domingo, 31 de julho de 2011

Vida adulta / 14

MIL NOVECENTOS E OITENTA E SEIS



Na extensão do quarto não há senão

um lençol vermelho e a mulher.



A cama, ao fundo, e a lâmpada acesa

não são mais que motivos para prender

a atenção.



Dou dois passos absolutamente vacilantes.



O lençol vermelho é de um cetim que cega,

um brilho extenuante.



Mas eu quero ver, quero ver a mulher.



Na extensão do lençol de cetim

a mulher não vacila.



Parecendo

que dorme, tem um sorriso nos lábios,

desconhecido.



Dou dois passos na sua direcção.



Paira no ar um perfume quente,

quase sólido, que me embriaga a ponto

de a querer ou de a matar.



Quero, quero ver a mulher, em toda

a extensão do quarto, surpreender-me

com o fascínio da oferenda, os seios breves

no lençol vermelho, de cetim,



esse sorriso,

assim desconhecido.



A pouco mais de um passo, tocando-a

ao de leve,

sinto que a carne não é carne

nesse momento intenso,

a carne é a visão do desejo sobre um lençol vermelho, de cetim,



em que a lascívia se amplia

e o desencontro

se entrega à claridade da extensão do quarto

para que o crime se consuma

e eu use, cegamente,



este punhal.



( in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista

sábado, 30 de julho de 2011

Vida adulta / 13

MIL NOVECENTOS E OITENTA E CINCO



Mais que árvore,

sequência de ramos

e raízes, avó,

que faz lembrar a tua vida,

agora que uma lágrima

adverte os caminhos,

esse ponto onde o voo principia.



Levas-me pela mão e conduzes

as palavras que escrevo, avó,

aqui e agora; sequer como um espelho,

um reflexo,

mas o deslumbramento de um brilho

que paira sobre nós

como ânsia,

criação.



Aceita que te aduza

a beatitude,

aceita, ainda,

esta verdade trémula

que poderá passar do meu

ao teu olhar,

tal como fazes passar,

de ti para mim,

o sonho.


( in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Vida adulta / 12

MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO



Recolhemos o gato

na madrugada de sábado,

recém-nascido, ainda com os olhos fechados.



Como uma mãe a um filho,

vigiamos-lhe o sono,

compramos um biberão e leite em pó,

uma tetina,

uma manta de reduzidas dimensões,

branca,

com um desenho negro no dorso,

para lhe lembrar a raça.



Não tendo resistido,

morreu serenamente,

num súbito vagido

e o pêlo encharcado,

quem sabe se pelo esforço

da grande travessia.



Por última mortalha,

metemo-lo num sobrescrito,

para continuar a viagem.




(in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)





Foto: © de Amadeu Baptista

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vida adulta / 11

MIL NOVECENTOS E OITENTA E TRÊS



É a minha primeira passagem

nesta terra

e muitos anos passarão

sem que cá volte.



O corpo dói-me,

dói-me o espírito deste lado,

dói-me a árvore e a luz,

dói-me o caminho e a malha infrene,

persecutória,

que aqui me traz.



Trabalho nu

diante da noite

e estou acossado.



Lembram-mo as aves

do amanhecer.




 (in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)




Foto: © de Amadeu Baptista

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Vida adulta / 10

MIL NOVECENTOS E OITENTA E DOIS



Para onde?

Para dentro de um livro

porque preciso de sombra.



Mas já há sombra

na sombra,

por que fazer mais sombrio

o que na sombra se assombra

de ser sombra e escurecer

a sombra que tem a sombra?



É que ainda procuro

uma sombra,

uma passagem secreta

para a sombra.



Mas não a sombra que passa,

nem a sombra que resguarda.



Quero uma sombra de impasse,

uma sombra sobre a fronte.



Uma sombra, nada mais.



Uma sombra sob a fonte,

uma sombra que desvende

a sombra que há no abismo.



Uma sombra que deslumbre,

entre as páginas do livro.



Uma sombra como um pássaro

ou uma janela cega.



Uma sombra assustadora

no frágil eco da sombra

da sombra do coração.



Quero uma sombra sem sombra

quando houver sombra

na sombra.

Quero uma sombra que brilhe,

uma sombra insustentável.



A sombra que deflagra.



A sombra em chama.



( in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)




Foto: © de Amadeu Baptista

terça-feira, 26 de julho de 2011

Vida adulta / 9

MIL NOVECENTOS E OITENTA E UM



Há um montante de circunstâncias indeclaráveis

para quem vai a passar e vê uma moeda

perdida a brilhar no passeio.



A circunstância feliz é pegar na moeda

e entregá-la a uma criança ou ir comprar

uma flor.



A infeliz é atravessar a rua depois de a guardar

e ser mortalmente atropelado.



A outra é levar a moeda à boca

para ver se é falsa

e engasgar-se com ela.


 ( in Açogue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Maria Lúcia Lepecki


Maria Lúcia Lepecki, 1940 - 2011

Gunnar Reiss-Anderson



 


Um poema de Gunnar Reiss-Andersen:



UM POEMA NÃO ESCRITO


Um longo e luminoso desespero enche o mês de maio.
A vida quer impor-nos uma luz e uma felicidade
maiores do que somos capazes de receber.
Por isso anda por aí um luminoso desespero como um
     menino pobre obstinado,
de súbito vestido de seda azul celeste da qual não é capaz de
   se livrar
por muito que trema de medo. De medo da felicidade.

Ontem sonhei que ia morrer
numa cidade como uma grande flor outonal,
cheia do decadente esplendor nocturno de setembro ,
a Paris e a Viena da minha juventude, um pesadelo açucarado.
O ar misturado com metal, com sabor a sangue e apodrecido
    até à medula.

Eu ia morrer, íamos morrer
vítimas de um plano militar.
Havia  pequenas unidades tombadas nas esquinas das ruas ,
totalmente preparadas para jazerem mortas.
Os oficiais estavam de pé, envergonhados e quase com lágrimas nos
    olhos.
E tanto este como aquele viram-no, sem nada dizerem,
quando deslizei pela esquina e desapareci.
Embrenhando-me na noite de malha de bronze de lâmpadas
    apagadas
e um enredo de abundâncias decadentes de que ninguém se ocupava já.

 Sempre se cumprem os sonhos de quem sonha com a morte.

Mas eu acordei esta manhã e estava vivo.
Fugitivo da morte do sonho, uma morte equívoca.
Li sobre as costas dos oficiais, li em olhares fugitivos.
Desertar é vergonhoso, mas a morte sonhada, a morte equívoca
é a vergonha mesma. É a vergonha mesma.

Mas esta manhã acordei e estava vivo.
E do outro lado da janela estava a bétula, verde.
Dizemos verde apesar de sabermos que existe outra palavra,
outra palavra mais profunda. A mesmíssima contra-senha do verde,
essa palavra que faz com que o verde nasça no inverno.
Como a água da rocha do deserto. Moisés! Moisés! Com a sua túnica
    De verde musgo.
A pele molhada. No oceano de ardósia.

Verde, verde... Mas a contra-senha do verde, a palavra radiante! A
    palavra original!
Diz a palavra verde, di-la por necessidade, pela tua morte certa. E é
    Como se tu o acredites.
A bétula estava ali , verde. Acordei e estava vivo,
vergonhosa e imerecidamente vivo. Erva de terra, luz de escuridão.

Vida em troca de um mau sonho, um inverno sofrido, sobre
    premissas falsas.
Uma lista arrancada de uma fina película húmida colada ao olho:
Vacilantes e envergonhados portadores de cadáveres em escuros capotes
    de oficial.
Eu tinha esquecido a palavra, a contra-senha do verde.
Tinha deixado que o segredo morresse às escondidas.

Através da longa e mortiça catástrofe do inverno
com os olhos cheios de neve eu não tinha visto
aquela bétula, erguendo-se como um riacho verde vertical de primavera.
Verde, verde! Amarelo e azul numa vivíssima mescla vital,
pronto para sair em torrentes no grande azul, o novo azul
que constantemente invoca que desçam  jorros de amarelo novo
    do sol.

Assim Deus pinta o verão. Moendo as estrelas em moinhos de cor.
Estrelas e noites. Amarelo e azul a jorros. Oh Niagára -,
mamutes que pisoteam e danças de arco-íris!
Pós amarelos e azuis, misturados com chuva. O azeite do sol.
E diligentes pincéis, dia e noite. Suave arroz de cometa e nuvens
    matutinas.

                                   ***

Mas eu tinha deixado morrer o segredo às escondidas.


Versão minha - © Amadeu Baptista



Gunnar Reiss-Andersen, poeta norueguês, nascido em 1896. Estudou pintura em Copenhage e Paris. Durante vários foi ilustrador no jornal Arbeiderbladet, de Oslo. O seu primeiro livro de poesia, Indvielsens aar, data de 1921. Durante a Segunda Guerra Mundial, pertenceu à resistência norueguesa, tendo, em 1942, partido para a Suécia, para evitar ser feito prisioneiro pela Gestapo. Publicou inúmeros livros de poesia, além de romance, ensaio, narrativa de viagens e autobiografia. Faleceu em 1964.

domingo, 24 de julho de 2011

Amy Winehouse


Amy Winehouse, 1983 - 2011


Amy Winehouse, ao vivo: You Know I'm Not Good:

História da Escravidão

Vida adulta / 8

MIL NOVECENTOS E OITENTA



Em frente ao mar,

com as glaucas ondas esmeralda

a ruminar a areia

e o vento a ressumar na pedra

um desabrigo de equinócios e regressos,

penso no desamor

com que amo a minha filha,

o seu perfil estreme,

as suas mãos aéreas,

o seu húmido olhar sobre quem passa.



E desprendo um assobio,

a minha canção triste

por me encontrar sereno

perante a maldição.



Com esta aptidão para a dissipação

e a blasfémia,

e o pasmo sobre a tarde,

sou insuportável como a chuva do norte,

e nada me desculpa pelo medo.



(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)


Foto: © de Amadeu Baptista

sábado, 23 de julho de 2011

António Cabrita



António Cabrita, poeta convidado



Poemas inéditos de António Cabrita:


QUADRAS ELIPTICAMENTE POPULARES

1
Boceja a lua brilhante sobre o mar?
Crivados de canários selvagens
Os olhos da barracuda.

2
Ao fundo, o barco à vela é um instante
De fuga, se visto do cais;
Vai aflito, o coitado, no leme!

3
Que acontece quando ipsis verbis
Nenhuma ideia vem ao espírito?
Repontam no vaso os brotos da begónia.

4
Ela respira pelos meus poros, e eu,
Sentado ao seu colo, adorno-lhe a cabeça
Como uma tiara bizantina.

5
A rosa: derradeira oferenda da alma
De um pássaro
Que nunca foi escutado.

6
Da retina dela ressalta fúlgido
O saxofone que a morte de Charlie
Parker deixou mudo.

7
A vida não tem partes,
Mas lugares e rostos,
Como a escada sem degraus.

8
Maputo é o mais poeirento
Atelier do mundo: aqui respiro
Ao encontro da luz.

9
E a flor terá de ser pelo humano
Convertida: em cais, ou, sendo rosa,
Em catarata, em cantaria.

10 (1 de Janeiro de 2008)
Acabado o fogo de artifício: quantas estrelas
entornaste tu - pergunta-me
ébrio um sapo à entrada do prédio.

11
Vista pelos buracos da persiana,
parece uma mendiga – a luz
que devasta as magnólias do vizinho.

12
Trinta graus à sombra. Para os que correm
descalços no asfalto as flores
rubras da acácia são lâmpadas em brasa.

13
Avariado o elevador (3 vezes por semana)
subo os sete andares d’olhos fixos
no Jardim das Rochas de Ryoanji.

14 (Variação em torno da célebre rã de Basho)
Schlaaaaaaap! Glu glu
glu glu! Bbzzzbzzzz!
Zzzuuuuucc!



ABERTURA DA SEPULTURA,
DEZ ANOS APÓS A MORTE DO POETA

Tão insosso pó: pano
ou pane, quem lho tira?
Omissa a memória da carne,
ou resignou? Cinzela

o osso insone: descalabro
ou design? Pensamento
puro revertido em vaso
sanitário? O filtro

da chuva não dourou
a obstrução do que, por
estrita economia, só co-
mia com talheres de prata.

O vento anela às cinzas
a extensão do mundo?
Música para elevadores,
a vaidade, nele, presque

un art, é agora male-
dicência invertida.
Geómetra de tantos vértices,
quem s’abisma inda

nos versos do que se cria
o ponto de Shakespeare?
Eis o ar, de cabeça
perdida. Um ponto.



VISITA À METRÓPOLE: CERVEJARIA FAROL

para a Ana Gouveia

Gosto de um certo desgaste nas mulheres,
dum espírito vivo a represar a carne.

Sobretudo o da mulher de dente lascado
que chama ao seu rafeiro preto Escol.

Chegámos tarde para a pressa, e agora
basta-nos uma romã, tangente

ao humor, sentados no batelão.
Duas esponjas sob 30 mil toneladas de sol.

Amontoam-se-lhe rugas aos cantos da boca
mas o seu olhar não soma desaires,

ileso até do que obviamente o fere
no enxuto gesto de despir-se.

E agrada-me o seu sorriso de bailarina
que só manca quando degola os algarismos.

Foi a minha segunda namorada, a Cervejaria Farol.
Pagas o café? Óptimo. Isso, mesa com vista

para os caranguejos da infância, antes
do atropelo da poesia, de me assombrar

o Canalleto. De súbito, lá fora –
a vidraça põe-se em pontas - a luz

plagia-a. Estaca: como se o ar
quisesse fixar a girafa em galope,

ou o seu olhar esplendesse,
doce, iminentemente lúbrico.



FALA DE EMPÉDOCLES

O espaço era uma breve andorinha
entre o meu corpo e o cipestre,

o meu olhar e o veleiro que marejava,
com ânforas de vinho, a caminho de Esmirna.

O espaço era esse limite medido
em côvados, que um dia se vazou

abrupto no ígneo anel do vulcão.
Ontem, a primeira turista espacial

entrou em órbita. Seguir-se-ão,
às golfadas, contingentes para Marte,

Saturno, e outros lugares que pedem
prévia congelação do viajante,

como se em dois arremessos
se atravessassem os arrozais do infinito.

E agora, em aflorando o sangue ao centro
de tuas coxas, meu amor, esvai-se o quê

se o divisível volveu ubíquo e o estalido
do olhar se abstém de emoldurar o horizonte?


António Cabrita (1959), escritor e poeta. Tem 13 livros publicados, em vários géneros,
entre os quais «Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo» (2008), contos, e «Não se Emenda, a Chuva», poesia (2011). Mantém o blogue raposasasul.blogsppot.com




Fotos: © de Amadeu Baptista

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vida adulta / 7

MIL NOVECENTOS E SETENTA E NOVE



Não estou preparado para a chegada

do meu primeiro filho.



Bem sei que temerei os ferros que ali vejo,

a inexorabilidade do soro que lentamente avança

pelo tubo,

a crispação na face da mulher

que antecipa o relâmpago,

as suas dores.



Mas não estou preparado.



Ainda não estou preparado,

como acabará por se ver

quando, sobre a escuridão, verificar

que não estou no meu posto de vigia.



(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Vida adulta / 6

MIL NOVECENTOS E SETENTA E OITO



Troco um aceno com alguém que passa,

a mulher desconhecida:

ela dentro e eu fora do autocarro.



Não nos conhecemos,

nem nos iremos nunca conhecer,

embora nos fiquemos a conhecer
para toda a vida.



(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista

Vocalise op. 34  (Rachmaninov), soprano Kathleen Battle:


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Vida adulta / 5

MIL NOVECENTOS E SETENTA E SETE



Setembro, nuvens baixas,

e vento a anunciar a borrasca.



Do outro lado da rua

o movimento absurdo das pessoas

complementa uma poética inigualável

que se estende à polémica subtil

entre os que têm

e não têm guarda-chuva.



Entretanto, um cão negro dobra a esquina.



E toda a essência das coisas,

o seu mistério,

se entretece

na tarde,



com gente a baixar as persianas

ou a correr o estore,

enquanto o cão

alça a perna



e saúda o chão molhado.


(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)





Foto: © de Amadeu Baptista

terça-feira, 19 de julho de 2011

Iannos Ritsos





CONHECIMENTO





Um sol de pedra viajou ao nosso lado

queimando o ar e os espinhos do deserto.

À tarde deteve-se na margem do mar

como uma lâmpada amarela num grande bosque de recordações.



Não tínhamos tempo para tais coisas – no entanto

dávamos de vez em quando uma vista de olhos – e sobre as nossas mantas

conjuntamente com as manchas gordurosas, a cor, e caroços de azeitona,

repousavam algumas folhas de salgueiro, e agulhas de pinheiro.



Tinham também estas coisas – não muito importantes – o seu peso:

a sombra de uma forquilha no muro, até ao ocaso,

a marcha do cavalo à meia-noite,

uma cor rosa que morre na água

deixando atrás de si o silêncio mais solitário ainda,

as folhas da lua caídas entre a erva, e os patos selvagens.



Não temos tempo – não temos,

enquanto as portas se convertem em mãos cruzadas,

quando os caminhos são como aquele que diz “não sei nada”.



No entanto, sabíamos que para além da grande encruzilhada

há uma cidade com milhares de luzes coloridas.

Lá as pessoas saúdam-se com um único movimento da sua face –

reconhecemo-las pela posição das suas mãos,

pelo modo como cortam o pão,

pela sua sombra sobre a mesa à ceia,

pelo momento em que todas as vozes adormecem nos seus olhos

e uma só estrela cruza a sua almofada.



Reconhecemo-las pelo sulco de luta nas suas sobrancelhas

e, sobretudo – nas noites em que o céu se amplia sobre eles –,

reconhecemo-los por aquele tranquilo e oculto movimento

com que atiram o seu coração como um jornal clandestino

por debaixo de uma porta fechada ao mundo.



Versões minhas - © Amadeu Baptista



Iannos Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi internado em vários campos de reabilitação. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis e Odysseus Elytis, é considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Faleceu a 11 de Novembro de 1990.


Haris Alexiou, Oi filoi mou xaramata:

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vida adulta / 4

MIL NOVECENTOS E SETENTA E SEIS



A primeira vaga ata os atacadores

das sapatilhas e foge,

à frente das pedras.



A segunda vaga prepara o cocktail molotov,

avança sobre a barreira em passadas largas,

aponta o engenho com o braço erguido,

mas falha,

falha o carro do piquete.



A terceira vaga pede um ovo estrelado

suplementar,

divaga sobre o amor e aquela mulher secreta

que secretamente ama,

quando não põe os óculos.



A quarta vaga está no porvir,

ascende ao prodigioso vazio e propõe,

como síntese,

a água, a terra, o fogo, o ar.



A quinta vaga ainda está por nascer.



(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista

domingo, 17 de julho de 2011

Vida adulta / 3

MIL NOVECENTOS E SETENTA E CINCO



Doze hectares de terra

que ninguém cultivava

pertencem, agora, à cooperativa divina.



Uns trouxeram grão,

outros alfaias,

e as raparigas os olhos grandes

e os cabelos soltos.



Vou ver o gado

e apaixono-me

pela quietação bovina,

aquela paz

de focinho afilado

e manchas amarelas no dorso.



Aprendo a ordenhar.



O leite dá o sentido

da luz a esta sombra

e, quando cai no balde,

canta com inquebrantável carinho.



Comemos à mesma mesa,

com o corpo no corpo

dos que aqui vieram

para aceder ao princípio,

ao prévio, à primícia,

à colheita.



À noite encontramo-nos

com o disco da lua sobre nós.



Não sendo ainda isto a revolução,

estamos perto?


(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)




Foto: © de Amadeu Baptista

sábado, 16 de julho de 2011

Vida adulta / 2

MIL NOVECENTOS E SETENTA E QUATRO



Cai o silêncio sobre o alinhamento

hostil das casernas.



A guerra está no fim,

já só alguns de nós irão morrer.



No torpor absurdo da paz da parada,

há uma bala tracejante que passa,

um trovão.



Matou-se o mancebo da 2ª. companhia

que recusava a farda.



O crânio estilhaçado,

impossível de ver,

está ali, bem à nossa frente.



Noite, mais noite, é todo o dia assim.



O arame farpado que nos limita

a escolha

chora pequenas lágrimas perfiladas no fio

da nossa inocência ofendida.


in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)



Foto: © de Amadeu Baptista


Simon & Garfunkel, The Sound of Silence

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vida adulta / 1

MIL NOVECENTOS E SETENTA E TRÊS



Epitáfio plausível,

no vigésimo aniversário:



“não o perderam as más companhias,

a companhia 4.432 de caçadores

é que o perdeu.”


in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)




Foto: © de Amadeu Baptista


Korngold, Piano Sonata N.º 1, III Final

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A adolescência / 7




MIL NOVECENTOS E SETENTA E DOIS



Aos dezanove anos

a profecia insinuou-se,



farei a grande viagem,

terei dois filhos,

não irei para a guerra

e não serei feliz.



O rei de espadas,

à frente dos meus olhos,

a sorrir:



“podia ser pior”.


(in Açougue, Corunha, Espiral Maior, 2009)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Inês Ramos



Inês Ramos, poeta convidada


Uma sequência de 7 poemas inéditos de Inês Ramos:






Às vezes recupero a lucidez
e reconheço que nada posso alterar.
Num tapete de tristeza vou bordando a vida
com nós e remendos.
Depois dos silêncios regresso e recupero o fôlego
embora não seja capaz de um discurso onde
a felicidade brilhe.
Espero todas as noites à ombreira da porta
algo que desconheço
até que desisto e me recolho
para dormir mais um pouco.




Cega, toco as palavras com os dedos
feridos das facas que arranquei da garganta.
De que serve a garganta se as palavras não saem?
Para que serve caminhar, se não sei para onde?
Tropeçando, vou penetrando as sombras. E a morte.
Trago à cintura todas as minhas cordas.
Tudo está longe. Impossível regressar.




Vem, ao entardecer. Quando a primeira estrela rasgar
o céu e os cavalos marinhos mudarem de cor.
Banhei-me na dor das ondas e a minha alma agoniada
soltou todos os monstros sombrios. Penteei meus longos
cabelos com os dentes da serpente e vesti uma túnica de lua.
Assim purificada te espero com sandálias
de espuma. Para ti teci um tapete de algas e sobre

ele as tuas asas tocarão as minhas antes do amanhecer.




É preciso esquecer-te, esquecer as horas
claras das manhãs a teu lado
é preciso caminhar de novo pelo cais
e não recordar mais nada.
Esquecer os risos, as lágrimas
as esperas, a raiva, os teus olhos.
Esquecer o teu nome, os teus dentes
na minha carne, esquecer quem tu és
e esquecer quem eu fui, cortar
a golpes de machado as noites
do teu corpo no meu.
Arrancar da pele o teu cheiro, não mais
lembrar o dia dos teus anos, a rua onde moravas
o teu hálito, o som dos teus passos
os poemas lidos, os poemas escritos.
É preciso esmagar a memória, fazê-la sangrar,
rasgar as fotografias, as cartas,
sair deste corpo e esquecer-te.




Nas minhas pernas os soluços, no meu pescoço
os teus dentes, no teu corpo meu avesso. Enquanto dispo
as estrelas cubro-te de sementes que adoçam as feridas
e curam todo o sofrimento do mundo. Derrubamos todas
as taças, rompemos os tecidos e rolamos na areia imaginada.
Na desordem da matéria somos apenas frágeis libélulas concebendo
poemas. Entro nas tuas várias formas enquanto danço ao luar.
E o mar traz-nos rosas de vinho e lava-nos as entranhas.
Guarda-me nas tuas mãos e não me deixes cair, toca o meu rosto
ardente, limpa-me as lágrimas e leva-me clandestina, mesmo
que dure um segundo, mesmo que não dure uma vida.






Esquecer os risos, as lágrimas
as esperas, a raiva, os teus olhos.
Esquecer o teu nome, os teus dentes
na minha carne, esquecer quem tu és
e esquecer quem eu fui, cortar
a golpes de machado as noites
do teu corpo no meu.
Arrancar da pele o teu cheiro, não mais
lembrar o dia dos teus anos, a rua onde moravas
o teu hálito, o som dos teus passos
os poemas lidos, os poemas escritos.
É preciso esmagar a memória, fazê-la sangrar,
rasgar as fotografias, as cartas,
sair deste corpo e esquecer-te.




Sei que não vais dizer mais nada. E eu também
nada mais posso dizer, um adeus é um adeus.
Aqui fiquei, inútil sentinela, no jardim que secou. Acendo
fósforos e queimo memórias olhando a porta entreaberta
no esquecimento dos dias.
A chuva entra pela janela que esqueci de fechar
já não importa
o vento partiu os vidros e invadiu o quarto
sacudiu as cortinas, os papéis
teu roupão atrás da porta
o teu cheiro.
O tecto e eu escurecemos de bolor.


Fotos: © de Amadeu Baptista, com excepeção da foto da A., que lhe pertence; © dos poemas da A.


Dueto das Flores, de Lakmé. Interpretação de A. Netrebko e E. Garanca:






Inês Ramos nasceu no dia 22 de Agosto de 1965, em Agualva-Cacém. Mantém, desde 2006 o blogue sobre poesia “Porosidade etérea”, onde divulga os poetas e os seus livros. Foi responsável pela recolha, selecção e organização da antologia de poesia “Os Dias do Amor”, para a editora Ministério dos Livros, com poemas de 365 autores, editada em Janeiro de 2009.