terça-feira, 31 de maio de 2011

Iannos Ritsos, um poema




SOB O OLVIDO

    A única coisa que dele ficou, foi a jaqueta.
Penduraram-na ali, no grande armário. Foi esquecida,
apertada no fundo pelas nossas roupas, de verão, de inverno,
novas cada ano para as nossas necessidades. Até que um dia
chamou-nos a atenção, talvez pela sua estranha cor,
talvez pelo feitio da passada moda. Sobre os botões
estavam três paisagens circulares de forma parecida:
o muro de execução com quatro buracos, e à volta o nosso remorso.



(tradução minha, do castelhano - publicado no n.º 9 da revista Saudade, Amarante, 2007)





Iannos Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi internado em vários campos de reabilitação. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis e Odysseus Elytis, é considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Faleceu a 11 de Novembro de 1990.

O Elogio da Luz / 1


para Cristina Seixas Peixoto









segunda-feira, 30 de maio de 2011

Lançamento da Revista Ítaca # 3


Agenda: Sexta-feira, 17 de Junho, 18.30 h. Local: Livraria Bulhosa, Entrecampos, 10 b, Lisboa

A apresentação estará a cargo de Vasco Graça Moura

Gauguin



PAUL GAUGUIN: O CRISTO AMARELO (1889)

E sabíamos todos que a hora
era chegada e tudo em volta
escurecia,

e que, em Pont-Aven,
era chegado o tempo da colheita
e os campos estavam todos amarelos.

E aconteceu que as mulheres da Bretanha
ajoelharam,
e vinha eu no caminho
e vi a luz,

e os meus olhos cegaram para que visse
a roda do martírio
e o escárnio.

E aconteceu que as cores se saturaram,
e a paleta recebeu,
vindas do céu,
as cores

  e eu enchi a tela de perguntas,
e, pelo esplendor,
atirei-me ao chão
e em mim senti um som sombrio.

E vi , então, que as mulheres
choravam
e que os homens
não se compadeciam
de quem sofria,

e tudo tinha um brilho
esplêndido,
um brilho sobrenatural,
à minha volta.

E aconteceu que se ouviu cantar
o galo,
e que toda a terra se abriu para aquele brilho,

e os camponeses vieram,
e choraram.

E vi que preparavam varas novas,
e que as varas eram só espinhos,
e que o homem caía,

caía mesmo em frente aos nossos olhos,
que nada mais fazíamos do que o ver caído.

E eu tomei a tela e preparei-a,

e sangrava o homem
abundantemente,
e eu perguntei ‘quem somos?’
e nada se ouviu.

E chegou o crepúsculo
e, em volta, era só amarelo o que se via,

e o rosto do homem inundava-se de lágrimas e de sangue,
e arquejava-Lhe o dorso,
e puseram-Lhe aos ombros o madeiro.

E as mulheres da Bretanha
irromperam em choro,
e a multidão
adensou-se no lugar,
e suplicou o pão,
e os peixes,

e seguiram-No.

E vi as minhas cores queimadas pelo fogo,

e que os meus pincéis vibravam,
e misturei ao óleo terebentina,
enquanto o homem subia pelo monte
onde reinava o silêncio
e a abominação.

E perguntei:
‘quem somos, de onde vimos?’,

e em volta levantou-se um grande incêndio,
e as labaredas tomaram o lugar,

e era tudo amarelo nesse sítio.

E houve uma mulher que trouxe
água,
e com a água trouxe um pano branco,
e limpou-Lhe o rosto,
e o Seu rosto estava iluminado.

E eram amarelos os Seus cabelos,
e amarela era a Sua barba,
e a cruz, nos ombros,
era amarela,
como um topázio.

E, então, caiu o homem
pela segunda vez,
e as mulheres da Bretanha
arrancaram os cabelos,

e olharam em redor
para que chegasse algum socorro,
de onde quer que fosse.

E os campos em volta permaneciam amarelos,
e eu prendi aos dedos o pincel
porque toda a terra tremia

e o coração
saltava-me do peito,
e a cabeça doía-me
e pesava-me.

E o homem seguiu, arrebatado
pela dor,
e um outro homem veio em Seu auxílio,
e eram grandes as feridas,
e deitavam muito sangue.

E as mulheres da Bretanha
seguiram com Ele,
e vacilavam-Lhe os passos,
e o Seu corpo
era todo amarelo,

a boca,
as mãos,
os pés.

E assim se acercou do cume da montanha,
com as mulheres da Bretanha sempre atrás,

e havia soldados
e outros condenados,
que o viram cair pela terceira vez.

E Ele levantou-se,
e a multidão exultou nesse momento,
e eu, com o pincel, fiz o esboço
daquele quadro de grande sofrimento.

E uma das mulheres chamou-Lhe ‘filho’,
e outra ‘amado’,

e a elas se juntou outra mulher
que Lhe chamou ‘irmão’,

e, nos seus vestidos,
caíram lágrimas de sangue e de estupor.

Do meu pincel só o amarelo
permitia
estender-se na tela,
e tudo era amarelo,

os campos em volta,
o rosto de quem estava,
e a cruz.

E cravaram-Lhe as mãos e os pés
àquela cruz,

e tudo em volta foi um só silêncio,
e parecia que a terra dimanava
um odor amarelo,
que só as mulheres da Bretanha compreendiam.

E um soldado
veio com a esponja
embebida em vinagre,
e prendeu-a a um ramo,
e deu-Lhe de beber, porque a sede
o martirizava.

E eu executava a minha obra,

e tudo era amarelo à minha volta,
as árvores,
as colinas,
as casas que se viam do ponto onde estava.

E o tempo passou,
e olhei o homem,

e olhar a Sua face pacificou-me,

porque o homem sorria
por ver a multidão
a partilhar o pão
e os peixes
que Ele lhes entregava.

E a terra tremeu,

e vi tudo amarelo à minha volta,
e as mulheres da Bretanha olhavam-No
a sorrir,
enquanto eu perguntava:
‘quem somos, de onde vimos, para onde vamos’?

E na linha do horizonte vi os anjos,

e as asas dos anjos
cintilavam,

e cintilava, também, esta pintura
onde, em silêncio, pus
as mulheres da Bretanha,

e o Cristo amarelo
com o meu rosto.


(in Doze Cantos do Mundo, Sintra, Edição CM Sintra, 2009)


O Outro Lado das Nuvens / 7


domingo, 29 de maio de 2011

Os Poetas do Café, 1981 - 30 Anos


30 anos passados, aqui se assinala o lançamento da publicação colectiva Os Poetas do Café, que ocorreu exactamente no dia 29 de Maio de 1981. Reunia poemas de autores que frequentavam (uns mais do que outros), em generosa e animada tertúlia, o Café Diplomata, no Porto. Ao tempo, foram inúmeras as repercussões que este pequeno volume suscitou, tendo-se constituído como uma referência relevante para a actividade cultural da cidade; António José Saraiva e Óscar Lopes assinalam-no na História da Literatura Portuguesa. Colaboraram: Álvaro Magalhães, Amadeu Baptista, António Campos, Arnaldo Saraiva, Aureliano Lima, Eduardo Chiote, Egito Gonçalves, Helga Moreira, Isabel de Sá, Jorge Sousa Braga, Jorge Velhote, José Emílio-Nelson, Laureano Silveira, Luís Veiga Leitão, Manuel Alberto Valente, Maria da Glória Padrão, Mário Cláudio, Vergílio Alberto Vieira e Vítor Oliveira Jorge.

Contribuí com este poema, que, posteriormente, incluí em Green Man & French Horn:


ROYAL LABEL BLACK

 (a Ruy Belo)

Este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento;
vai connosco até à rua; responde-nos
um cigarro primeiro, uma construção na areia, depois um ferro
a espetar nas dunas e no mar
enquanto o mar houver e a paz durar;
come connosco à nossa própria mesa; ama a nossa mulher
e experimenta o odor da nossa casa aonde os nossos filhos
lhe entram pelos joelhos, o cobrem de carícias, lhe atiram
a satisfeitíssima bola de brincarmos aos adultos quando é tarde
ou os dias apresentam um cariz de pouca chuva.

Divide o nosso frango, a frugal fruta, as sobras do almoço
e sai-nos portas dentro quando o pôr-do-sol, a solução do sol, o sol
das terras de portugal e das noites de madrid
dialoga connosco, connosco estabelece a nítida fronteira
entre aeroportos, casas – oh as casas – e a mulher que,
podendo ser a de um estivador, do camisola amarela, desse
irreverente basquetebolista que por um grande azar não é das nossas relações,
foi, é, será sempre a mulher
encontrada e perdida na poeira, nas arcas, nas infâncias multicoloridas
que parcimoniosamente nos excedem.

Procura, sim, procura as cores do nosso entendimento;
bebe do nosso vinho; vai à missa connosco; veste-nos
a pele de lobos esfaimados nesta selva de ratos onde os ratos
se confundem com navalhas, intelectuais empalhados, inquiridores
por conta d’outrem (e própria), só para que o amor
um pouco sobreviva, exíguo e tenso; ri
às bandeiras despregadas como só um menino, como só
alguém que sabe da poda pode rir
enquanto os táxis, o choro, as dores de consciência
- que afinal não há, embora os cais… – atravessam o meio-dia, desesperadamente.

Ah, este homem procura as cores mais secas
do nosso entendimento; limpa-se
às nossas toalhas; chega
ao extremo de utilizar a escova privada da nossa privadíssima higiene; rompe
os nossos sapatos (meias inclusive); joga
à pancada connosco, ao eixo; e rouba-nos a carteira
como só quem sabe sorrir pode roubar-nos, pode
assinar de cruz por nós, solucionar
o problema da nossa talvez habitação
sem prestígio nenhum, ao menos uma praia de consolação em que morrer

com o mesmo à vontade, modéstia e alegria
deste homem que procura,
procura as cores mais secas do nosso entendimento.


(in Vários, Os Poetas do Café, Porto, Edição dos Autores, 1981 e Green Man & French Horn. Vários, A Jovem Poesia Portuguesa /2, Porto, Limiar, 1985)




Na foto (da esquerda para a direita): Aureliano Lima, Egito Gonçalves (atrás), Luís Veiga Leitão, Mário Cláudio, Helga Moreira, Isabel de Sá, Álvaro Magalhães, António Campos, Arnaldo Saraiva, José Emílio-Nelson, Jorge Velhote, Laureano Silveira, Amadeu Baptista. Em baixo, à frente, Manuel Alberto Valente e Maria da Glória Padrão.

O Outro Lado das Nuvens / 6

para Aliete Matias


 





sábado, 28 de maio de 2011

A Vida das Pedras / 2




Outros Domínios (Clamor por Florbela Espanca), 2011



2.
Creio ter aqui chegado por um certo engano,
e por isso o meu nascimento foi uma avareza de rosas,
e os cães rosnaram no extremo da charneca, e um uivo
inquietou a solidão doirada da planície para que algo
me dissesse como estou aqui, como cheguei aqui,
como o meu leite é negro sob a tempestade dos homens
e os elementos não sabem como interromper a ameaça.

Onde anda meu pai a esta hora infinita, não sei.
De todos os lugares chegam vozes impossíveis,
e o meu berço azul brilha no centro da terra, nesta casa
de cal, nesta branca tirania da suavidade, que Eliat ignora
e só um mar vermelho poderia aquietar.

Venho à vida, e venho a um lugar estranho onde as vozes
se levantam para murmurar, e por murmurações
entendo a condenação à fogueira, e a chuva de larvas
nos campos em volta, e os cavalos desenfreados
que vão de igreja em igreja procurar a redenção,
e os homens que, nas tendas, preparam as facas.

Aqui nasci, e não tenho onde repousar a cabeça, e nada
vem transformar a água em vinho, e a minha língua arde
pela impossibilidade de escolha das primícias, sendo que quero
uvas, maçãs, um pêssego absoluto, e toda a paz da planura,
toda a paz da humildade, enquanto os meus mortos revogam
os meus cânticos, e eu canto como cantam as raparigas de Jerusalém.


 
(in Outros Domínios Clamor Por Flobela Espanca, Coimbra, Temas Originais, 2011)


sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Poeta e o Burro, 2010




Platero é um burro pardo,
manso como um sussurro.
Dono de um trote alegre,
vai ter com Juan Rámon

sempre que o ouve chamar
para lhe dar de comer.
Come tudo o que lhe dão:
laranjas e tangerinas,

uvas da cor do âmbar
e figos arroxeados,
com as suas gotinhas de mel.
Platero é de algodão,

parece que não tem ossos.
Por fora é muito mimoso,
embora seja, por dentro,
forte e seco, como as pedras,

e o seus olhos sejam duros
como espelhos de azeviche.
Mas é claro o seu olhar,
muito brando, muito doce.






(in O Poeta e o Burro, Matosinhos, QuidNovi, 2010)

Ilustrações de Raquel Pinheiro

A Vida das Pedras / 1




quinta-feira, 26 de maio de 2011

António Cabrita, Lançamento em Maputo



Agenda: dia 27 de Maio, 18.00 horas / 21.00 horas. Livraria Minerva, Rua Consiglieri Pedroso, 66/84, Maputo, Moçambique.


António Cabrita (1959), escritor português, residente em Maputo, lança
pela primeira vez uma obra literária na capital moçambicana, o livro
de poesia «Não se Emenda, a Chuva», publicado pela editora portuense
Livros de Horas.

Estrela de Bizâncio, 2010


(fragmento)

O tempo existe, eu conheço-o, tem apenas a ver com o que os olhos vêem mesmo, com essa parte corpórea que jamais se extingue dentro da cabeça e da alma, como um rastro de alta emoção marcado num mapa por milenares sinais de assombro e cristal. Nesse mapa páginas compactas fixam os dias e as noites que acontecem simultaneamente em mim, aqui vibra uma estrela, ali há um ramo de urze e de giesta, além há árvores, bicicletas, sacos de trigo, gente encarregada de recensear os habitantes da aldeia, gado, um ancião que procura provas irrefutáveis da existência de deus, um vedor de rosas, crianças que brincam às escondidas, um caçador furtivo que larga um furão à entrada de uma lura, um coelhinho branco, uma avioneta azul que sobrevoa a seara, uma nuvem com a forma de um dragão, uma andorinha no beiral do celeiro, uma urna aberta em frente à entrada lateral da capela nova, o cão a dormir na soleira da porta, o gato amarelo a lamber a pata, a primeira melancia, o primeiro melão, a debulhadora parada no final do lameiro, a ardósia partida em que a luz incide,  a lamparina acesa sob a sombra delida, o saco de batatas encostado ao taipal, a garrafa vazia que já ninguém procura, a foice pendurada sobre a porta, um violino e um arco guardados num estojo verde, o lençol branco acabado de passar, a tigela grená que à janela seca a marmelada, a tesoura de poda esquecida no alpendre, o candeeiro a petróleo que ninguém acende, um sapato a que falta o par, uma trança de mulher guardada numa renda, uma teia de aranha iridescente, os restos de uma fogueira, a sombra de uma espingarda, uma cesta com maçãs, um colchão em ruína, as contas de um rosário, a estampa de um leão, uma dentadura velha, um dedal e uma tesoura, uma meada de ráfia, um saquinho de sementes, um relógio sem ponteiros, um prato com moedas, um cinzeiro esbotenado, uma caneta sem tinta, a aba de uma mesa quebrada, a pega de um castiçal, um rebanho de pardais, o fuso, a lançadeira, uma coruja empalhada, um ramo de violetas, sete chaves ferrugentas, a opa do sacristão, um sino que ninguém toca, livros de deve e haver, grosas e grosas de lápis, ainda por afiar, um prato pintado à mão, pingos de tinta no chão, diversos frascos vazios, um lacrau sob uma pedra, duas gotas de água benta, a miniatura de um carro com um burrico a puxar, são josé e o menino numa gravura rasgada, folhas secas, uma panela furada, uma lata de sardinhas, a planta de uma casa, um selo da lituânia, cinco quilos de laranjas.


(in Estrela de Bizâncio, Torres Vedras, Ed. Livrododia, 2010)


Prémio de Poesia e Ficção de Almada, 2005

Porto, Porta, Perto / 2



quarta-feira, 25 de maio de 2011

Van Gogh



VAN GOGH: CAMPO DE TRIGO COM CORVOS (1890)

(para Joaquim Cardoso Dias)

É cedo em Auvers-sur-Oise,
mas os malfeitores permanecem vigilantes.

Desde que me lembro a minha vida
é uma fuga

– fujo dos malfeitores

e, por isso, a minha cabeça não aguenta,
a minha cabeça treme,

e estou só,
e atravesso a terra de ninguém
como se fosse perseguido pelo demónio
e o demónio se aliasse aos anjos,

e tudo fosse, na terra de ninguém,
essa conjura.

É cedo em Auvers-sur-Oise,

e noto as cores
da perseguição,

verdes, azuis e cinzentos
convocam-me os sentidos,

mas estou alerta,

alerta como só um louco pode estar,
ou um profeta.

Theo,
tal como as nossas brigas,
também o sangue que me corre nas veias é eléctrico,

e é preciso que eu parta,

é preciso que eu parta,
definitivamente.

As paixões enervam-me,
destroem-me.

E já não sei como dormir,
como cuidar que a navalha
esteja num lugar em que a não veja,

porque a navalha, Theo,

fascina-me,

e, às vezes, odeio esta maldita pintura

que fez soçobrar o meu amor
e a minha vontade.

Os malfeitores permanecem vigilantes,

e eu só quero o sul,
só quero, cada vez mais, o sul,

e é com o sul que sonho
cada noite,

a navalha,
o sul,
o quadro inacabado
que aguarda
a indecisão da minha espátula.

Ainda não sei, Theo,
porque nasci

– um homem vem ao mundo
para trabalhar nas minas
ou arrotear os campos,

não vem para que se entregue ao suplício
e nele ponha a sua devoção
e a miséria.

Fosse eu um homem diferente, Theo,

o homem que julguei capaz de ser,

e talvez no hospital me entendessem
e deixassem de me olhar
como o vagabundo que sou,

com a roupa manchada de tintas
e este rosto de quem vive o tormento
de passar sem indiferença
pelos seus semelhantes.

Preciso, Theo,
do consolo das tuas palavras,
e de pincéis comuns,

e de alguém que me visite na prisão,
se eu for preso
por ter perdido a cabeça,
(treme-me, a cabeça)
e me ter insurgido contra a turbulência
com que me perseguem.

Ontem fui à taverna, Theo,

e as cores deslumbrantes com que vi aquilo
pareceram-me ser de uma bondade infinita

– trabalhei toda a noite,
e é inimaginável como o trabalho me rende
quando esta febre chega

e as cores,
todas elas,
zunem nos meus ouvidos,
se expandem no meu crânio,

e descem pelo meu braço:

há um laranja saturado que só eu sei
que existe,

a luz envolve-o,
as sombras querem conspurcá-lo,

mas eu resisto, Theo,

trabalho incessantemente

e rezo, baixinho,
para que Jesus me ouça.

Em presença deste laranja,
meu irmão,
fico em pleno uso das minhas faculdades,
(sim, a cabeça, a cabeça treme-me por dentro)
e sorrio dos que me chamam louco,
e aprovo-lhes a decisão de me manterem afastado
dos favores do álcool:

fico à porta da taverna
e o espírito eleva-se,
e fico ali,
sozinho,
a tentar pescar a terra.

Não, não me empanturro de vinho,
de grão-de-bico e lentilhas,

farto-me, isso sim, desta cor,

que é a cor da transfiguração
e do equilíbrio,

porque sou imundo e intocável,
por mais que os malfeitores me persigam
e eu seja desequilibrado
(treme-me, a cabeça).

Quero tocar com as mãos
coisas que nunca vi,

sem receio,
atravesso os campos enrubescidos
pelo dilúculo matinal
e ouço vozes,
ao longe,

ouço vozes desconhecidas
que me chamam

e me fazem ver o incriado,
a miragem,
a alucinação.

Não temo:

tingido de carmim,
o horizonte espera-me,

e os malfeitores perseguem-me,

e sou como Isaac
a morrer às mãos do anjo mensageiro

e corre-me pelas veias
um sentido de grande utilidade:

pinto e pinto,
e a luz absolve-me do mal
e da maldade.

Theo,

há momentos em que a terra se cobre de papoilas
e eu possuo todas as riquezas da terra,

e sou um pobre pintor
a exultar pela magnificência,

por este ocre queimado, da cor
dos peixes da terra,

por este laranja-de-cádmio
que me reconforta,

por este vermelho,
vivo e condescendente.

Um dia há-de chegar a revolta
dos desprotegidos,

e os malfeitores saberão
o que vale efectivamente perseguir
quando a tristeza perdura

e só um tiro de pistola
vem resolver a contenda
indisputável, Theo.

Por isso, vou para sul

e há-de ser a sul
que me encontrarei com Deus.


(in Doze Cantos do Mundo, Sintra, Edição CM de Sintra, 2009)

Madrid em Maio

A Ausência de Sombra / 2





terça-feira, 24 de maio de 2011

O Ano da Morte de José Saramago, 2010




(fragmento)

E é então que a saudade se expande como palavra portuguesa
e eu volto à infância, enquanto tu, Dempster das Irlandas que não há,
revives e oficias o K3 dessa Guiné repulsiva para que o fascismo te mandou,
como se houvesse uma nova crónica do descobrimento e conquista da Guiné a ampliar
a que o Zurara escreveu, e nada se cria ou se perde, e tudo se transforma,
como a antiga lei nos disse, e de versos se inça o exílio que jamais projectamos
e, sem mais, o acaso da vida, pelo seu ábaco infeliz, nos ordenou –
e sabemos que os poemas sujam tudo,
tal como os pombos, as pombas, os ratos, os pais que nos traíram,
e todos os que traíam as infâncias que, como as nossas,
foram vividas a golpes de marcas nos costados pela sovas iníquas
que nos deram

Falemos de exemplares vivos e pios de aves,
o centro da cidade é uma loja chinesa na ordem geral do mundo,
nós estamos a viver algures entre a rua Formosa e a rua da Paz
e o dia de hoje, claro como há muitos dias não havia, enche-se de sombras,
e eis que acabam de bater as doze e quarenta e cinco e morre, em Lanzarote,
José Saramago, tão pombo como nós na refrega das coisas que nos escapam
entre os dedos como se não fossem mais que jangadas de pedra onde nenhum
ente divino se senta à nossa mesa por um café – falemos
da inexprimível solidão dos poetas, esse luto

Vejo-me como um homem calado, vejo assim os poetas,
vemo-nos como homens calados que não podem estar calados,
ou que estão cegos e não podem estar cegos,
ou que não podem deixar de deambular na cidade,
porque há uma pedra a levantar do chão,
um povo a levantar,
uma infância a levantar

É, foi na infância que o descontrolo se arrostou,
aquele odor a sal e a vinagre palpita ainda no meu cérebro,
ligamo-nos assim à terra, a olhar o interior das mercearias,
dos pomares,
a surpreender a alegria que se faz pela interposição do silêncio
com as palavras vitais, o rego de sangue que se abriu
na via do caramanchão quando ficou determinado o lugar das alucinações
e se abriu a porta para um determinado ponto da cidade,
esse mesmo onde caímos pela primeira vez

O que lá está é nosso e não nos pertence nunca, o olhar
deslumbra-se por esses cavalos, essa estátua, esses pombos,
provera a Deus e seríamos meninos para sempre com essa brisa no rosto,
os barcos estão cheios de carvão, discorrem sobre eles as mulheres
que pelas tábuas passam e carregam à cabeça largos cestos de vime,
e é como se fossem podoas a escandir o ar, como se fossem
a nossa misericórdia irremissível


(in O Ano da Morte de José Saramago, Lisboa, & Etc, 2010)

A Ausência de Sombra / 1


FITEI



34ª. Edição do Fitei - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, a decorrer de 27 de Maio a 5 de Junho de 2011, no Porto e em Matosinhos.

Website do Festival: http://www.fitei.com/


 

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Madrid em Maio - Solidariedade p/ Movimento 15 M




GOYA: A FAMÍLIA DE D. CARLOS IV (1801)

(para Táti Mancebo e Alfredo Ferreiro)

Assim como há o cinismo,
há uma gramática do cinismo.

Cada mestre usa o seu
à luz do seu compêndio,
com  forças à deriva,
e consubstanciando
o alarde da pintura.

Tomemos o exemplo
da família real,
esta ou qualquer outra.

Se olharmos bem os rostos
vemos o que Deus
falha no mundo

– as insipiências
onde a criação é um malogro.

Mas o cínico sou eu,
embora o Príncipe
esteja talhado para a maldade,
com o corpo a três quartos,
olhando para trás,
sem profundidade,
mas a arrogância que é própria dos príncipes.

O Rei é uma amálgama de sucata,
que a idade sutura
e um certo ai que não dói
que se escuta em toda a corte,
lavando-lhe as mãos
na promiscuidade,
enquanto acata as ordens da Rainha.

Esta, ao centro do painel,
é só os braços
que mostra por contraste
com a riqueza insultuosa do vestido
paramentado de rendas espanholas
e formas que, há muito,
exercem a lascívia
a bom recato.

O mais são tétricas figuras,
que uma Princesa apoia colocando a altivez
em contraponto com gente impaciente pelo almoço
e as fatias de presunto quando a tarde
os puser a caminho do curral.

Lamento que a pintura não faça ouvir
os ruídos da rua,
o povo com os sacos de carvão sobre os ombros
e as putas com os ombros sobre os sacos de carvão.

Lá fora o mundo é a mais valia
do conjunto,
sendo que tudo está lubrificado
para que se note o estupro
e seja Deus, Nosso Senhor, crucificado.

E o cínico sou eu.

Por isso, à esquerda,
onde há um ponto de luz
que a sombra alcança,
olho de esguelha o universo
e quase que parece que sorrio.

Não é verdade.

A esse canto,
onde fito como posso os que estão,
sendo que os vejo de frente
e de joelhos,
queixando-se do reumático,
apenas conjecturo
como há aberrações
que podem tudo.

Passei por Moncloa
a um fim de tarde,
começava Maio
e dos campos desprendia-se
o odor sereno e violento
que há na terra.

E vi
como os massacres são, ainda,
o pão de cada dia,
por mais ou menos cínicas
que sejam as pinturas,
ou as armas estejam prontas para o abate.

E o meu coração
anotou tudo:

– a luz, sempre vital,
o pelotão de anónimos
e as suas vítimas,
a centelha de fogo,
ou água,
no olhar do condenado.

E, já tendo visto tudo,
quero dizer,
já tendo visto em excesso
deste excesso de vergonha
sem vergonha,
aferi o meu lugar
na tábua rasa em que vivo,
e morro,
e, sem sonhos, durmo.

Preciso de água forte para dessedentar
o rumo a que o desespero obriga,
pincéis de cerdas duras,
espátulas cortantes,
paletas invisíveis
onde as cores, fortíssimas, latejem.

Preciso de fulgores
e circunstâncias
onde uma ardência nos olhos possa ser
um sinal
de redenção,

enquanto o povo
é à míngua que morre
e eu, cínico sendo,
página a página leio este compêndio
que os cínicos maiores que o meu cinismo
instituíram.

Pudesse eu regressar a Fuendetodos,
ou fazer pintura sacra,
cheia de entorses e nervos,
com o Cristo ladeado de ladrões,
como eu estou.

Provavelmente,
entre a maga vestida e a desnuda,
preferiria chorar
até ao fim do mundo,
chorar
e abrir as veias:

para que o sangue corresse
e a pintura tomasse um outro rumo
de cores,
difusas, se possível,
repartidas.

Mas eis que a doença chega
e a vivacidade se esvai,
e estou cego
e totalmente surdo

e sou, assim, o cínico do retrato
a conferir ao mundo o mundo retratado
e os seus caprichos,
enquanto os desastres
e a guerra submeto
nas gravuras.

Já nem sei o que digo,
o tempo sobrevoa-me as têmporas
e onde estive não estou,
estando sempre
algures,
mais ano para a frente ou para trás,
mais cão ou menos cão nas telas,
mais cínico ou menos cínico
entre os cínicos.

O Príncipe, o Rei e a Rainha:
vesti-os de cores vivas
e, contudo, é de luto que está a minha arte,
porque, por esta comitiva,
nem para a eternidade
ressuscito.

Mas persisto.

Para isso é que o cinismo
recebe do cinismo
moedas de oiro,
e posso, quando posso,
com o branco de espanha
misturar azul cerúleo,
e ao verde-bétula
juntar óxido de ferro,
para que o esplendor da luz
seja o que é, na obra:

  fútil, sem glória,
como é cada guerra,
embora lute sempre,

e não lhes dê tréguas, nunca.

Este é meu tempo:
tomai e bebei.

Este é meu tempo,
tomai e comei.

Por mim, como sempre, estou
cheio de fome.


(in Doze Cantos do Mundo, Sintra, Edição da CM Sintra, 2009)




Poética da Floresta / 2