, antigos nomes 
que se escreviam contra as raízes, para que cantasse 
a glória da infância renascida. 
Na claridade do seu olhar, era já a morte em sonhos, 
florescendo no horizonte do tempo 
e então disse-me: bebe da minha luz, 
bebe, a noite descia, puro anil, 
bebe do meu sangue, bebe-me, 
só aí terei sido porque te vi. Sou tu.

(in  Sílabas de Água, Porto, 2006)






DESPERTAR A VOZ, SEGUIR O TRAÇO

É o mais difícil, este gesto
de amanhecer a palavra, o poema,
deixando-nos a sós com a brancura da página.
O canto não chega, quando o chamamos
tal como a luz não vem,
 senão de mansinho,
quando os flocos da noite se desvanecem
em orvalho límpido e claro.
E então a canção irrompe, novamente,
mas apenas para aquele que se senta à beira do início,
do seu início, e escuta.
É o mais difícil, este gesto
de descer à sombra, ao sem-fundo da linguagem,
para ouvir o canto. 
Que rastro, que traço é este, que nos visita
e nos desperta a voz, em manso segredo?
Que vislumbre nos toma e nos arrasta,
agora que um outro alfabeto nos é revelado, 
exterior ao dito, anterior ao hálito da palavra,
como se as sombras dos nossos antepassados
nos percorressem, por entre os nossos sonhos,
música límpida e tão próxima,
tão imponderável na sua aura?
Cantam em nós essas vozes, silentes,
mas que esvoaçam no vento, invisíveis,
cantam em nós, mas as suas vozes são de rio
e tempo, de outros tempos, 
em que também fomos outros.

(in O Traço do Anjo, Porto, 2011)







Há um país antigo que se abriga em mim      
um país de que não me lembro
senão de mim menina,  uma língua de sol e água
que se cola à minha pele, obstinadamente
quer ser tempo em mim,  quer ser boca  
procura a abertura,  escorre entre as fendas 
da memória, como um pássaro de asas feridas.
Há um país antigo que se abriga em mim
E eu procuro a voz do vento que o cante, 
Nessa harpa fria que é memória minha.

(inédito)





Fotos (ilustração dos poemas): © de Amadeu Baptista

Poemas© de Maria João Cantinho



Maria João Cantinho nasceu em 1963. Publicou “A Garça” (ed.Diferença, Leiria, 2001), “O Anjo Melancólico” (ed.Angelus Novus, Coimbra, 2003), “Sílabas de Água” (Ver-o-Verso, Porto, 2006), “Caligrafia da Solidão” (ed. Escrituras, S. Paulo, 2006), “O Traço do Anjo” (edium editora, Porto, 2011), entre outras obras. Actualmente é professora no Secundário e no Iade, crítica e poeta.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 38

Wolfgang Amadeus Mozart: Andante, do Concerto para piano em lá maior K. 488

Há um arco para descer e um arco para subir,
as mãos tremem no sentido longínquo do mundo, o coração
esvoaça de encontro ao céu, os homens perscrutam-se
nesse ritmo fulgurante da respiração, gastam
a vida, matam
e vão morrer.

O brilho da lâmina poisa na única genialidade da terra,
um pouco antes da treva poisa e rebenta, aglutina
o mistério nos olhos dos que são abatidos,
há um crime que compensa,
o medo asfixia sobre essa lei precária,
vê a órbita das coisas reflectidas no tempo,
brancas e poderosas
na corda incandescente que religa os enigmas,
o corpo abandonado e sem misericórdia.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 37

Gioacchino Rossini: O Barbeiro de Sevilha, abertura

Estão abertas para os lugares as moradas dos deuses,
o afã divino esvoaça sobre as nossas cabeças,
as ondas rendem-se à serena agitação dos ventos,
são como árvores iluminadas dentro do mar que se inclina
para um rosto flutuante. Aqui o tempo regressa
à inúmera voltagem das coisas, um vidro rasga
o sobressalto das águas, uma gaivota resplandece
sobre a secreta qualidade dos enigmas, uma palavra grená
que evolui sobre os ombros. Amo-te hoje como nunca
amei ninguém, a brancura atravessa esta ilha de fogo, o mar
procura-nos, espera-nos, neste alimento faz-nos crescer
para o abismo, os ramos
de algo calcinado sob a subtil transparência do olhar.
Eis as mãos com que te encontro, a luz
com que te posso adivinhar e como recrudesce
a bátega para tua e nossa esperança, sobre o mundo
irrompe o silêncio onde uma chama
amplia as nossas sombras,
o infinito onde tudo se perde e tudo se transforma.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista

terça-feira, 15 de maio de 2012

O Bosque Cintilante # 36

Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Canção sem Palavras

Algumas aves são mais aves que outras,
algumas aves possuem maior obstinação na obstinação do céu,
algumas aves influenciam mais vastamente o canto,
abrem espaço mais vezes à glorificação do ar
e da imponderabilidade.

De todas as aves amaria ser a cotovia,
essa que passa no seu voo de arabesco e medusa
e me encontra sempre na mais amarga solidão
e me desperta para o incontornável mistério
de me encontrar sempre e sempre.

Esta ave deve todo o seu fascínio ao poder da noite
e ao poder do mar,
várias vezes me vesti de terra para escutar o seu canto,
sou esta noite onde esta ave aguarda
a manhã para despertar o sol,
o sol e o milagre de uma canção
quando esta ave desperta o meu coração tangível,
o meu coração volúvel.

É espessa a tristeza de onde venho,
uma pedra estala no meu peito,
a água às vezes é lume nos meus olhos,
obsessivo mistério
que me conduz ao espaço
onde o deserto principia.

A norte e a sul o deserto prolifera
em golpes poderosos sob as mãos,
estas mãos vazias e irreais
na solidão do mundo
em que apenas aguardo
o canto matinal da cotovia,
o benefício de uma ave na solidão do mundo.


in O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008
© de Amadeu Baptista